sexta-feira, 2 de julho de 2021

Beethoven libertário e eterno!

 


Beethoven era um compositor libertário (e visionário!).
Simpatizante da Revolução Francesa (1789), que defendia valores como liberdade, igualdade e fraternidade entre os homens, sua ópera "Fidelio", de 1805, trata justamente da tentativa de libertação de um preso político por sua amada, que se disfarça de homem para ingressar no presídio e promover sua fuga. Uma história de amor permeada de valores humanitários que encontra eco até os nossos dias, num mundo onde os direitos humanos vêm sendo cada vez mais questionados ou negados.
Em Dresden, às vésperas da queda do muro de Berlim, em 1989, após uma récita de "Fidélio", concluída com um belíssimo coro em defesa da liberdade, o público que deixa o teatro resolve aderir às manifestações de rua que pedem reformas democráticas na então Alemanha Oriental. Em poucos dias, o muro de Berlim caía e o próprio bloco soviético se dissolvia para sempre.
Beethoven, portanto, ainda era capaz de falar aos corações e mentes dos homens, inspirando movimentos libertários quase 200 anos após compor sua única ópera.
Em toda a História da música, nenhum outro compositor desempenhou papel semelhante (ou enxergou tão longe!).

terça-feira, 29 de junho de 2021

Football x soccer

 


Faz algum tempo, em artigo publicado na imprensa americana, a jornalista Ann Coulter, de posição política ultraconservadora, afirmou que o aumento da popularidade do futebol nos Estados Unidos é sinal da decadência moral do país. Segundo ela, depõe contra o futebol o fato de que o desempenho individual nesse esporte não seja fator decisivo, ao contrário do que ocorre nos esportes "de verdade". Ela sustentou, ainda, que no futebol o mérito e a culpa são sempre compartilhados, não havendo espaço para um único vencedor ou perdedor, ou seja, não haveria responsabilidades individuais a imputar nos resultados dos jogos. E foi além, afirmando que no final de uma partida de futebol americano os lesionados são levados de ambulância para o hospital; já no futebol "europeu" (é assim que os americanos costumam se referir ao futebol jogado majoritariamente com os pés) os jogadores recebem apenas energéticos.
Diante desses comentários, acredito que a polêmica jornalista, em síntese, deve achar que o futebol popular no mundo inteiro é um esporte civilizado demais para ser praticado e apreciado pelos compatriotas. E não deve ser uma voz solitária na sociedade americana. Sem qualquer julgamento do mérito (certo ou errado), acredito que sua opinião reflita, em grande medida, o papel preponderante do individualismo e da violência na cultura dos EUA.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Paris de todas as tribos musicais!

 

"Psyché and Eros", belo e comovente poema sinfônico de César Franck (1822-1890), está impregnado de um romantismo já há muito perdido no tempo. Infelizmente, é uma das obras mais negligenciadas do período romântico (século XIX) e que raras vezes integra os programas de concerto.
Por sorte, exatamente há 13 anos, em 21 de junho de 2008, tive a oportunidade de assistir a um concerto em Paris com a Orquestra Nacional da França e o Coro da Rádio França, sob a regência do já falecido Kurt Masur, executando justamente essa obra. Foi uma tarde inesquecível no Museu D'Orsay, por ocasião da "Fête de La Musique", festival de música realizado desde 1982 exatamente no dia que abre o verão no hemisfério norte (solstício de verão). Paris para quase que literalmente por conta do evento, que reúne artistas (consagrados e anônimos) de vários gêneros musicais. Ruas, praças, bares, museus, igrejas e até estações de metrô da cidade ficam lotadas de moradores e turistas ávidos por desfrutar, gratuitamente, de alguns momentos de boa música (ao vivo), seja rock, pop, jazz, rap ou clássico.
Passei anos tentando encontrar o cd com a obra de César Franck em minhas viagens, mas acabei conseguindo aqui mesmo no Rio, há alguns anos, num sebo perto da Praça Tiradentes. Um sebo que literalmente foi pelos ares com a explosão de botijões de gás do restaurante ao lado. Ao longo de anos, adquiri ali vários cds raros, talvez dezenas, da minha extensa coleção. Hoje, no Rio, só resta uma loja de clássicos/jazz, a "Arquivo Musical", localizada na Travessa do Ouvidor. Mas a situação em São Paulo não é muito diferente. As únicas lojas de "clássicos" são as da Sala São Paulo e do bairro de Campo Belo, sede da editora que publica a Revista "Concerto". Fora isso, só é possível encontrar cds usados em alguns sebos espalhados pela cidade.




domingo, 20 de junho de 2021

Uma obra, mil leituras!

