quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Herança africana no Brasil



Enquanto os malfeitos do presente monopolizam a atenção da mídia e das redes sociais no Brasil, recentes escavações no centro do Rio, por conta das obras de revitalização da zona portuária para as Olimpíadas de 2016, revelaram um passado sombrio de nosso país que não pode ser esquecido. Trata-se do Cais do Valongo, o maior sítio arqueológico da diáspora (dispersão) africana em todo o mundo. Por ali teriam passado cerca de 1 milhão de escravos no século XIX, caracterizando o local como o maior porto escravagista da história. Essa é uma herança que não nos honra mas que devemos cultuar em memória daqueles que, mesmo tratados como sub-humanos, deram uma contribuição decisiva para a construção da identidade do povo brasileiro.


domingo, 17 de novembro de 2013

O mensalão e a polarização política no Brasil


A repercussão, na mídia e nas redes sociais, do episódio da prisão dos envolvidos e condenados no chamado mensalão revela um acirramento dos ânimos em relação ao quadro político nacional que chega a ser assustador. É como se a sociedade estivesse dividida, colericamente, entre os que demonizam tudo e todos relacionados direta ou indiretamente com o governo federal e o PT, e aqueles que os apoiam incondicionalmente, haja o que houver, apesar de possíveis evidências de erros e "malfeitos" na condução da coisa pública. 
O processo de consolidação de nossa ainda tenra e vulnerável democracia requer muito mais do que a polarização raivosa e destrutiva verificada atualmente no país. E nenhuma liderança política, independentemente de ideologias, demonstra estar à altura do desafio de mudar esse quadro. É uma pena.


Miriam Makeba na Alemanha: parece que foi ontem!



Essa homenagem que fizeram ontem no Rio, durante o festival Back2Black, a Miriam Makeba, cantora sul-africana falecida em 2008, com a participação de Gilberto Gil e Alcione, me fez lembrar de um episódio bacana que vivenciei há quase 20 anos. Foi em maio de 1995, mais precisamente no dia 24, uma quarta-feira, quando eu estava visitando pela primeira vez meus amigos em Heidelberg, na Alemanha. Ao me receber na estação de trem, ainda pela manhã, minha amiga Cristina me convidou para ir com seu companheiro Armin e outros amigos ao show que Makeba daria à noite no principal ginásio da cidade. Aceitei logo, claro, mas confesso que esperava qualquer programa para aquela noite especial na Alemanha, nunca, porém, um show de uma cantora africana, que, aliás, fez muito sucesso no Brasil, lá pelos anos 70, especialmente com uma música - "Pata Pata" - ou, como costumávamos dizer na época, "tá com pulga na cueca!". Com tudo acertado, resolvemos passar numa drogaria (?!?!) para comprar os ingressos, ainda em marcos alemães.
À noite, para minha surpresa, testemunhamos o ginásio lotado de loirinhos de olhos azuis, exultantes com a performance da negra africana. Ela cantou por aprox. 2 horas e saiu ovacionada do palco, não sem antes oferecer vários "bis" ao público extasiado. Foi ali que, pela primeira vez, percebi que os alemães não perdem uma oportunidade de curtir a cultura negra ou africana, ou pelo menos qualquer coisa que soe diferente dos padrões germânicos. Não todos, é verdade, mas certamente muita gente, a ponto de lotar ginásios numa bela noite de dia útil e fora do período de férias, como foi o caso.
Após o inesquecível show, fomos jantar num restaurante à beira do rio Neckar, numa noite agradável de primavera, onde as conversas ainda repercutiam bastante a performance da saudosa Miriam Makeba. De alguma maneira, portanto, ela faz parte das melhores lembranças da minha vida. Que Deus a tenha!


