sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Kleiber incomparável!


Segundo muitos especialistas (ou "sabidões", como diz o meu amigo alemão), sob o ponto de vista artístico ou musical, esse cd contém a melhor gravação da 5a. sinfonia de Beethoven. Convenhamos, isso é muito subjetivo, mas não deve estar longe da verdade.
Kleiber não gravou todas as 9 sinfonias de Beethoven. A "Nona", por exemplo, hoje a mais popular, não consta de sua discografia; nem a revolucionária "terceira" (a "Heróica"), outra obra obrigatória na carreira de qualquer regente que se preze.
O repertório reduzido frustrava os fãs e incomodava a indústria fonográfica, mas isso também faz parte do legado de Kleiber.
O cd, claro, eu guardo a sete chaves!

Haydn em Londres

Ótima gravação, com direito a belíssimo livreto ilustrado, das duas últimas sinfonias compostas por Haydn na corte do príncipe Eszterhazy, localizada na aprazível Eisenstadt (que visitei em 2017), próxima de Viena. Em 1791, ano da morte de Mozart, o compositor se transferiu para Londres, onde recebeu excelente acolhida e compôs suas 12 últimas sinfonias, chamadas apropriadamente de "londrinas".
Depois de duas estadas no período de 4 anos na Inglaterra, Haydn retornou definitivamente a Viena em 1795 e lá ainda compôs, além de missas e quartetos de cordas, os oratórios "A Criação" e "As Estações", as derradeiras obras-primas de uma longa, brilhante e profícua carreira.
Em tempo, o cd, em estado de novo e intocado, encontrei essa semana num sebo da Saens Pena. É o que resta no Rio, além da excelente loja "Arquivo Musical", no Centro, para os apreciadores desse gênero musical.


A resposta de Schubert!


Aos 29 anos, perto do final da vida (morreu muito jovem, com 31!), embora já tivesse composto pelo menos 6 sinfonias completas, Franz Schubert (1797-1828) entendia que faltava-lhe criar uma obra extensa que pudesse rivalizar com as grandes sinfonias de Beethoven. A "Nona", também denominada "A Grande", é a resposta que desejava dar a si mesmo e aos contemporâneos. E o resultado está à altura do "desafio"! É uma obra bem-sucedida que ocupa espaço nobre no repertório sinfônico.
A performance da Filarmônica de Viena, sob a regência do saudoso George Solti (1912-1997), é antológica. Um cd precioso!

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Entre Deus e todos nós!

 


Como comenta um amigo de Carlos Kleiber (1930-2004) no documentário "Estou perdido para o mundo", em termos de música, o maestro teria sido o melhor mediador entre Deus e a humanidade. Para quem já ouviu ou assistiu Kleiber, faz sentido, muito sentido! 
Pena que o artista tenha terminado seus dias solitário e melancólico. Em dezembro de 2003, ao perder sua companheira de décadas e descobrir um câncer de próstata, caiu em profunda depressão. Meses depois, se isolou em Konjsiva, uma aldeia nas montanhas da Eslovênia, onde veio a falecer em julho de 2004.
O casal repousa agora (lado a lado) no cemitério da pequena propriedade eslovena, como revela a comovente cena final do documentário.
Triste fim para um homem singular e um artista extraordinário que jamais se rendeu à indústria fonográfica. Sem fazer concessões, só regeu quando quis e as obras que apreciava. E não foram muitas. Era certamente a antítese de Karajan, a própria personificação da indústria. Talvez por isso mesmo tenha virado lenda!

A difícil gestação de uma obra-prima!

 


Faltava ler essa tradução elogiadíssima de Caetano W. Galindo para "Dublinenses", minha obra favorita de James Joyce.
Com pouco mais de 20 anos, o escritor descreve em 15 belíssimos contos e com precoce maturidade as inquietações de típicos personagens (crianças, jovens e idosos) de Dublin, sua cidade natal, no início do século XX.
Para publicar a obra, Joyce enfrentou uma "via crucis". Após sofrer críticas até do pai, cogitou excluir um dos contos (Um Encontro), empenhou relógio e contratou advogados na tentativa de ver o livro publicado, o que só ocorreu dois anos depois de concluído. Um ano mais tarde, só 379 exemplares haviam sido vendidos, 120 dos quais comprados pelo próprio Joyce.
Mas a obra sobreviveu, atravessando gerações e encantando leitores de várias nacionalidades e culturas.