 

Réquiens são missas para os mortos, mas não fico nem um pouquinho triste ao ouvi-los. Aprecio essas obras como música pura, me abstraindo de sua motivação original.
Mozart (sombrio), Verdi (épico), Brahms (austero) e Berlioz (teatral) compuseram réquiens monumentais, mas prefiro os de Gabriel Fauré e Maurice Duruflé, ambos, coincidentemente (ou não?), franceses. São ternos, contidos e permeados de sincera e profunda espiritualidade, desprovidos, portanto, dos exageros retóricos comuns ao gênero.
Com seus comoventes réquiens, Fauré e Duruflé poderiam até não ter feito mais nada e ainda assim estariam eternizados por essas obras-primas do repertório sacro. Por isso mesmo, adoro colecionar e ouvir gravações desses réquiens. Em cada uma delas encontro algo diferente e revelador.
A gravação com a Orquestra Sinfônica de Atlanta (que recebi hoje), sob a regência de Robert Shaw, talvez seja a menos fiel ao espírito das obras de Fauré e Duruflé, originalmente contidas e discretas. Shaw reveste essas missas de uma retórica monumental até então típica do gênero, mas evitada pelos compositores franceses.
Afinal, a execução de uma obra musical deve sempre respeitar as "intenções" do autor contidas (ou não) na partitura?
Em que medida é legítimo fazer uma "leitura própria" de uma composição alheia?

domingo, 13 de junho de 2021

Haus der Musik, uma viagem musical!

 

Em 2017, visitei a "Haus der Musik", em Viena, uma espécie de museu da música, mais um numa cidade já repleta de museus dedicados à arte de Beethoven, Mozart, Bach e outros gênios.
Havia muitas crianças circulando pelas salas, e nenhuma delas parecia entediada. A oferta de atrações interativas no museu é enorme, o que estimula a participação dos mais jovens. Além disso, o ensino musical é uma tradição secular no país, daí também o interesse dos vienenses de todas as gerações por música clássica.
Em Viena, nasceram ou viveram grandes compositores, como Schubert, Johann Strauss (pai e filho), Mozart e Beethoven. Por isso mesmo, a "Haus der Musik" reserva um cantinho especial para cada um deles, destacando sua trajetória de vida e as obras mais consagradas.
O novo "museu", criado em junho de 2000, tem uma seção especial dedicada à história da lendária Orquestra Filarmônica de Viena, fundada em 1842, e de seus mais célebres regentes. Quem quiser ainda pode se aventurar a regê-la virtualmente, com direito até a certificado de "proficiência". Naturalmente, não perdi a oportunidade, e me saí bem!
Mas a "Haus der Musik" oferece muito mais. É um programa imperdível para quem visita a cidade e gosta de música, certamente a parcela majoritária dos turistas que lotam Viena ao longo do ano inteiro.



sábado, 12 de junho de 2021

Bateu saudade...

 

Bateu saudade...

Da infância em Cascadura...
Da vizinha, Dna. Maria...
Do campo das peladas na Vila Santo Antônio...
Da batata doce nas fogueiras de São João...
Da carambola, da goiaba, da manga, da jaca, da jabuticaba e do jamelão...
Do biquinho de lacre, do tiziu e do sabiá...
Da festa junina quando me "casei", do beijo roubado da "noiva" e até do bofetão que levei...
Do ruído do avião cruzando o céu azul a caminho da escola...
Do recreio nas aulas de alfabetização com D. Nilza...
Doces lembranças da infância...
Dizem que são as últimas que perdemos...
Certamente, são as melhores que temos.


sexta-feira, 11 de junho de 2021

Brasil, o país onde o futuro nunca chega!

 


Carta que enviei há 25 anos ao primo espanhol sobre a realidade brasileira. Será que as coisas mudaram muito por aqui?