sábado, 16 de novembro de 2013

O melhor de Alan Silvestri

Assistindo agora há pouco, no canal Universal, a algumas cenas de "O Retorno da Múmia", de 2001, resolvi ouvir a excelente trilha sonora que Alan Silvestri escreveu para o filme. O compositor tem uma carreira consolidada em Hollywood e já compôs obras antológicas,  como é o caso de "De Volta para o Futuro", que se confundem com os próprios filmes a que servem. Nunca, porém, esteve tão perto da perfeição como em "O Retorno da Múmia". Seu score para este filme não fica a dever em nada ao ótimo trabalho do mestre Jerry Goldsmith para o original "A Múmia", de 1999. Na verdade, quando ouvi a trilha sonora pela primeira vez não acreditei que era de Alan Silvestri. 
Mais tarde, em 2004, na tentativa de alcançar a excelência do score anterior, o compositor criou algo parecido para "Van Helsing", que não passou de um arremedo de sua trilha sonora de 2001. Mas ele ainda tem crédito!

sábado, 2 de novembro de 2013

Marian Dougherty e a revelação de ídolos em Hollywood



Acabei de assistir na HBO ao documentário "Diretor de Elenco", exibido no último Festival do Rio, sobre Marian Dougherty, falecida em 2011, certamente a mais prestigiada diretora de elenco de Hollywood. Ela fala da experiência acumulada ao longo de décadas na escolha de atores para produções americanas, apostando em novatos como John Travolta, Dustin Hoffman, Al Pacino, Diane Lane, Clint Eastwood, Sigourney Weaver, Christopher Walken, Warren Beatty, Gene Hackman e Jeff Bridges, dentre outros, que mais tarde se tornariam grandes ídolos do cinema. 
O episódio mais interessante do documentário abordou a dinâmica de escolha dos protagonistas de "Perdidos na Noite" (1969), um dos sucessos mais corajosos e improváveis de toda a história de Hollywood, por retratar uma dupla de personagens perdedores num filme que não faz concessões mercadológicas no final. Na produção, John Voight e Dustin Hoffman, em início de carreira, realizam performances memoráveis que marcariam para sempre suas carreiras. Dustin decolou, já John Voight... 
Infelizmente, com o processo de infantilização do cinema, iniciado no final da década de 70 (receio que por obra e culpa de George Lucas e Steven Spielberg), não há mais espaço para filmes como esse na indústria cinematográfica.


Jack Wild, uma vida arruinada pelo vício


Jack Wild é o caso mais trágico que eu conheço de um jovem talentoso que pôs tudo a perder com o vício em álcool e cigarro. Ele começou a beber e a fumar aos 12 anos, o que arruinou a carreira, o casamento com a namorada de infância e a própria vida. 
Indicado ao Oscar de ator coadjuvante aos 16 anos, pelo papel de Jack Dawkins, o batedor de carteiras mirim do filme "Oliver" (1968), Wild passou a vida adulta praticamente no anonimato, fazendo pontas aqui e ali e alguns papéis secundários no teatro. O vício duplo iniciado na infância só aumentou com o passar dos anos e o esquecimento pela mídia. Morreu aos 53 anos, em 2006, vítima de câncer de boca, tendo passado os 3 últimos anos de vida sem poder falar, por causa do tumor. Ele mesmo admitiu que seu estilo de vida o transformou numa verdadeira bomba-relógio. Uma triste história de vida que, infelizmente, está longe de ser rara no meio artístico. Apurei tudo isso logo após assistir à homenagem aos artistas falecidos em 2006, na entrega do Oscar 2007. Assim que vi o nome dele na tela e as cenas de "Oliver", lembrei-me do filme e principalmente da série inglesa de tv "A Flauta Mágica", da qual participou e que chegou a passar no Brasil (acho que na TV Excelsior) quando eu tinha uns 10 anos. O programa marcou minha infância e Jack Wild fez parte disso.
Outro filme da época com Jack Wild foi "Melody - Quando Brota o Amor", uma comédia romântica de 1971 na qual o jovem é mais uma vez coadjuvante de Mark Lester, o protagonista de "Oliver". A ironia em "Melody" é que Wild desempenha o papel de uma criança rebelde (ele já tinha 18 anos, mas era miúdo) que, de vez em quando, consome bebida alcoólica. O que parecia uma inocente travessura na história, ou um simples papel no cinema, acabou se tornando uma triste realidade na vida do jovem ator, que acabou o levando à morte.



Regras para espionagem?