Entre a vocação autoritária e o anseio democrático.

 


Acabei de assistir, no canal "Curta!", ao documentário "Os Anos JK: Uma Trajetória Política".
Sinceramente, o que mais me entristece e envergonha no nosso país, na verdade, como brasileiro mesmo, não é nem a corrupção sistêmica, um "câncer" que corrói a confiança do povo nas instituições e nos poderes constituídos, mas a falta de tradição democrática, uma constatação óbvia ao estudar a história do Brasil nos últimos 200 anos.
Somos uma nação rica em recursos naturais e com uma extraordinária diversidade humana, uma rara combinação que nos confere um potencial enorme de produção de riquezas e de desenvolvimento econômico e social. Mas a vocação autoritária é uma praga que nos persegue por gerações. As ameaças ao Estado de Direito e à ordem democrática são frequentes ao longo da história, isso quando não estamos já mergulhados em regimes autoritários como foi no Estado Novo, de Getúlio, nos anos 1930, e na ditadura militar, entre 1964 e 1985.
Sempre que avançamos um pouco na tentativa de consolidação de um regime democrático, nossa vocação para o autoritarismo se manifesta em defesa do arbítrio e do retrocesso, como vimos emblematicamente no último dia 7 de setembro.
O estabelecimento de um Estado Democrático de Direito é, portanto, uma luta diária e também um enorme desafio que atravessa gerações no Brasil.
Parece que estamos definitivamente condenados a uma eterna luta entre a vocação autoritária e o anseio democrático.

Stefan Zweig, um homem à frente do seu tempo!

 

Em 1941, em sua passagem pelo Rio de Janeiro, Stefan Zweig sugeriu a Lasar Segall, pintor que conheceu em São Paulo, "uma representação de toda a tragédia dos refugiados de hoje", certamente se referindo às vítimas da guerra em curso na Europa.
Na ocasião, Lasar estava justamente terminando "Navio de Emigrantes" e lhe enviou uma fotografia do quadro. Zweig, então, respondeu: "há nele uma síntese visionária da miséria contemporânea."
Há 80 anos, Zweig já chamava a atenção para o problema dos refugiados originários de regiões conflagradas, crises migratórias que se tornam cada vez mais frequentes num mundo globalizado que elimina fronteiras para o fluxo de produtos e mercadorias, mas que resiste à circulação de pessoas. 

Amor e ódio, vício e virtude!

 

"Da Alemanha", publicado no início do séc. XIX pela francesa Madame de Staël (1766-1817), é uma verdadeira declaração de amor à Alemanha, o que provocou, à epoca, um êxodo da intelectualidade do continente em direção ao país.
O efeito foi tão "devastador" (também por conter críticas à cultura francesa) que levou Napoleão a proibir o livro e a queimar toda a primeira edição.
Quando li trechos na livraria, encontrei uma descrição (ou impressão) da Alemanha que casa perfeitamente com o que sinto desde minha primeira visita ao país e que jamais li em qualquer outro livro ou guia turístico.
Na obra, escrita há mais de 200 anos, Staël já afirmava que faz parte do caráter alemão encarar o cumprimento de uma ordem como um dever.
Isso explica Hitler quase 150 anos depois? Muito provavelmente, mas também o sucesso do país, "reconstruído" em poucas décadas à base de um rigoroso respeito às regras e de muita organização.
Assim como acontece com cada um de nós, as nações, para o bem e para o mal, também colhem os frutos de seus vícios e virtudes.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Afeganistão, uma terra "indomável"!