"Rio de Janeiro, 20 de setembro de 1996

Primo, em sua última carta você me indaga a respeito dos problemas brasileiros. Acredito que nossas "elites" vêm fracassando frente ao desafio de construir um país verdadeiramente civilizado e democrático. Em todos os seus projetos, limitam-se apenas à conquista e à manutenção do poder e dos privilégios que se perpetuam ao longo de gerações. Um desses projetos produziu o "milagre econômico" da década de 70, que transformou o Brasil na 8ª economia do mundo ao custo de um imenso endividamento externo, priorizando a modernização do parque industrial do país, capaz hoje de produzir do mais simples isqueiro aos carros mais sofisticados, passando por armas leves e pesadas, eletroeletrônicos de última geração e jatos de guerra. Posso lhe garantir que não há qualquer produto disponível nas melhores lojas de Madrid e Barcelona (à exceção de souvenirs, claro!) que você não encontre no comércio das principais capitais brasileiras.
Tradicionalmente, os investimentos sociais no Brasil têm sido insuficientes para atender à crescente demanda de seguidas gerações, e ainda assim acabam diluídos pelos altos índices de corrupção existentes na sociedade brasileira. Além disso, a mecanização crescente dos postos de trabalho ocorrida nos últimos anos tem gerado uma traumática revolução no mercado de empregos. A mão de obra do país, pouco qualificada em função do baixo nível de instrução dos trabalhadores, não tem condições de manter-se empregada num contexto de economia globalizada e altamente competitiva, que se caracteriza pela busca incessante do setor produtivo por menor custo e maior qualidade de produtos e serviços. O histórico déficit educacional que provoca essa situação é a questão crucial que se discute atualmente no Brasil.
Por outro lado, por conta da enorme desigualdade econômica e social, a convivência entre pobres e ricos no Brasil não se dá sem traumas e tensões. No Rio, por exemplo, ao lado de edifícios luxuosos, temos as chamadas "favelas', comunidades quase sempre desprovidas de saneamento básico, segurança, serviços médicos e educação de boa qualidade, enfim, de um mínimo de dignidade. Tudo isso agravado com o crescimento do tráfico de drogas ali instalado, cujos líderes conseguem estabelecer um poder paralelo, desafiando as forças de segurança pública e a presença do Estado.
Esse quadro é sombrio, mas entendo que o Brasil tem um excelente potencial de desenvolvimento, considerando suas dimensões, riquezas naturais, unidade territorial e, principalmente, diversidade cultural e humana, derivada da formação mestiça do povo brasileiro.
Um forte abraço!"

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Danke, Deutschland!

 


Os amigos mais próximos sabem da grande simpatia que tenho pela Alemanha. Apesar de brasileiríssimo, nascido e criado no Rio de Janeiro, desde adolescente me interesso pela Alemanha e tudo o que diz respeito aos germânicos, não só por suas qualidades e potenciais, destacadamente a arte, a cultura e a capacidade de organização, mas também pelo drama que marcou seguidas gerações após as atrocidades cometidas pelos nazistas na II Guerra.
Em 2006, há exatos 15 anos (09 de junho), eu chegava a Munique justamente no dia da abertura da Copa do Mundo no país, realizando um sonho de infância. Era uma bela manhã de primavera na capital da Baviera, e muito cedo a cidade já estava tomada por torcedores de várias nacionalidades, num contagiante clima de alegria e confraternização, regado, claro, a muita cerveja. Uma experiência única e indescritível!
Naquela viagem, em meus passeios pela Alemanha, foi possível perceber claramente o esforço do povo para escrever uma nova história de suas relações internas e com o mundo. Em todos os lugares onde estive, das grandes cidades às pequenas aldeias, sempre fui recebido com carinho e hospitalidade, atitude que refletia uma profunda conscientização dos alemães em relação aos tristes episódios protagonizados pelo país no passado recente. Além disso, foi possível perceber o resgate de símbolos nacionais até então frequentemente associados a um período sombrio da história alemã. Foi comovente ver crianças e jovens exibirem orgulhosamente a bandeira da Alemanha em carros, bicicletas e janelas, escrevendo um novo capítulo da história do país sem o peso da culpa carregada por gerações anteriores. Se cada um de nós tem o direito de errar, se redimir e seguir em frente, por que não uma nação inteira?
Por tudo isso, passados 15 anos, continuo rendendo minhas homenagens à Alemanha, um país que aprendi a admirar também por sua capacidade de superar adversidades e se reinventar. E agradeço a Deus por ter tido a oportunidade de testemunhar tudo isso ao longo dos últimos 26 anos, desde a primeira visita realizada no longínquo ano de 1995.





terça-feira, 8 de junho de 2021

Hoffenheim, uma história singular!