Brasil e Alemanha se uniram na ONU para aprovar regras para espionagem. Os discursos foram ótimos e as medidas propostas obtiveram o apoio da maioria dos países, mas dificilmente tornarão o mundo menos sujeito às bisbilhotices dos mais poderosos. 
Na verdade, o maior problema que eu vejo nessa questão da espionagem praticada pela agência de segurança americana (NSA), que alcança indiscriminadamente inimigos e aliados, é a própria divulgação do fato. Todos os governos sabem (ou deveriam saber) que isso sempre existiu, e não são ingênuos (ou não deveriam ser) a ponto de achar que vai acabar. Vamos ser honestos, os que não espionam não o fazem por falta de meios ou por incompetência, quase nunca por princípio.
Mas admito que a divulgação da prática, principalmente quando envolve aliados, cria uma situação embaraçosa para ambas as partes, já que revela falta de confiança entre os países. Para o cidadão comum, isso é inaceitável. Portanto, é louvável e legítima a iniciativa conjunta de Brasil e Alemanha, "vítimas" da NSA, no sentido de criar medidas que tentem coibir os excessos, o que representa uma espécie de satisfação para o público interno. Porém, como não acredito (há bastante tempo) em Papai Noel, nem em coelhinho da Páscoa, considero praticamente nulas as chances de ocorrer qualquer mudança significativa na prática de espionagem no mundo. Quem pode espionar vai continuar a fazê-lo, a despeito de tudo e de todos. 
Por fim, embora devamos aspirar sempre a um mundo melhor, mais transparente e menos cínico, e trabalhar efetivamente por isso, não é possível alimentar ilusões a respeito desse assunto. 



quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O instrumento dos deuses



O "instrumento dos deuses", é assim que vejo (ou ouço) a trompa, um instrumento musical da família dos metais quase tão antigo quanto a civilização, já que sua história começa há milhares de anos com a utilização de chifres de animais. Foi somente a partir do século XIV que o instrumento passou a ser confeccionado com metal, passando por diversas transformações com o passar dos tempos, até chegar à forma que apresenta em nossos dias.
E parece que os compositores de trilhas sonoras, em justa reverência aos deuses e suas preferências, desenvolveram, por gerações, um verdadeiro caso de amor com a trompa, um dos instrumentos mais expressivos da orquestra moderna. O som aveludado produzido pelo conjunto de trompas, que pode ir do doce e melancólico ao solene e grandioso, tem forte presença nos scores de praticamente todos os gêneros cinematográficos, conferindo às narrativas, sejam elas simples ou épicas, uma atmosfera de puro encantamento.
Por isso mesmo, o som da trompa, que alcança uma enorme variedade de timbres, é, de longe, o que mais aprecio numa performance orquestral, e não apenas na execução de músicas de filmes. O instrumento está presente em todas as sinfonias de Beethoven, Brahms e Mahler, compositores pelos quais tenho grande admiração. Richard Wagner, que dispensa apresentações, chegou a criar uma nova trompa (a trompa wagneriana), destinada ao seu ciclo de óperas "O Anel do Nibelungo" (O Ouro do Reno, A Valquíria, Siegfried e Crepúsculo dos Deuses). O instrumento modificado, que combinava elementos tanto da trompa original quanto da tuba, acabou agradando e passou a ser adotado por outros compositores, como Richard Strauss, Igor Stravinsky e Béla Bartók.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

A melhor biografia da MPB



Em tempos de proibição de biografias não autorizadas, circulam notícias de que voltará em breve às livrarias a de Noel Rosa, de autoria de João Máximo e Carlos Didier, lançada em 1990 pela Editora UnB, em edição comemorativa do 80º aniversário de nascimento do compositor.
A obra, considerada a mais importante já realizada sobre uma personalidade da MPB, está fora de circulação há vários anos, por iniciativa dos herdeiros de Noel, que por muito tempo alegaram a necessidade de preservação da privacidade da família. 
Em 2012, uma decisão final da Justiça liberou a publicação do livro, que só está aguardando a definição da editora responsável, Companhia das Letras ou José Olímpio, ambas interessadas no projeto.  
Embora não seja o gênero de música que mais me agrade, compreendo perfeitamente a importância da obra de Noel Rosa para a cultura brasileira. Por sorte, tenho um exemplar do livro em perfeito estado, que dei de presente de aniversário ao meu saudoso pai, o maior fã de Noel que conheci em toda a minha vida.


