terça-feira, 25 de março de 2025

Um pequeno (e singular) romance!

 

"Um Pequeno Romance" (1979), de George Roy Hill, é a "história de amor" de dois adolescentes (Lauren e Daniel) de classes sociais diferentes que se conhecem em Paris e resolvem empreender uma longa jornada para "consolidar" o romance.
Para isso, contam com a ajuda pouco ortodoxa de um idoso golpista (Laurence Olivier) que os inspira com suas histórias românticas e fantasiosas.
A inteligente e culta Lauren (Diane Lane em sua estreia no cinema), enteada de um empresário americano, se enamora de Daniel, jovem francês superdotado como ela e filho de um taxista.
Após um primeiro encontro casual em que revelam muitas coisas em comum, em pouco tempo as barreiras sociais são superadas. Logo, Lauren se vê caidinha por Daniel, que também acaba se rendendo aos encantos da menina e ao feitiço inocente do primeiro amor.
Por último, mas não menos importante, o filme conta com a bela e romântica trilha sonora de Georges Delerue, vencedora do Oscar de 1980.

O reflexo do artista em sua obra

Nesse livro, o renomado (falecido recentemente) regente japonês Seiji Ozawa revela ter sabido ali, no momento da entrevista, que Mahler e Freud foram contemporâneos, ignorando, portanto, que o compositor esteve no divã do psicanalista, um dos episódios mais conhecidos e emblemáticos da biografia de Mahler.
Que "escolhas" um regente faz ao conduzir uma sinfonia desconhecendo a biografia do compositor, ou aquilo que eventualmente o inspirou/motivou?
Aprecio particularmente as obras de Bruckner, Sibelius, Mahler, Beethoven, Nielsen e Wagner. Como leio tudo sobre eles, aprendi a ver/ouvir refletidas em suas composições as personalidades, as motivações e suas possíveis inquietações.
Como ignorar a surdez progressiva de Beethoven, a profunda fé cristã de Bruckner, o nacionalismo de Sibelius e Nielsen, a neurose obsessiva de Mahler e a megalomania de Wagner ao ouvir suas obras? Elas estão todas impregnadas de desejos, receios e emoções que marcaram a trajetória de vida desses compositores.
Não consigo conceber uma "compreensão" satisfatória dessas obras desprezando as biografias dos autores. Nem como ouvinte e muito menos como regente de uma orquestra.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Wagner, Telarc e a "senhorinha" traída pela memória

Lorin Maazel gravou uma seleção, realizada por ele, de trechos orquestrais ("without words") de duas célebres óperas de Richard Wagner (fotos).
Procurei por anos o cd com "Tannhauser" e encontrei hoje na loja Allegro Discos. A gravação não recebeu críticas muito favoráveis na época do lançamento, em 1991, mas, como se trata de Wagner, eu precisava ter em minha coleção.
O cd do "Ring without words", reunindo excertos das quatro óperas do ciclo, eu já havia adquirido há muitos anos. A compra desse disco, no início dos anos 1990, quando o mercado de cds ainda engatinhava no Brasil, tem uma história peculiar, que eu conto a seguir.
Na época, já colecionador de discos clássicos, eu frequentava bastante as lojas de discos "Gramophone", no Centro do Rio e no Shopping da Gávea. Eram lojas para iniciados, oferecendo os últimos lançamentos do mercado internacional.
A loja do Centro, minha preferida, ficava no final de uma galeria na Sete de Setembro, quase esquina com Rio Branco. O ponto nobre, pra mim, era o subsolo, que abrigava a extensa seção de clássicos.
Havia, então, uma senhorinha, já idosa, que devia trabalhar ali há séculos e que sabia tudo sobre o gênero, desde compositores e obras até regentes e gravadoras especializadas. Uma vendedora como poucas na época ou em qualquer tempo. Era só perguntar sobre a obra desejada e já vinha ela com a informação completa, indicando os títulos disponíveis, as orquestras e os regentes. Era infalível (ou quase!).
Houve uma vez, porém, que a surpreendi num episódio curioso que nunca mais esqueci. Perguntei se a loja tinha o disco com a Filarmônica de Berlim, sob a regência de Lorin Maazel, com obras de Wagner. O detalhe que a desconcertou foi que eu disse que a gravadora era a americana "TELARC", especializada em coletâneas de obras mais "leves" e populares do repertório clássico. Confesso que, também pra mim, Wagner com a Filarmônica de Berlim era algo realmente estranho à "TELARC", mas não havia dúvida porque eu tinha lido sobre o lançamento do cd numa revista.
Assim que acabei de falar, ela afirmou enfaticamente que seria impossível a TELARC deter os direitos de venda de uma gravação com a Filarmônica de Berlim, mas se dispôs a me acompanhar até a seção destinada a Wagner. Para sua surpresa (e decepção), estava ali, logo no início da fila de cds, justamente o referido disco. Ela reagiu com um leve e sutil sentimento de "derrota", embora estivesse concretizando uma venda importante porque o cd era importado e caro! Por que não sabia do lançamento é algo que nunca entendi. Um provável lapso do qual ela mesma nunca deve ter se perdoado.