 

Visita guiada ao Rhein-Neckar Arena (ou Pri-Zero Arena), estádio multiúso (acento horroroso, mas é o certo!) do Hoffenheim, clube da primeira divisão da Alemanha, com direito a guia falando em... alemão! Tudo bem, não entendi nada, mas visitei quase todas as instalações.
O estádio custou 65 milhões de euros (aprox. 400 milhões de reais!), menos de 1/3 do custo total da reforma do Maracanã para a Copa do Mundo. Ali, há alguns anos, assisti ao jogo Hoffenheim 1 x 4 Schalke 04, pela última rodada da Bundesliga. O time já estava livre do rebaixamento e até comemorou isso no final, apesar da goleada sofrida nos próprios domínios. Mas a festa estava garantida, com cerveja de graça pra todo mundo. Deixou saudade...
Localizado na pequena cidade de Sinsheim, com aproximadamente 35 mil habitantes, o estádio tem capacidade para 30 mil torcedores, ou seja, abriga quase a cidade inteira! Aliás, sua construção tem uma história singular. Um torcedor milionário, envergonhado com a derrota do time para uma equipe da terceira divisão, resolveu mudar a história do clube, construindo uma moderna arena multiúso e modernizando sua administração. 
Hoje, 12 anos depois da inauguração do estádio, o clube é supravitário e o time já disputa até vaga na Liga dos Campeões da Europa. Onde está o torcedor milionário do Flu?



Fim de uma era!

 


Depois de meses fechado por conta da pandemia, parece que está confirmado o encerramento das atividades dos cinemas Roxy, de Copacabana.
Não há como esquecer da era de ouro dos cinemas de rua no Rio, até o final dos anos 1970, quando as grandes estreias dos filmes de Hollywood eram aguardadas ansiosamente por multidões que faziam filas intermináveis nas portas dos cinemas para assistir. Era um tempo em que os filmes levavam anos para passar na TV. Não havia vídeo doméstico, inaugurado nos anos 80 com o finado formato VHS, e muito menos internet. Assistir a um filme no cinema com amigos ou com a namorada era um acontecimento social e cultural da maior importância. Nos subúrbios, era o ponto alto do fim de semana. Para a minha geração, um evento que rivalizava com as festinhas dos sábados e com os bailes de "discoteca" nos clubes.
Lembro muito bem de quando assisti à estreia de "Os Embalos de Sábado à Noite" num cinema de Madureira, em 1978. A fila dava voltas no quarteirão, e ninguém arredava pé dali. Isso durou vários finais de semana porque poderia levar anos até que a televisão programasse a exibição do filme.
Enfim, eram tempos em que ir ao cinema era um grande acontecimento, um verdadeiro ritual, principalmente para as classes populares. Hoje, o filme nem estreou nos cinemas e tem gente que já assistiu na internet.
A confirmação do fechamento das três salas do Roxy, os últimos cinemas de rua de Copacabana, como já houve de tantos outros no Rio, sepulta de vez a ideia do cinema como evento social no bairro e na cidade.

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Euro 2008: O "tiki-taka" e a consagração da "Fúria"!

 


Na próxima sexta-feira, dia 11, terá início a nova edição da Eurocopa, marcada inicialmente para o ano passado, mas adiada por causa da pandemia da covid-19. Ao assistir ao anúncio do SporTV, que cobrirá o evento, não pude deixar de lembrar dos dias agradáveis que passei na Alemanha durante a Eurocopa de 2008, naquele ano realizada conjuntamente por Suíça e Áustria.
Com os amigos alemães que vivem em Heidelberg, tive a oportunidade de assistir a vários jogos em bares e também nos famosos "biergartens", tradicionais jardins de cerveja encontrados em todo o país.
O dia da final entre Alemanha e Espanha, em Viena, foi naturalmente o mais marcante. Bem cedo, vestindo a camisa da seleção alemã, fui passear pela cidade com os amigos. Em pouco tempo, ruas, praças e bares estavam lotados de torcedores, quase todos exibindo as cores da Alemanha. Mais ou menos como acontece (ou acontecia) no Rio em dias de jogos do Brasil em Copas do Mundo.
Após o almoço, procuramos um bom local para assistir à partida. Como a Universidade estava lotada, nos instalamos num bar/restaurante bem no centro histórico de Heidelberg, que dispunha de um telão razoável, além de excelente cerveja, item indispensável no país a qualquer tempo e lugar.
Durante o jogo, no meio de centenas de alemães, até tentei torcer pela Alemanha, mas, ao lembrar dos primos de Barcelona e da minha saudosa avó espanhola, confesso que a missão se tornou impossível. Passei o tempo inteiro flertando com a neutralidade, uma tarefa inglória naquelas condições. No final, com a merecida vitória da Espanha, os alemães se comportaram muito bem, apesar de provocados por uma meia dúzia de espanhóis que visitavam a cidade.
Era o início de uma era de ouro para o futebol espanhol, que se consagraria campeão mundial dois anos depois, na África do Sul, e bicampeão europeu em 2012, na Ucrânia. Hoje, a "Fúria" não é nem sombra daquele time que encantou o mundo com um toque de bola envolvente e praticamente irresistível, o famoso "tiki-taka". Como tudo na vida, passou, mas deixou saudade!