Insensatez em dose dupla

1 - Supremo Tribunal da República Dominicana tira a nacionalidade de filhos de pais estrangeiros ilegais nascidos a partir de 1929. A decisão afeta diretamente 3 gerações de dominicanos, ou meio milhão de pessoas! 
Punir imigrantes ilegais após décadas de permanência no país, tornando seus descendentes apátridas, chega a ser surreal.


2 - Presidente francês, François Hollande, propõe retorno ao país de menina de 15 anos deportada com a família para Kosovo, desde que volte sozinha, deixando pais e irmãos para trás. 
Propor isso a uma criança em pronunciamento pela TV é uma verdadeira infâmia! Se não pode oferecer nada melhor, ou mais decente, que fique calado!


sábado, 19 de outubro de 2013

Cisne Negro e Natalie Portman

Finalmente a Globo programa um ótimo filme para a noite de sábado. A emissora transmite hoje "Cisne Negro" (2010), dirigido por Darren Aronofsky, que conta com o melhor desempenho de Natalie Portman em toda a carreira. Aliás, a produção é um exemplo clássico de como a atuação de um ator/atriz pode conferir qualidade e densidade a um filme. Embora aborde emoções e intrigas típicas dos bastidores do balé, clássico ou moderno, como bem assinalou minha amiga Marisa Tamm, bailarina, coreógrafa e professora de dança contemporânea, acredito que o balé, no filme, funcione apenas como pano de fundo para contar um belo drama psicológico sobre a jornada (quase sempre dolorosa) de um ser humano em busca de si próprio, dividido entre desejos e repressões. Um filmaço!
Por último, cabe destacar a trilha sonora, que tem música original de Clint Mansell e brilhante adaptação do balé "Lago dos Cisnes", de Tchaikovsky.


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Certezas, dúvidas e julgamentos


Episódios envolvendo dois amigos nos últimos dias me fizeram lembrar do filme "Dúvida" (2008), dirigido por John Patrick Shanley e estrelado por Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman. O site da HBO informa que o filme, baseado na obra literária ganhadora do Prêmio Pulitzer, e na adaptação teatral premiada com um Toni, não está mais disponível para exibição no Brasil, o que é uma pena, já que se trata de uma bela produção, valorizada pelo fantástico desempenho dos protagonistas. Eu adoraria assisti-lo de novo, mas já pesquisei na internet e até o blu-ray está esgotado no fornecedor. Segue uma pequena sinopse da produção, extraída do site "AdoroCinema":

"Não existem provas, não existem testemunhas… somente suspeitas.
1964. O carismático padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) tenta acabar com os rígidos costumes da escola St. Nicholas, localizada no Bronx. A diretora do local é a irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep), que acredita no poder do medo e da disciplina. A escola aceitou recentemente seu primeiro aluno negro, Donald Miller (Joseph Foster), devido às mudanças políticas da época. Um dia a irmã James (Amy Adams) conta à diretora suas suspeitas de que o padre Flynn esteja dando atenção demais a Donald. É o suficiente para que a irmã Aloysius inicie uma cruzada moral contra o padre, tentando a qualquer custo expulsá-lo da escola."

Recomendo esse filme a todos que costumam se orgulhar de suas certezas. Reservar (ao menos) um pequeno espaço para a "dúvida" em nossas vidas, principalmente quando se trata de julgar o próximo, não apenas no que diz respeito ao mérito de seus atos (certo ou errado), mas também em relação a como lidamos com suas supostas falhas, leves ou graves, é um oportuno exercício de humildade. 
Isso tudo me faz recordar de uma ótima frase atribuída a Millor Fernandes, habitualmente associada a contextos mais triviais do que o do filme.