 

Esse livro da premiada escritora russa Svetlana Aleksiévitch, Nobel de Literatura de 2015, contém relatos comoventes de sobreviventes, inclusive afegãos, da guerra soviética-afegã ocorrida entre 1979 e 1989.
Publicado em 1991, apenas 2 anos após o fim do conflito, o livro provocou controvérsia na Rússia por seu testemunho honesto sobre a realidade da guerra e a vulnerabilidade do país numa operação originalmente destinada à "manutenção da paz".
O título "Meninos de Zinco" é uma referência às legiões de jovens soldados mortos e enviados para casa em caixões de zinco.
Uma leitura indispensável para compreender o contexto em que se deu a ocupação norte-americana no Afeganistão por 20 anos e os últimos acontecimentos relativos à retirada das tropas ocidentais do país asiático.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Carl Nielsen, uma revelação!

 

O compositor dinamarquês Carl Nielsen adquiriu fama mundial por sua música instrumental, em especial as 6 sinfonias, mas Nielsen é conhecido (e reverenciado) em seu país também por suas belas canções compostas para solistas e coro, obras baseadas em antigas tradições dinamarquesas que se tornaram parte da identidade cultural do país, assim como o próprio compositor.
Patrocinado pela Biblioteca Real da Dinamarca, esse cd (The Unknown Carl Nielsen) oferece justamente a primeira gravação de 26 dessas canções, que evocam a "alma" e a cultura do povo dinamarquês, todas traduzidas para o inglês.
O título do cd naturalmente se refere ao repertório de Nielsen pouco executado fora da Dinamarca. É uma pena!

Nos tempos de um estadista!

 

Com D. Pedro, conquistamos a independência de Portugal, mas foi com seu filho, D. Pedro II, que o Brasil viveria seus melhores dias no período do império, incluindo o fim "oficial", ainda que tardio e "incipiente", da escravatura.
Grande líder político, humanista e defensor das ciências e das artes, D. Pedro II se revelou um verdadeiro estadista, respeitado por artistas, intelectuais e cientistas do mundo inteiro.
Ele viajou por quase toda a Europa, falava 17 idiomas e, estudioso, tinha interesse por todas as áreas de conhecimento. Fez uso dessa erudição em benefício do país, criando instituições públicas que prestam até hoje inestimáveis serviços à nação.
Reconhecido pelo exemplo de liderança e legado humanitário, viveu os últimos anos exilado em Paris, onde faleceu e teve um funeral com merecidas honras de Chefe de Estado.
Espero que essa nova novela da Globo, que retrata justamente o período de reinado de D. Pedro II, revele para as novas gerações ao menos uma fração, ainda que pequena, da enorme contribuição do imperador, certamente o maior (ou talvez único) estadista que esse país já conheceu.
Vale dizer que não tenho a menor simpatia por monarquias, um anacronismo que persiste no mundo, embora reconheça o papel de reis e rainhas na sustentação de algumas monarquias modernas.
Na verdade, sou republicano até a alma. Entendo que todos devam ser iguais perante a lei, ou a Constituição, um compromisso inarredável de qualquer sociedade que se considere verdadeiramente democrática no nosso tempo.

Um Oscar para melhor orquestração!

 

O segredo por trás de algumas das mais belas trilhas sonoras compostas por Danny Elfman está em Steve Bartek, orquestrador dos scores de "Batman" (1 e 2), "Edward, Mãos de Tesoura", "Homem-Aranha" (1 e 2) e muitos outros.
Confesso que às vezes não sei onde termina a inspiração de Elfman e começa a arte de Bartek, talvez o mais brilhante orquestrador de Hollywood nas últimas décadas.
Steve Bartek foi guitarrista da banda de rock californiana "Oingo Boingo", de onde saiu também Elfman antes de se dedicar definitivamente aos scores de filmes.
Com seus pares, certamente Bartek desfruta do merecido reconhecimento, mas penso que ainda falta aos produtores e à Academia de Cinema de Hollywood conferir aos orquestradores o devido destaque na promoção dos filmes e das trilhas sonoras. Nesse sentido, a inclusão da categoria de "melhor orquestrador" na entrega anual do Oscar já seria uma boa e justa medida.
Depois de ouvir scores de filmes por mais de 4 décadas, estou convencido de que alguns desses profissionais podem e devem ser considerados como coautores de trilhas sonoras antológicas da história do cinema.