O mundo tomou um atalho...

Talvez não haja precedente na história do enorme retrocesso que a extrema direita tenta impor ao mundo, "ressignificando" conceitos e valores que levamos séculos para consolidar.
Aliados históricos são tratados como adversários; familiares e amigos de longa data passam a não se "reconhecerem" por suas ideias; diferenças étnicas e culturais voltam a ser tratadas como ameaças...
Conceitos como ética, moral e respeito mútuo deixam de balizar/nortear relacionamentos pessoais, institucionais e internacionais.
Enfim, tudo que o milenar processo civilizatório nos legou é agora combatido com hostilidade e até violência pelos novos detentores do poder, devidamente legitimados por eleições livres e democráticas.
Vivemos atualmente uma verdadeira revolução política e cultural. Onde vai dar isso, eu não sei, mas me assusta porque o mundo onde fui criado e educado vai, aos poucos, deixando de existir. A estrada (de valores) que percorri por toda a vida, e também percorrida por meus antepassados mais recentes, a cada dia parece levar a "lugar nenhum".
Como diz o título de um documentário sobre o regente Carlos Kleiber: "I am lost to the world"...


Um papa de seu tempo

É curioso como são semelhantes as histórias de levas de imigrantes europeus pobres que aportaram no continente americano entre os séculos XIX e XX.
Navios abarrotados de gente fugindo da pobreza, em meio a péssimas condições sanitárias e doenças...
A história de muitos de nossos antepassados é a história de verdadeiros "sobreviventes". É a história de gente que jamais perdeu a esperança, ou para quem só restava mesmo a esperança, depois de deixar "tudo" para trás.
Após tanto tempo, é possível dizer que muitos de nós somos filhos, netos ou bisnetos da "esperança", a exemplo do próprio Papa.







A coragem (e o preço) de dizer NÃO!

 

O filme "Napola" relata a trajetória de Friedrich, um jovem alemão de 16 anos, que, contrariando o pai, resolve se inscrever numa escola militar, com o objetivo de garantir seu futuro.
Sensível e avesso às ideias nazistas, Friedrich enfrenta dificuldades para se adaptar ao rígido e desumano regime escolar, o que lhe traz sérios problemas.
É possível dizer que o mal que Hitler fez à Alemanha só não foi maior do que a barbárie que produziu contra judeus e minorias no período da II Guerra.
Não há registro na história moderna de um povo que tenha sido tão vil, bárbaro e desumano com os inimigos e com os próprios nativos opositores.
Na Alemanha nazista, corrompidos pelo regime, filhos delataram pais, vizinhos entregaram vizinhos e até pais, como mostra o filme, sacrificaram filhos em nome de uma infame ideologia supremacista.
Estou convencido de que, ainda por mil anos, gerações seguidas de alemães carregarão as cicatrizes dos ferimentos físicos, morais e espirituais provocados por aquele homem/fera e seus seguidores.
Por outro lado, outra grande tragédia nessa história toda é que, até hoje, quase 80 anos depois, à exceção dos casos isolados de atentados a Hitler já explorados pelo cinema, o mundo praticamente não tomou conhecimento daqueles alemães anônimos que perderam a própria vida na "resistência" diária ao nazismo. Homens e mulheres que lutaram pela herança de Beethoven, Bach, Brahms, Kant, Schopenhauer, Goethe, Nietzsche e tantos outros compatriotas que contribuíram para nosso processo civilizatório.