- se você não tem dúvidas, está mal informado!




sábado, 12 de outubro de 2013

Nova tragédia humanitária no Mediterrâneo


Tivemos ontem, no Mar Mediterrâneo, mais dois naufrágios de barcos repletos de imigrantes africanos, com dezenas de vítimas fatais.  
Apenas fechar fronteiras e reprimir a imigração ilegal, como alguns países europeus vêm fazendo, é o mesmo que enxugar gelo. A solução, a médio e longo prazo, passa por iniciativas que promovam a estabilidade política e o desenvolvimento econômico e social nas regiões de origem dessa legião de imigrantes. É a alternativa mais sustentável, ainda que de implementação complexa e demorada, para minimizar essa tragédia humanitária que já matou milhares de pessoas nos últimos anos.



sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Em busca de liberdade (e da felicidade)


Quando li a matéria sobre o filme "A Outra Pátria" no site da Deutsche Welle (www.dw.de), que aborda a emigração de alemães para o Brasil (Rio Grande do Sul) ainda no século XIX, lembrei logo da história que meus parentes me contaram a respeito da minha saudosa avó Evangelina, que saiu no início do século passado da Galícia, na Espanha, para se estabelecer no Rio de Janeiro. O fato é que as histórias dos imigrantes são sempre muito parecidas, independentemente da época, da nacionalidade e de onde se instalam. As motivações são basicamente as mesmas, invariavelmente associadas à pobreza extrema no país de origem e à busca em terras estrangeiras por uma vida mais digna, ou da felicidade, o que é algo legítimo e universal. 
Ao ler o artigo, lembrei também do naufrágio ocorrido há dois dias na costa da pequena ilha italiana de Lampedusa, que provocou a morte de 300 imigrantes africanos. Uma tragédia humanitária que se repete periodicamente naquela região, sem que as autoridades italianas e europeias tomem qualquer providência. Como afirmou o Papa nesta sexta-feira, "hoje é um dia de lágrimas porque o mundo não se importa se as pessoas fogem da escravidão ou da fome em busca de liberdade".



quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Trilhas sonoras e a arte da orquestração

Em entrevista publicada no BsoSpirit, site espanhol especializado em trilhas sonoras, o compositor John Ottman, responsável pelo ótimo score do filme "Jack - O Caçador de Gigantes", comenta:

- A orquestração é tudo. É fundamental para que o score narre a história. É a razão pela qual eu mesmo me ocupo disso até a última nota para um pizzicato. Não posso imaginar entregar a partitura a um orquestrador para que ele preencha os espaços em branco. Cada uma das matizes e dos detalhes da orquestração tem um tremendo impacto sobre a cena. Eu ficaria muito nervoso se tivesse que delegar essa tarefa a outra pessoa. A decisão de usar o coro ou determinados instrumentos de metal, por exemplo, faz parte do processo de composição. O resultado disso está intimamente associado à narrativa. Como eu poderia deixar para outro essa responsabilidade?

Já debati esse assunto com alguns amigos músicos. A maioria deles não confere tanta importância ao fato de o compositor orquestrar as próprias obras. Não sou músico mas me reservo o direito de discordar. Na verdade, não há nada nessa vida que eu admire mais do que um compositor com pleno domínio da arte da orquestração. Isso, pra mim, é fundamental!



segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Nordeste brasileiro: hospitalidade e desigualdade!