Saudade...

 


Saudade dos tempos do jornal impresso...
Adquiri o hábito de leitura de jornal ainda criança com meu pai e só o abandonei há poucos anos, aderindo de vez à internet. Mas posso garantir aos mais novos que a notícia "instantânea" na telinha do celular não oferece o mesmo prazer da surpresa ao abrir o jornal buscando "novidades" em cada página, em cada seção.
Nas viagens que fiz sozinho na Europa, a compra do El País" espanhol era obrigatória nas estações de trem. Um companheiro indispensável para percorrer grandes distâncias, alternando belas paisagens pela janela com ótimos artigos de um dos melhores jornais do mundo. Lembro até de alguns artigos de opinião sobre imigração no continente e política interna na Espanha e na Europa.
Hoje em dia, com os sites jornalísticos e a "banalização" (para o bem e para o mal) da notícia na internet, tudo isso virou passado e pura nostalgia.

Lembranças da Floresta

 

O recente incêndio no Parque Nacional da Tijuca me lembrou de uns passeios que eu costumava fazer na Floresta da Tijuca, sempre às segundas-feiras, no final dos anos 1970.
Um amigo de infância tinha folga no trabalho justamente nesse dia. Quando fazia tempo bom, ele me chamava para passear na estradinha que dava acesso à Floresta no Alto da Boa Vista. Confesso que não me lembro muito bem sobre o que conversávamos nas longas caminhadas em meio àquelas árvores e vegetação centenárias. Como éramos muito jovens (em torno de 20 anos), certamente o assunto recorrente eram os planos para o futuro. Ele já empregado e eu, embora cursando Jornalismo, ainda indeciso sobre o que queria e deveria fazer, um sentimento que, preciso admitir, me acompanhou por boa parte da vida.
Depois que me mudei para Vila Isabel, em 1981, só o vi 2 ou 3 vezes, e nunca mais visitei a Floresta da Tijuca. Lá se vão mais de 40 anos.
Soube mais tarde que ele se casou, teve filhos e se mudou para o interior de Minas Gerais, onde deve viver até hoje.
Espero que o amigo tenha realizado seus sonhos de infância e juventude. Da minha parte, não tenho do que me queixar. Sem fazer muitos planos, deixei a vida me levar, e reconheço que o destino acabou sendo muito generoso comigo.

Um filme mudou a minha vida!

 

Quando assisti a esse filme em Speyer, na Alemanha, em agosto de 1998, decidi que deveria dedicar o resto da vida à realização dos meus sonhos mais verdadeiros.
Lembro perfeitamente que, ainda no cinema, fui dominado por uma inquietação em relação à vida que levava, limitado a um trabalho, um endereço, uma cidade e um país, quando meu espírito ansiava por novas descobertas e emoções. Uma ideia de pertencimento ao mundo e não apenas a um lugar ou a uma cultura, ampliando horizontes e atravessando fronteiras físicas e limites pessoais em busca de algo maior e mais transcendental. Um verdadeiro despertar do espírito!
Depois de 23 anos e já aposentado, percebo que ainda falta muito para realizar plenamente tudo que sonhei naquele instante mágico e revelador, mas foi ali que plantei a semente que me levaria a dedicar o resto da vida a viajar, viajar e viajar...
Não vi tudo nesse mundo, muito longe disso, mas agradeço a Deus pelo que aprendi e por todas as experiências que vivi nesses anos todos, o que certamente me tornou uma pessoa mais feliz e realizada.

Brasil, Espanha e uma família reunida!