A voz esquecida de Maria Anderson

Em evento histórico, na Páscoa de 1939, nos degraus do Memorial Lincoln, onde assombrou a todos cantando "My country, 'tis of thee", ela foi reverenciada pelo presidente Franklin Roosevelt e Eleanor, a primeira-dama.
Mais tarde, nas melhores salas de concerto da Europa, incluindo Alemanha, Áustria, União Soviética e Finlândia, foi ovacionada pelo público com incontido entusiasmo.
Certa vez, Toscanini se referiu a ela como "o tipo de cantora que só aparece uma vez a cada 100 anos".
Sibelius a recebeu na Finlândia dizendo:
- Meu teto é baixo demais para você!
Mais recentemente, em 2009, na festa da posse de Obama, a pedido do presidente eleito, Aretha Franklin cantou "My country, 'tis of thee" no mesmo Memorial Lincoln do evento da Páscoa de 1939, diante de 2 milhões de pessoas.
A despeito de tudo isso, ao longo da carreira, ela foi proibida de se hospedar em hotéis e rejeitada por professores de canto.
Em Birmingham, durante a II Guerra, foi impedida de permanecer no saguão da estação de trem enquanto o pianista alemão Franz Rupp lhe comprava um sanduíche.
Ela foi Marian Anderson (1897-1993), negra, pobre e uma das mais belas vozes de todo o século XX.
Você já ouviu falar de Marian Anderson?
Certamente nem eu nem você nem a maior parte do povo norte-americano ao longo dos últimos 100 anos.



A arte a serviço da fé em Deus e nos homens

 

Terrence Malick é, provavelmente, o cineasta que mais fala ao meu coração (ou ao meu espírito!).
Em "A Árvore da Vida" (2011), Malick apela predominantemente para os sentidos, o que pode provocar alguma resistência no início, mas oferece muito a quem se dispõe a empreender a "viagem" até o fim.
Ao longo de décadas, assisti a pouquíssimos filmes que tivessem abordado com tamanha profundidade e fidelidade as sensações mais familiares à minha experiência de vida ou à maneira como percebo o mundo e minha própria existência!
Já "Uma Vida Oculta" (2019), último filme do diretor, sugere uma reflexão a respeito da vulnerabilidade humana, das condições físicas e morais às quais estamos submetidos nas relações de poder e do que cada um de nós faz ou deixar de fazer para o bem ou para o mal prosperar.
Ouso afirmar, ainda, que Malick reitera em seus filmes a importância da fé, da integridade, do afeto e, em última instância, do AMOR em nossa jornada nesse mundo.
Homem de profunda fé cristã, o cineasta dedicou sua vida e sua arte a prestar contas com Deus. E nos inspira a fazer o mesmo!
Terrence Malick, com 80 anos, tem uma curta filmografia, apenas 11 filmes, mas integra o pequeno grupo de cineastas que ousaram "desafiar" a indústria, fazendo carreira à margem do gosto popular.

O preço de ser fiel a si mesmo

 

Nesse belíssimo filme, Terrence Malick nos coloca na pele de um fazendeiro austríaco que se recusa a jurar lealdade a Hitler durante a II Guerra. Casado e pai de duas meninas, o personagem sofre pressão de todos os lados (à exceção da jovem e corajosa esposa), especialmente da cunhada, de amigos e do próprio bispo local, para assinar o juramento, mas, por profundas convicções religiosas e morais, se recusa terminantemente a fazê-lo, sob o risco até de ser executado.
Os que o amavam lhe pediam apenas o "razoável" para salvar a própria vida, assinar um mero papel e esquecer tudo, mas o que parecia tão simples para eles lhe era totalmente inaceitável, intolerável. Uma verdadeira infâmia!!
É um filme que sugere uma profunda reflexão a respeito da vulnerabilidade humana, das condições físicas e morais às quais estamos submetidos nas relações de poder e do que cada um de nós faz ou deixar de fazer para o bem ou para o mal prosperar.
Ouso afirmar, ainda, que Malick reitera em seus filmes a importância da fé, da integridade, do afeto e, em última instância, do AMOR em nossa jornada nesse mundo.
Homem de profunda fé cristã, o cineasta dedicou sua vida e sua arte a prestar contas com Deus! E nos inspira a fazer o mesmo!