domingo, 6 de junho de 2021

O Brasil e os brasileiros: as origens de nossa diversidade!

 


Em 2000, por ocasião dos festejos dos cinco séculos de "descobrimento" do Brasil, o IBGE publicou o livro "Brasil, 500 anos de Povoamento", que trata do fluxo migratório para o país ao longo da história.
A obra traz um capítulo inteiro (Sonhos Galegos - Os espanhóis no Brasil) sobre a imigração espanhola desde o período de colonização, mais recentemente (séculos XIX e XX) composta por habitantes da região da Galícia.
O interessante é que a história contada pela minha família a respeito das circunstâncias da chegada e dos primeiros anos no Brasil da vovó Evangelina assemelha-se, em muitos aspectos, ao relato contido no livro sobre o processo de integração dos espanhóis no território brasileiro. Na verdade, foi a primeira oportunidade que tive de ver minha vida sob uma perspectiva histórica, afinal, faço parte de uma geração que é fruto desse movimento migratório.
Um belo e oportuno projeto realizado pela equipe do CDDI (Centro de Documentação e Disseminação de Informações) do IBGE, instituição onde tive a honra de trabalhar por 35 anos, que preenche uma lacuna do mercado editorial sobre um tema fundamental para o conhecimento da formação do povo brasileiro e de sua (ou nossa) identidade.
Segue o link para acesso à publicação completa no site do IBGE.

domingo, 30 de maio de 2021

Herói de mim mesmo!!



Rio-Madrid, sábado, 30 de maio de 2015!
Exatamente há 6 anos, eu embarcava com destino à capital espanhola para desfrutar daquela que se tornaria uma das mais memoráveis viagens que fiz desde 1995 até hoje.
Eu já tinha estado em Madrid, mas sempre por poucos dias (2 ou 3), em visitas aos primos na Galícia e em Barcelona. Dessa vez, porém, a ideia era explorar a capital do país por mais tempo, aproveitando a oportunidade para conhecer cidades históricas próximas. Uma amiga que me acompanharia desistiu da viagem por motivo de doença na família, mas mantive a programação original, o que me proporcionou uma das experiências mais extraordinárias de toda a minha vida.
Foram quase duas semanas frequentando sebos, livrarias, lojas de cds/dvds, museus (Prado, Reina Sofia, Thyssen-Bornemisza, Real Academia de Belas-Artes e Joaquin Sorolla) e um sem-número de atrações da cidade. Sem contar os pratos típicos em restaurantes tradicionais, a visita diária e obrigatória ao Mercado de San Miguel para a "sobremesa" (salada de frutas e sucos naturais) e o "bate-volta" para Toledo, Ávila, Monastério de El Escorial e Segóvia.
Em Madrid, você anda por "quilômetros" e a cada esquina há algo interessante para apreciar. Quando não é um prédio antigo preservado ou uma rua estreita de estilo medieval, é uma loja diferente com um tipo de negócio que, a princípio, não combina com o lugar. É verdadeiramente uma grande capital europeia, repleta de história e de atrativos culturais.
O curioso é o negócio de livros na cidade, incluindo os incontáveis sebos que vendem de tudo! Eles mantêm a tradição, como em Paris, de preservar as livrarias "temáticas". Tem lojas de livros de artes em geral, de Direito, de autores de esquerda (eu vi!), e até infantis, sem contar os sebos espalhados pelo centro. Típico de uma cidade europeia que respira cultura.
Madrid, é claro, tem problemas típicos de uma grande capital. Sujeira, trânsito difícil, pedintes etc. Ocorre que o madrilenho ainda não padece da sensação de insegurança (mais do que a efetiva insegurança) que temos no Rio. Quase sempre eu retornava ao hotel por volta da meia-noite e ficava impressionado com a grande quantidade de pessoas, incluindo famílias inteiras com crianças, ainda nas ruas. Bem diferente do Rio e da maioria das capitais brasileiras.
Uma das coisas que mais aprecio em viagens é poder flanar (andar ociosamente e sem destino) por uma cidade desconhecida, encontrando em cada rua, em cada esquina, algo que me surpreenda ou estimule, sem me dar conta do tempo e da distância. É justamente o que encontro em Madrid. Pode ser uma construção de arquitetura singular, uma taberna com ares medievais (onde eu costumava fazer o "desayuno" por apenas 1 euro e meio!), uma singela moradia com crianças brincando na calçada, um sebo de artigos raros e esquecidos pelo tempo, ou mesmo uma pequena livraria familiar daquelas que foram desaparecendo com o surgimento das megastores e seus indefectíveis best-sellers. Simplesmente, um raro prazer que a rotina e a mesmice nos roubam a cada dia.
Esses são alguns dos motivos pelos quais amo Madrid mais do que qualquer outra capital estrangeira que conheci em minhas viagens, e foram muitas!
Por tudo isso, aguardando o embarque no trem para Ávila e tomado por uma profunda e rara sensação de felicidade, pensei:
- Estou me sentindo como o herói de mim mesmo. Aconteça o que acontecer na minha vida, e não importa o que os outros pensem, é assim que pretendo me sentir até o fim dos meus dias!
Dá para esquecer uma viagem dessa?