Os amigos estão acostumados a ler comentários sobre as viagens à Europa e os episódios pitorescos (às vezes, até surpreendentes) dos meus passeios pelo velho continente. E já devem ter percebido que, além da Espanha, terra de minha avó Evangelina e de primos que conheci há alguns anos, tenho um interesse particular pela Alemanha, um país que me encanta desde muito jovem, principalmente por sua cultura (cinema, literatura, música, arquitetura etc.) e organização.
Mas é preciso ressaltar que, sempre que tenho oportunidade, visito também algumas regiões do Brasil. E não posso deixar de registrar o carinho que tenho pelo Nordeste brasileiro, principalmente Rio Grande do Norte, Bahia, Paraíba e Pernambuco, estados que visitei na companhia de amigos. 
Destaco a atenção e a hospitalidade com que fui recebido pela gente local, independentemente de classe social. Nas ruas ou nas casas de amigos e de amigos de amigos, a recepção sempre foi muito gentil e calorosa. O menino que aparece nas fotos, cujo nome infelizmente esqueci, é um bom exemplo. Morador humilde de João Pessoa, ele nos guiou pelos pontos turísticos do centro da cidade, invariavelmente com um sorriso no rosto e sem combinar qualquer remuneração. É claro que no final do passeio nos cotizamos e lhe demos uma boa gorjeta. Certamente ele esperava por isso, e não poderia ser diferente.
O fato é que, embora eu seja muito bem recebido em todos os países que visito, é no Nordeste brasileiro que costumo me sentir mais à vontade. Naturalmente, isso se deve também ao idioma comum, que facilita a aproximação e o entendimento. Se não dispõe de história milenar e cultura clássica, como a Europa, o povo nordestino "compensa" tudo isso revelando alegria e calor humano num nível difícil de encontrar entre a maioria dos europeus, o que torna uma visita à região, de praias paradisíacas, uma experiência realmente inesquecível.
É uma pena que as classes dirigentes (ou elites) desse país venham tratando o Nordeste, de uma maneira geral, com um descaso criminoso ao longo dos tempos, apesar dos esforços dos últimos governos federais no sentido de promover a inclusão social. Infelizmente, os resultados alcançados com esses programas assistenciais ainda são modestos, ou insuficientes. Basta ver os índices vergonhosos da região (baixa renda per capita, analfabetismo etc.) revelados pelos indicadores sociais mais recentes. Para um país que figura entre as maiores economias do mundo, são desigualdades simplesmente inaceitáveis.



domingo, 22 de setembro de 2013

Como se não houvesse amanhã


Quando chegamos a uma determinada idade (não necessariamente boa ou ruim), a tendência é idealizar o passado, como se tudo lá tivesse sido um paraíso, repleto de alegrias, o que, na maioria dos casos, sabemos que não correspondente à realidade. 
Acho que isso acontece porque, invariavelmente, lá no passado, quando éramos mais (ou bem) jovens, ainda nos permitíamos acalentar doces ilusões a respeito de nossas trajetórias de vida, com promessas de sucesso e realizações. Tínhamos uma vida inteira pela frente, uma verdadeira eternidade para cumprir nossos brilhantes destinos. 
Com o passar dos anos, quase todos acham que falta alguma (ou muita) coisa para se sentirem plenamente realizados, se é que isso, de fato, existe. Mas essa é apenas uma das maneiras de lidar com essa experiência. E talvez a pior delas! 
Se não é possível voltar no tempo, e se o relógio da vida nos pregou uma peça reduzindo, mas não eliminando, nossas chances, só nos resta inverter a lógica, vivendo cada dia como se fosse o último, mais ou menos como diz a letra da música do saudoso Renato Russo. E o amanhã pode ser encarado como prorrogação nesse jogo de final imprevisível.

domingo, 15 de setembro de 2013

Dormindo no estábulo



Se não fosse Dona Erika, a simpática senhora que aparece na porta da casa, teríamos dormido nós quatro (meu amigo, a esposa, eu e uma amiga) nas montanhas austríacas, ao relento e sujeitos a chuva e frio. Explico melhor. É que meu amigo Armin, que de alemão só tem a cara e a nacionalidade, quase nunca reserva hotéis com antecedência em nossos passeios. Ele acha que de carro tudo fica mais fácil, bastando perguntar aqui e ali para encontrar um abrigo. Acontece que nem sempre funciona assim. No Lago Constança (Alemanha), em 2011, quase tivemos que dormir no carro, já que os hotéis/pousadas locais estavam todos lotados, por conta das férias de verão. 
Dessa vez, por volta das 6 horas da tarde, passeando pelos alpes austríacos, nos demos conta de que ainda não tínhamos local definido para pernoitar. Em cada aldeia visitada, perguntávamos aos moradores se conheciam algum hotel ou pousada nas redondezas. A resposta era sempre negativa, apesar da atenção e da cordialidade dos aldeões, solidários com nosso problema. 
Até que em Nenzing, uma típica aldeia dos alpes austríacos, nosso amigo alemão se lembrou de que já tinha se hospedado ali, em um de seus costumeiros passeios com bicicleta pelas montanhas. Procuramos por algum tempo, entrando e saindo várias vezes das mesmas ruas, e, quando já estávamos pessimistas e imaginando dormir num estábulo qualquer, ele finalmente encontrou a casa de "Dona Erika", que, por sorte e graça de Deus, dispunha de dois quartos naquela noite. Foi um alívio geral. Retiramos nossas malas do carro, ocupamos os respectivos aposentos, tomamos um banho revigorante e fomos jantar num restaurante do camping local, onde comemos um prato típico. Em seguida, é claro, nos recolhemos porque ninguém é de ferro.
No dia seguinte, Dona Erika nos serviu gentilmente o café da manhã. Solitária, ela disse que estava com o marido muito doente, e aproveitou a oportunidade para nos mostrar, com evidente entusiasmo, os quadros que havia pintado nos últimos anos. Finalmente, ainda teve tempo para fazer queixa dos vienenses, segundo ela, metidos e preconceituosos com os austríacos do interior. 
Logo depois, nos despedimos de Dona Erika, essa que aparece na foto, desejando-lhe felicidades e pronto restabelecimento para o seu companheiro. Que Deus os abençoe!