Entre a civilização e a barbárie

"Senhor das Moscas", clássico romance de William Golding sobre a natureza humana, conta agora com uma versão "em quadrinhos" no mercado nacional, embora esteja longe de ser um obra destinada ao público infantil.
Na obra de Golding, depois da queda de um avião no mar, um grupo de adolescentes consegue alcançar uma ilha deserta, sem haver, porém, perspectiva imediata de resgate. Com o passar do tempo, cada um passa a contar apenas com o próprio instinto para sobreviver, sem a interferência dos adultos, mortos no acidente (apenas um tripulante sobreviveu algumas horas na ilha).
É claro que os conflitos não demoram a aflorar. A maioria dos garotos faz uso crescente da violência na defesa de seus interesses, com a intimidação sistemática dos mais fracos e suscetíveis. Alguns poucos lutam para manter os mais nobres valores da civilização (solidariedade, compaixão etc.), pagando um preço altíssimo por isso.
No geral, é possível afirmar que o autor defende a tese de que a natureza humana seja irremediavelmente selvagem e que a fronteira entre o bem e o mal, entre a civilização e a barbárie, seja tênue e não resista a situações-limite.
Conheço e recomendo o romance em sua versão original, e até as adaptações já realizadas para o cinema, em especial a de 1990. Quanto a essa nova e "ousada" versão em quadrinhos, encontrei boas críticas na internet ressaltando a fidelidade ao texto de Golding, mas é preciso conferir.


Um verdadeiro curso de pintura espanhola ao longo dos tempos

 

O livro à esquerda aborda a pintura espanhola no chamado "Siglo de Oro" (Velasquez, El Greco, Zurbarán, Murillo etc.), entre os séculos XVI e XVII, quando houve um florescimento das artes e da literatura na Espanha.
Meu pintor favorito no período é El Greco (1541-1614), de origem grega, com seus personagens de olhos expressivos e corpos alongados. Único e genial, assim como a arquitetura modernista de Antoni Gaudí (1852-1826), três séculos depois.
Gosto dos artistas que revelam um olhar singular sobre a realidade. Muitas vezes pagam um alto preço por isso, mas o futuro quase sempre lhes faz justiça!
O outro livro amplia a cobertura da história da pintura na Espanha, compreendendo o período do século XVII ao início do século XX.
A capa é ilustrada com uma obra belíssima do valenciano Joaquín Sorolla (1863-1923), talvez o maior representante do impressionismo espanhol, cujo museu conheci em minha última visita a Madrid.
Os dois livros cobrem mais de 4 séculos da pintura espanhola. Um verdadeiro curso sobre uma arte que ajuda a contar a própria história do país.

A primeira impressão...

Minha primeira relação com o cinema foi de "ódio à primeira vista"!
A empregada lá de casa pediu e minha mãe concordou que ela levasse as crianças (meus irmãos e eu) para assistir "A Noviça Rebelde". Eu tinha apenas 6 anos e não entendi absolutamente nada daquela "história sem fim" sobre uma família rica e numerosa que gostava de música e vivia num lugar bonito e distante. Música folclórica austríaca, nazismo e perseguição política (embora vivêssemos aqui numa ditadura) eram temas alheios à minha realidade infantil. Depois de três horas sentado numa sala escura e sem poder falar ou levantar, eu aprendi, na mais tenra idade, o verdadeiro significado de "tortura".
Com o trauma do primeiro "encontro", o cinema só viria a me conquistar muitos anos mais tarde, quando, já adolescente, assisti a "Houve Uma Vez Um Verão", de Robert Mulligan.
A história nostálgica de um rapaz da minha idade apaixonado por uma mulher madura e comprometida, um belo rito de passagem, mexeu comigo como poucas vezes aconteceu no cinema em toda a minha vida.


segunda-feira, 1 de julho de 2024

O melhor filme de Tim Burton!


Há cineastas que "transcendem" a indústria!
É o caso de Tim Burton.
Com filmes singulares, ele se destaca justamente pela assinatura autoral "impressa" em cada tomada, sempre enriquecida por um visual deslumbrante.
Eu adoro Tim Burton e, também, Wes Anderson, autor do genial "Moonrise Kingdom", um filme permeado de humor e ternura, contando uma singela história de amor juvenil.
Esse livro de capa dura (foto), recheado de ilustrações, foi lançado no último dia 20 no Brasil e conta tudo sobre a carreira de Burton, dedicando um capítulo para cada filme, acrescido de informações sobre "Wandinha", sua recente produção para a Netflix, e "Os Fantasmas se Divertem 2", esse com previsão de lançamento para setembro nos cinemas brasileiros.
Por último, vale dizer que, para mim, o melhor filme de Tim Burton é "A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça".
Como relatado no livro, 99% da produção foi filmada em cenários e não em locações reais.
Ainda na fase de pré-produção, Burton comentou, "não queremos naturalismo, queremos um tipo de expressionismo natural"!
Isso é o que torna o filme visualmente fascinante. Tudo é filmado num ambiente controlado, um "mundo-cenário" sem compromisso com a aparência do "real", justamente para criar a atmosfera sombria necessária à narrativa.
Na verdade, a impecável direção de arte é praticamente uma personagem do filme.
Tim Burton e Wes Anderson se notabilizaram por filmar assim, e eu gosto muito disso.