 

Tive o privilégio e a honra de ter sido o único brasileiro de minha geração na família a conhecer pessoalmente José (primo de meu pai) e a esposa Esther, da Galícia.
Meu pai, meus tios e minhas tias eram crianças ou muito jovens quando partiram da Espanha para o Brasil no início dos anos 1930.
Somente minhas tias Carmen, Áurea e Clélia, já no final da vida e bem idosas, ainda mantinham lembranças vívidas da infância na Galícia. A única imagem que meu pai guardava na memória dos tempos de Espanha era da neve batendo na janela. Pudera, veio para o Brasil com apenas 4 ou 5 anos.
Conheci José e Esther, já falecidos, quando visitei os primos em férias na Galícia. Fui lá 4 vezes, a última em 2003. Sempre recebido com carinho e hospitalidade, guardo boas lembranças daqueles dias na Forja com a família reunida. Quase todos vivem em Barcelona, mas costumam passar o verão na Galícia, uma tradição familiar que atravessa gerações.
Ali passei dias agradáveis conhecendo melhor a história da família e até as casas, já em ruínas, onde meu pai morou. Desde então, mantenho contato regular com os primos, o que restabeleceu relações familiares praticamente suspensas por mais de 6 décadas.
Saber que fui o maior responsável por isso, com a providencial ajuda das lembranças de minha saudosa tia Aurinha, é também um motivo de orgulho pra mim.

quinta-feira, 29 de julho de 2021

O mais popular dos "clássicos"!

 

Peter Tchaikovsky (1840-1893) talvez tenha sido o maior melodista de seu tempo. Não à toa é considerado o mais popular dos compositores "clássicos". Suas obras para balés como "O Quebra-Nozes" e "O Lago dos Cisnes" encantam pessoas de todas as idades e origens há gerações.
Mas Tchaikovsky passou a vida inteira atormentado por sua homossexualidade, naquele tempo punida na Rússia com prisão e exílio de anos na Sibéria. Teve um "casamento de fachada" e se apaixonou pelo próprio sobrinho, a quem dedicou sua última (sexta) e mais célebre sinfonia.
Pressionado pelo escândalo que se formava na corte imperial, Tchaikovsky teria deliberadamente bebido água contaminada, embora alguns estudiosos afirmem que o compositor teria tomado arsênico para dar fim à própria vida.
O fato é que essa triste história se reflete em quase todas as obras do compositor. O último movimento de sua derradeira sinfonia, apropriadamente chamada de "patética", carrega um profundo e comovente tom melancólico, como um verdadeiro réquiem com o qual Tchaikovsky se despedia da vida.
Ainda hoje, muitos russos, inclusive Putin, por puro preconceito, consagram o artista e sua obra, mas desprezam o homem, o ser humano. Uma triste contradição que definitivamente não honra a memória de um dos mais talentosos compositores da história da música.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Um alienígena lá em casa!

 


Esse filme, um clássico, se tornou inesquecível pra mim também por uma experiência pessoal.
Em 1979, por meio do intercâmbio da faculdade da minha irmã, recebemos lá em casa um jovem americano de seus 18 anos que veio ao Brasil para aprender português.
Mark, apesar da pouca idade, já chegou aqui falando alguma coisa do idioma. Adorava feijão com arroz e sempre se mostrou muito educado com todos. Confesso que, à época, ele fugia ao meu conceito sobre os americanos em geral. Aquela foi minha primeira lição sobre os cuidados que devemos ter com clichês e preconceitos. 
Em seu último dia lá em casa, Mark se despedia de todos justamente na hora em que eu saía para ver "Alien" no Cine Palácio, no Centro. Resolvemos ir juntos já que pegaríamos o mesmo ônibus. Durante a viagem, eu comentei que estava indo ao cinema. Como tinha tempo, ele decidiu me fazer companhia para conhecer uma sala de cinema no Brasil. Naquela época, o Palácio era um dos cinemas mais luxuosos do Rio. O carpete, lembro bem, era tão grosso que afundava o pé, sem contar a tela, uma das maiores da cidade. Era um tempo em que a Cinelândia ainda fazia justiça ao nome.
Antes da sessão, paramos num bar da Rua Nilo Peçanha para tomar uma cerveja de despedida, quando conversamos sobre as impressões que ele levava do Rio e um possível retorno ao Brasil no futuro.
Em seguida, já no cinema, ao entrarmos na sala de exibição, Mark, impressionado, perguntou se todos os cinemas do Rio eram como aquele. Não resisti e acabei respondendo que a maioria era porque queria que ele voltasse aos EUA com a melhor impressão do país. Depois do filme, nos despedimos ali mesmo, na porta do cinema.
Com o passar dos anos (não havia internet), minha irmã perdeu o contato com Mark e nunca mais o vi ou soube dele.
Ouvindo agora a belíssima trilha sonora do filme, lembrei desse episódio com Mark, certamente um jovem inteligente, curioso e de espírito aventureiro.
Espero que Mark, (se vivo, e espero que sim!) agora com seus 60 anos, venha tendo uma vida plena de realizações e que guarde boas lembranças da minha família, do Rio e do Brasil. E que ainda tenha com ele a bandeira do Brasil que lhe dei como recordação do país que o acolheu por alguns meses.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Bach, Leipzig, Mahler e a "Sinfonia dos Mil"!