sexta-feira, 28 de maio de 2021

Uma jornada inesquecível!


Há exatos 5 anos, eu embarcava de volta ao Brasil, depois de realizar uma das viagens mais reveladoras e "educativas" de todas as que fiz até hoje.
Pela primeira vez eu visitei o leste da Alemanha, justamente o território do país que integrou a extinta Alemanha Oriental, reunindo novas impressões sobre uma nação em franco processo de reconstrução, após mais de 70 anos do final da II Guerra. Conheci várias cidades que ainda exibiam marcas profundas do período em que pertenceram ao bloco socialista. Além das perdas humanas com o conflito, não só em vidas, mas também em traumas familiares que atravessam gerações, os prejuízos materiais e patrimoniais permaneciam mais visíveis no leste.
Em Naumburg, localizada a uns 40km de Leipzig (e que lembra muito Liubliana, capital da Eslovênia), foi possível perceber perfeitamente as diferenças econômicas e culturais que ainda persistiam após quase três décadas da reunificação do país. Encontrei muitos prédios de arquitetura padronizada e carentes de reforma em vários pontos da cidade, embora as ruas, de maneira geral, fossem limpas e as pessoas gentis e atenciosas, como é comum em toda a Alemanha. O "atraso" era perceptível também na pouca infraestrutura de TI disponível nos estabelecimentos comerciais. Não havia internet no bom restaurante onde jantei, e cartão de crédito com chip, nem pensar!
O dia em Leipzig foi quase todo dedicado ao grande mestre Bach. É uma cidade de forte tradição musical. Lá nasceu Richard Wagner e viveram Mendelssohn e Johann Sebastian Bach. Visitei a igreja de St. Thomas, em cujo órgão Bach tocou diversas vezes; o Museu Bach, que reúne instrumentos e partituras originais do compositor; e a sede da tradicionalíssima "Gewandhausorchester", fundada em 1743, onde comprei um cd com obras gravadas pelo coro de meninos "Thomanerchor", criado em 1212! Muito interessante também foi a visita à gigantesca estação de trem da cidade, a maior da Alemanha!
A visita seguinte foi a Halle, cidade natal de Handel, outro mestre da música barroca.
A exemplo de Leipzig e de tantas outras cidades alemães, Halle é cheia de contrastes, reunindo belas construções históricas com edifícios modernos de estilo pra lá de duvidoso. Era o esperado para uma cidade do leste, uma região que ainda tenta encontrar seu novo destino.
No último dia da viagem, visitei Dresden, a chamada "Florença do Elba", cidade alemã que concentra as mais belas e imponentes edificações barrocas do país. Uma visita à cidade representa uma viagem no tempo, considerando a quantidade e o tamanho dos prédios locais em estilo barroco. Esse contraste com a arquitetura moderna das novas construções acaba sendo mais impressionante do que no resto do país, impregnando a atmosfera local de um acentuado sentimento de nostalgia.
A visita ao leste da Alemanha era a experiência que faltava para compreender o país em sua dimensão mais ampla, considerando aspectos econômicos, históricos e culturais.
É uma região de características peculiares por tratar-se de uma parte da Alemanha ainda fortemente influenciada por hábitos e costumes herdados do passado socialista. Apesar da substancial ajuda financeira do oeste rico, ainda há muito o que fazer por lá. Recuperação de cidades e sítios históricos, qualificação de jovens para o mercado de trabalho e adoção de uma mentalidade voltada para o crescimento econômico e a realização pessoal são as medidas prioritárias do novo projeto de integração nacional. Certamente, levará décadas (ou gerações) para que os resultados sejam alcançados de maneira consistente e sustentável.