Escolhas e consequências.

Conto aqui uma história curiosa que acabei de ler sobre o compositor dinamarquês Carl Nielsen (1865-1931):
Em 1890, com apenas 25 anos, Nielsen deixou sua terra natal e viajou para a Alemanha em busca de novos ares e "ampliação de horizontes".
Em Berlim, depois de ouvir a execução do Quarteto de Cordas, op.5, de Nielsen, o respeitado mestre Joseph Joachim (1831-1907), apesar de reconhecer "imaginação e talento" na música do jovem dinamarquês, comentou com o compositor que considerava a obra muito radical, sugerindo algumas mudanças. Nielsen agradeceu, mas ressaltou que temia que qualquer alteração pudesse levar a composição a perder o seu "caráter" ou autenticidade, ao que o mestre teria respondido:
- Bem, meu caro Sr. Nielsen, talvez eu seja, afinal, um velho conservador. Escreva como quiser ou achar melhor, contanto que seja como você verdadeiramente sente a obra. É o que importa!
Ao ler sobre isso, não pude deixar de me lembrar de um episódio ocorrido no dia da minha aposentadoria, quando recebi a mensagem abaixo de um jovem estagiário com quem trabalhei nos últimos anos:
- Aprendi muito com o senhor, que sempre fez questão de me mostrar os dois lados de um determinado assunto. Isso pode ser uma coisa simples, porém, no mundo de hoje, as pessoas empurram as suas ideologias e criticam você se não concorda com elas.
Fora, naturalmente, do campo profissional, esse foi um dos maiores elogios que recebi em meus 35 anos de IBGE!
Na verdade, embora nem sempre seja fácil, é assim que eu venho tentando conduzir a minha vida e, se tiver a chance, pretendo envelhecer. Sem fórmulas prontas ou ideias preconcebidas para tudo.
É preciso ter humildade para aceitar conceitos novos e respeitar a visão pessoal e subjetiva dos outros, principalmente no que concerne às escolhas e à trajetória de vida de cada um.


Quando filme era no cinema!

 

Assistindo a "Os Embalos de Sábado à Noite", no Telecine Cult.
Sim, o filme mais popular dos anos 1970 é agora "cult"!
Quando assisti à estreia num cinema de Madureira, em 1978, a fila dava voltas no quarteirão, e ninguém arredava pé dali. Isso durou vários finais de semana porque poderia levar anos até que a televisão programasse a exibição do filme.
Enfim, eram tempos em que ir ao cinema era um grande acontecimento, um verdadeiro ritual, principalmente para as classes populares. Hoje, o filme nem estreou nos cinemas e tem gente que já assistiu na internet.
Naquela época, as grandes estreias dos filmes de Hollywood eram aguardadas ansiosamente por multidões que faziam filas intermináveis nas portas dos cinemas para assistir. Era um tempo em que os filmes levavam anos para passar na TV. Não havia vídeo doméstico, inaugurado nos anos 80 com o finado formato VHS, e muito menos internet. Assistir a um filme no cinema com amigos ou com a namorada era um acontecimento social e cultural da maior importância. Nos subúrbios, era o ponto alto do fim de semana. Para a minha geração, um evento que rivalizava com as festinhas dos sábados e com os bailes de "discoteca" nos clubes.
Aliás, a trilha sonora de "Os Embalos de Sábado à Noite" foi o primeiro lp que comprei com o meu próprio dinheiro.
Lá se vão 46 anos (o filme foi lançado, no Brasil, em 1978), mas parece que foi ontem...

Kafka nos dias de hoje!

Em tempos de "cancelamentos" sumários nas redes sociais, "sem dar direito à defesa ou a um julgamento justo", é hora de reler e recomendar essa obra-prima de Kafka, que conta a história de um homem repentinamente acusado de um crime cuja natureza desconhece.
A obra completa 100 anos da primeira publicação no ano que vem, mas parece sempre atual porque, em resumo e essencialmente, trata dos vícios permanentes da civilização, ou da própria natureza humana.


As duas faces de um gênio!