domingo, 8 de setembro de 2013

Música, tradição e civilização


O Coro de Meninos da Igreja de St. Tomas, de Leipzig (Alemanha), fundado em 1212, é destinado a preparar jovens de várias nacionalidades, entre 9 e 18 anos, para a melhor performance musical e também para a vida em sociedade. 
Os garotos são afastados por 9 anos de suas famílias para ingressar numa escola em regime de internato, subordinados a uma disciplina rígida onde aprendem, além da música (é claro!), todas as matérias do currículo dos ensinos básico e médio na Alemanha. 
Ficou claro no documentário que a concorrência é sempre muito grande para integrar o "St. Tomas". O critério inicial, que funciona como pré-requisito, é a vocação (ou aptidão) musical, sem a qual nenhum deles tem qualquer chance de ingressar no coro. Em rápido depoimento, um calouro de aprox. 10 anos descreve sua emoção ao ser aceito pela instituição e conclui afirmando que "sempre" desejou fazer parte daquilo. Ouvir isso de um menino é no mínimo curioso.
O fato é que para nós, brasileiros, nascidos num país jovem e de poucas tradições, causa estranheza uma experiência como a do coro de St. Tomas, cujo ideal artístico e musical já atravessa 8 séculos, atraindo gerações seguidas de jovens, sem dar qualquer sinal de enfraquecimento. É uma bela tradição que dá um testemunho inequívoco do valor civilizatório da arte e da música.
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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O último refúgio


Para minha surpresa e decepção, em recente visita à França, descobri que a "Virgin Megastore" (pelo menos em Paris e em Estrasburgo), especializada em cds/dvds, encerrou as atividades. Nos últimos anos, adquiri nessas lojas muitos cds de trilhas sonoras indisponíveis em nosso moribundo mercado fonográfico. Uma verdadeira lástima!
Agora, restaram em Paris a tradicional FNAC, que mantém um estoque limitado de cds do gênero, e a corajosa e insuperável "Gibert Joseph", especializada em venda de cds, dvds e livros, novos e "de ocasião", com uma generosa oferta de títulos, de todos os estilos, incluindo minha paixão, as trilhas sonoras. Em minhas últimas viagens, encontrei lá verdadeiras raridades, indisponíveis para venda direta até no site americano da "Amazon", como foram os casos, dessa vez, dos cds duplos de "Conan - O Bárbaro" e "Conan - O Destruidor", obras-primas do falecido compositor Basil Poledouris, regravadas recentemente com Orquestra e Coro da Filarmônica da Cidade de Praga. Sem contar o cd duplo com os melhores trabalhos de Georges Delerue (Great Composers), também não disponível no site da gigantesca "Amazon".
Embora também tenha aderido ao mercado virtual, já que mantém um site de vendas, o fato é que a "Gibert Joseph", por dispor de espaçosas instalações físicas em Paris, com uma farta oferta de títulos de cds, dvds e livros, ocupa um lugar cada vez mais especial no coração daqueles que, por motivos diversos, ainda preferem curtir arte e cultura nas tradicionais mídias físicas, adquiridas nas próprias lojas. É o último refúgio desses consumidores, sabe Deus até quando!!