Uma longa jornada

A viagem de 2016 encerrou um ciclo que durou mais de 20 anos. Foram várias viagens desde 1995, reunindo impressões sobre arte, cultura, gastronomia, política, comportamento (e também preconceitos!).
Nessa longa jornada, aprendi muito sobre os alemães e, principalmente, sobre nós mesmos, brasileiros.
Assim como qualquer ser humano, os países têm qualidades e imperfeições. E não há povos melhores nem piores. Tudo é uma questão de pontos de vista e de identificação ou preferências.

A propósito de viagens...

Se eu tivesse que revelar a um jovem uma única lição entre todas as que aprendi em minha vida, aquela que considero a mais importante e gratificante, eu diria: viaje, viaje muito, o máximo que puder! Porque nem a leitura de um milhão de livros pode ensinar tanto sobre a vida, sobre o mundo e sobre si mesmo quanto as viagens que você puder fazer.



sexta-feira, 7 de maio de 2021

Legítimo sucessor!


No 188º aniversário de nascimento de Johannes Brahms (1833-1897), um bom motivo para lembrar do mestre alemão."Intimidado" pelo resultado obtido por Beethoven com sua última sinfonia, a "Nona", considerada, então, não só por Brahms, mas também por Wagner e outros grandes compositores da época, como a consumação do gênero e do período clássico, Brahms levou quase 20 anos para concluir sua primeira obra do gênero.
Depois da ousadia de Beethoven, incorporando, pela primeira vez, a voz humana numa sinfonia, o senso comum era de que não havia mais nada novo a dizer com uma sinfonia. A consagração alcançada pela monumental obra coral do mestre de Bonn atravessou o século XIX "calando" compositores e inibindo vocações. Diante disso, quem se atreveria a retomar o gênero após a "Ode à Alegria"?
A despeito de tudo isso, após longos 20 anos, Brahms resolveu seguir a tradição de Beethoven, a quem reverenciava, e finalmente, em 1876, aos 43 anos, ofereceu ao mundo sua primeira sinfonia, que recebeu críticas entusiásticas já na estreia, em Viena. A boa receptividade da obra encorajou o compositor a conceber outras 3 belas sinfonias, o que acabaria por transformá-lo no legítimo sucessor de Beethoven. O fato é que suas 4 sinfonias se estabeleceram solidamente no repertório clássico, alcançando grande prestígio desde sua morte em fins do século XIX.

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Bons tempos? Talvez, mas só talvez!

IBGE, início de carreira, por volta de 1990. Ainda não havia um computador para cada servidor. Internet? Nem imaginávamos o que seria isso. Para obter uma informação era preciso consultar enciclopédias, livros, revistas e jornais impressos, ou mesmo ir a uma biblioteca.
Copiar/colar? Nem pensar!
O acesso à informação era menos democrático, dificultando a circulação das "fake news", mas elas sempre existiram porque notícia falsa é algo tão antigo quanto a própria civilização.
Bons tempos? Talvez, mas só talvez!


Tio rico e o "vício" de viajar!