 

Com a Orquestra Filarmônica de Viena, Karajan gravou, em 1989, seu último concerto, regendo a Sétima Sinfonia de Bruckner (cd à esquerda da foto).
Já bastante debilitado, conduziu a obra sem a obsessão pela perfeição que o caracterizou durante a longa carreira. Alguns críticos até entendem que esse "desprendimento" acabou por revelar o melhor Karajan e, talvez, a melhor versão da própria obra-prima de Bruckner.
Na gravação da mesma sinfonia, em 1971 (cd à direita), à frente da Orquestra Filarmônica de Berlim e 18 anos mais novo, era o Karajan obsessivo que não tolerava o menor erro de execução da orquestra, impondo com "mão de ferro" uma visão pessoal e praticamente inegociável da obra.
Confesso que gosto mais do Karajan obsessivo, um artista que passou a vida inteira em busca da perfeição, cumprindo uma trajetória que o levou a atingir os mais altos padrões de seu ofício ou de sua arte no século XX.

O que poderia ter sido...e não foi!

O filme "Vidas Passadas" (2023), dirigido pela sul-coreana Celine Song, que trata do reencontro de um casal de amigos de infância 24 anos depois que se separaram, é também a história do que poderia ter sido e não foi, sem culpa ou qualquer idealização romântica da relação. Mas, num roteiro vencedor do Globo de Ouro e indicado ao Oscar, o filme revela também que não há como voltar ao passado impunemente ou sem consequências.
A ótima produção me fez lembrar de uma das mais belas passagens do conto "Os Mortos", de James Joyce, brilhantemente adaptado para o cinema por John Huston, quando um marido fiel e amoroso descobre que a esposa, ambos na meia-idade, tivera na juventude uma grande paixão por alguém que sacrificou a própria vida por ela, num dos mais belos e sensíveis relatos da literatura ocidental.
Mas essa é uma outra história...


Retratos do Brasil!


Um dos livros mais "polêmicos" (e indispensáveis) dos últimos tempos, que chegou a ser banido de escolas públicas em alguns estados, "O Avesso da Pele" (prêmio Jabuti de 2021) é o relato comovente da trajetória de luta e resistência da família de um homem negro, desde a infância dos pais, expondo, sem panfletagem, as vísceras do racismo estrutural da sociedade brasileira.
Por sua escrita incomum (sem parágrafos e alternando primeira e segunda pessoas), a leitura pode não ser fácil, mas, ainda assim, a narrativa é tão envolvente que nos convida a ler tudo de uma única vez.
Chegou ontem à noite e já acabei de ler, fazendo um esforço enorme para conter as lágrimas no final. Detalhe, para não interromper a leitura, levei o livro quando saí para o almoço. Nunca me aconteceu isso!
Recomendo o livro especialmente aos amigos e amigas que fizeram carreira no magistério. O relato funciona como uma bela e comovente homenagem à profissão, uma das mais nobres e, infelizmente, menos valorizadas desse país.

Repórter por uns dias!

 

Eu já fui repórter de polícia...
Uma de minhas poucas matérias como estagiário de jornalismo foi a cobertura da prisão do "Lobisomem", um perigoso bandido que assombrava o Rio no final dos anos 1970.
Lobisomem estava detido na delegacia da Praça da Bandeira, para onde me dirigi rapidamente, acompanhado do fotógrafo do jornal.
Chegando lá, já havia uma dúzia de repórteres cercando o meliante. Com alguma dificuldade, consegui me aproximar dele, mas ainda sem saber que perguntas fazer em meio àquela gente toda muito mais experiente do que eu.
Foi então que, sem coragem de inquirir o próprio "Lobisomem", decidi aproveitar as perguntas dos "colegas", registrando cuidadosamente as respostas do bandido.
Voltei ao jornal ainda a tempo de redigir a matéria que seria publicada no dia seguinte, uma das situações mais tensas e constrangedoras que enfrentei na vida.
Ali eu vi que essa história de reportagem (ou apurar fatos) não era comigo.
Naquele mesmo estágio, entrevistei o juiz Francisco Horta no Tribunal de Justiça, por decisão própria, e fiz a cobertura da invasão do prédio da UNE, na praia do Flamengo, pela Polícia Militar, duas matérias das quais me orgulho até hoje, embora ambas bem "fraquinhas" por conta da minha inexperiência, mas encarar bandido em delegacia estava (e está) completamente fora de meu projeto profissional ou de vida!
Desde então, e ainda hoje, prefiro as crônicas ou o relato de histórias, como essa!