 


Assistindo ao concerto com a "Gewandhausorchester Leipzig" executando a "Sinfonia dos Mil", a oitava de Mahler, sob a regência do titular Riccardo Chailly (foto).
Não posso deixar de lembrar do dia, em maio de 2016, em que estive na sede/sala da orquestra, uma das mais antigas e tradicionais da Alemanha, fundada em 1781. Depois de percorrer as instalações, dei uma passada na loja para cumprir um "ritual" infalível em todas as cidades que visito em minhas viagens - "garimpar" cds clássicos impossíveis de encontrar no Brasil!
Sem novidades a bons preços, comprei esse cd (foto) com uma coletânea de músicas para a noite de Natal (weihnachten), gravadas pela orquestra local e o famoso coro infantil "Thomanerchor", também de Leipzig, criado no longínquo ano de 1212!
Guardo ótimas lembranças daquele dia em Leipzig, quase todo dedicado ao grande mestre Bach. É uma cidade de forte tradição musical. Lá nasceu Richard Wagner e viveram Mendelssohn e o grande mestre Johann Sebastian Bach. Visitei a igreja de St. Thomas, em cujo órgão Bach tocou diversas vezes, o Museu Bach, que reúne instrumentos e partituras originais do compositor e, claro, a sede da tradicionalíssima "Gewandhausorchester".
Foi minha primeira viagem ao leste da Alemanha, que, mesmo após mais de 25 anos da reunificação do país, ainda mantinha em 2016 fortes traços econômicos, arquitetônicos e culturais do longo período em que esteve sob o domínio soviético.
Uma viagem inesquecível!




sábado, 10 de julho de 2021

Barcelona em família!

Hoje faz exatamente 10 anos que deixei Barcelona pela última vez, após a visita aos primos espanhóis. Eu estava acompanhado da minha irmã, numa viagem que incluiu também Alemanha, França, Suíça e Áustria. O voo para o Rio, pela Air France, previsto para as 6 da manhã, tinha conexão em Paris. Era um domingo, e acordamos muito cedo, por volta das 4h. Minha prima, apesar de nossos apelos para que ficasse em casa, fez questão de nos levar ao aeroporto, tirando o marido Rafael da cama em plena madrugada, justamente num dia de descanso.
Foi muita correria. Além da tensão no aeroporto de Barcelona por causa da bagagem de mão que tive que despachar com todos os cds comprados na Europa, o voo atrasou e tivemos que correr muito no aeroporto de Paris para não perder a conexão para o Rio. A lembrança da cena da minha irmã correndo (com maleta e tudo!) me faz rir até hoje. Eu corri na frente na tentativa de "retardar" o voo, dando tempo para ela chegar ao portão de embarque, mas ela achou (e acha até hoje!) que a deixei para trás! Fazer o quê?
No final, deu tudo certo. Encontramos o portão de embarque e nos acomodamos no avião, que ainda levou quase uma hora para decolar, aguardando um outro voo de conexão que estava atrasado. Enquanto isso, eu esperava que minha bagagem de mão com os cds "preciosos" despachada em Barcelona também estivesse devidamente "acomodada" no voo. Só relaxei quando finalmente a recuperei intacta na esteira do "Tom Jobim". Ufa!!
Saudade de tudo aquilo; de cada minuto, de cada emoção, de cada surpresa e até de cada contratempo enfrentado naquela viagem, inesquecível como tantas outras que realizei nos últimos 26 anos.