Eu tive um tio "rico" que adorava viajar. Conheceu o "mundo todo"! Canadá, Inglaterra, Japão, França...foram tantos os relatos que não me dou conta de lembrar. Consta que até um apartamento em Roma ele teve, não sei...
Tio Osmário era jornalista e, a serviço e a passeio, rodou o mundo como poucos brasileiros da sua geração, os nascidos no início do século passado.
Uma vez encontrei com ele na Tijuca às vésperas da minha primeira viagem. Sabendo da sua história de aventuras e descobertas, contei da ansiedade por sair do país e por finalmente conhecer a Europa, um sonho que eu acalentava desde a infância.
Não conversamos muito, mas ele disse uma coisa da qual jamais esquecerei, até porque a "profecia" se realizou. Segundo ele, eu iria gostar tanto da viagem que faria muitas outras no futuro. Disse isso como se estivesse vendo em mim um reflexo de si mesmo. E concluiu dizendo que viajar se tornaria um hábito, uma "compulsão"!
De fato, aquela viagem de 1995 foi o início de tudo. Na verdade, mudou a minha vida. Passei a viajar com frequência, quase mesmo por "compulsão", conforme ele profetizara.
Tio Osmário faleceu pouco tempo depois daquele rápido e fortuito encontro, e não pude lhe contar nada disso.
Certamente não herdei dele nem o talento para o jornalismo nem o dinheiro que ganhou ou acumulou, mas o gosto, a curiosidade e o prazer pelas viagens talvez nenhum outro parente, nem mesmo seu próprio filho, tenha herdado melhor ou com mais intensidade do que eu.
O que fica é a frustração por não ter tido a oportunidade de lhe dizer tudo isso. Talvez um dia, quem sabe?!!?


Quando Beethoven encontrou Goethe!

"Egmont", op. 84, música incidental de Beethoven inspirada na peça homônima de Goethe, não revela o melhor do mestre alemão, mas cumpre o seu papel considerando as circunstâncias da época em que foi composta, entre 1809 e 1810, quando boa parte do continente europeu vivia sob o jugo de Napoleão.
A obra de Goethe narra a história de heroísmo do conde holandês Egmont, no século XVI, que luta pela independência do seu povo contra os invasores espanhóis e acaba condenado à morte.
Beethoven, já desiludido com Napoleão, que anos antes havia se autoproclamado imperador da França, aceitou a encomenda da composição, entusiasmado com o tom heróico da narrativa. A estreia da obra em 1810 (com a narração da saga do herói), numa Viena também ocupada pelos franceses, foi um sucesso estrondoso, rendendo várias apresentações e uma enorme quantia para o compositor.
A "Música Incidental para Egmont", uma obra menor de Beethoven que mereceu poucas gravações, definitivamente não reflete a genialidade do compositor, mas as circunstâncias históricas de sua criação falaram mais alto na Viena ocupada de 1810. Um testemunho perfeito de que toda obra artística ou musical também deve ser avaliada considerando o contexto da época em que foi produzida.



Trágica história de um homem singular

Trágica e estranha a história de vida (e morte) de Stefan Zweig, um dos maiores escritores e intelectuais da primeira metade do século XX.
Após desfrutar de uma juventude extremamente feliz em sua Viena natal, não suportou as adversidades impostas por dois conflitos mundiais que desfiguraram o continente europeu.
Perseguido pelos nazistas por sua origem judaica, refugiou-se no Brasil em 1941, mas, saudoso da Viena imperial de sua infância e juventude "desaparecida" para sempre, suicidou-se em fevereiro do ano seguinte, em Petrópolis, região serrana do Rio.
Nessa reveladora autobiografia, Zweig oferece um relato brilhante e comovente de uma vida dedicada intensamente à compreensão da natureza humana, por meio de obras literárias e observações agudas sobre a realidade que testemunhou em seus profícuos 61 anos de vida.
Um homem único em seu tempo, em qualquer tempo!



A encantadora Liubliana!


Essa é a "Hartman", pequena e simpática loja de música de Liubliana, bela capital da Eslovênia, onde comprei um cd de Nino Rota. Tão pequena que só contava com um vendedor. Assim mesmo, havia de tudo ali, incluindo partituras, livros, instrumentos musicais, bustos de compositores e cds/dvds, todos, claro, de música clássica.
Mas a "Hartman" é apenas uma das atrações de Liubliana. Percorrer as ruas da cidade é como uma viagem ao passado. Os sinais do tempo são visíveis em cada prédio, residência e rua da capital eslovena. Não há luxo ou ostentação nem mesmo na zona turística, embora seja possível perceber o esforço para oferecer conforto e comodidade ao visitante. Restaurantes com mesas ao ar livre se multiplicam às margens do rio que corta a cidade, criando uma atmosfera lúdica e agradável no entorno do centro histórico e do castelo local. Um verdadeiro convite ao prazer!
O fato é que adorei Liubliana e a própria Eslovênia, um país singular praticamente "incrustado" nas montanhas alpinas!
Vale uma nova visita!