terça-feira, 20 de abril de 2021

Gunter Wand e o melhor Bruckner!

Estou impressionado com o que constatei agora ouvindo uma gravação da sexta sinfonia de Bruckner, sob a regência de Gunter Wand.
Nunca tinha ouvido nenhuma obra conduzida por Wand, um regente alemão com uma história de vida e profissional singular, que inclui resistência ao nazismo e decorrente prejuízo na carreira.
Ultimamente, lendo mais sobre as sinfonias de Bruckner, que ouço sem parar há dias, descobri que Gunter Wand é considerado o mais célebre condutor das obras do compositor austríaco. Um gênio inigualável, nas palavras de um grande especialista. Como eu, um viciado em Bruckner, não sabia disso? Estúpido!!
Para "tirar o atraso", resolvi procurar no YouTube um vídeo de Wand conduzindo justamente Bruckner e encontrei a sexta sinfonia, uma obra que já conheço de dois cds da minha coleção.
Em poucos segundos de execução da música, tomei um susto! Aquela não era a sexta sinfonia de Bruckner. Wand conferia ao solene primeiro movimento nuances de extraordinária beleza e definitivamente ausentes nas duas gravações que eu conhecia, ambas com regentes consagrados. A música transcorria como pequenas ondas, num contraste delicado e suave que revelava uma melodia nova, encantadora e de dimensão transcendental. E foi assim até o final, com direito a verdadeiras epifanias no belo adágio.
Tudo que eu tinha ouvido até então em outras gravações, e que já me agradava muito, me parecia agora extremamente linear, talvez fiel à partitura, mas conduzido sem a necessária sensibilidade, sem verdade e sem "alma".
Receio que só agora, com Gunter Wand, falecido em 2002, aos 90 anos, é que conheci Anton Bruckner. Um pouco tarde, mas, como diz o ditado, antes tarde do que nunca!



Chegadas, partidas e chamadas do exterior!

O programa "Chegadas e Partidas", originalmente transmitido no canal GNT e agora também no "Fantástico", me faz lembrar das viagens ao exterior de muitos anos atrás em que a única maneira (barata) de falar com o Brasil era por meio das "Lan Houses". Chegando ao hotel, a primeira providência era descobrir uma Lan House por perto. Lembro especialmente da viagem de 2006, cruzando a Europa, desde Roma até Heidelberg, na Alemanha. Em praticamente todas as cidades em que me hospedei recorri às Lan Houses para dar e receber notícias. Além das ligações telefônicas, era ali também que eu acessava meu correio eletrônico.
Nos últimos anos, com o surgimento principalmente do WhatsApp, tudo ficou mais fácil. Hotéis, bares e restaurantes já dispõem de redes wifi, e, dependendo da cidade, até da rua é possível fazer contato. Os tempos mudaram e a comunicação se tornou mais acessível e instantânea, mas o que se perdeu com tudo isso foi aquela expectativa pela chegada para contar as experiências da viagem.
O mundo gira!



Viajar não tem preço!

"É melhor presenciar algo uma vez do que ouvir sobre isso milhares de vezes" - Provérbio asiático.
Por pura sorte (e talvez oportunidade histórica), comecei a viajar justamente quando o real valia muito. Na primeira viagem, em 1995, o real valia mais do que o dólar e continuou valorizado por muito tempo. Naquela época, até a Europa era acessível para os brasileiros. Nos últimos anos, com a crise econômica, incluindo dois períodos de recessão, é que o cenário mudou, dificultando viagens para o velho continente, agora "proibido" para os brasileiros por conta da pandemia.
Aproveitei muito bem os melhores anos da economia brasileira para realizar um sonho de infância, conhecer a Europa, experimentando algumas das maiores emoções que tive na vida. Atravessei o continente de um jeito que mesmos os turistas endinheirados não têm a oportunidade de fazer. De trem, de carro e até de bicicleta, visitei cidades grandes, cidades pequenas e dezenas de aldeias no interior de vários países, incluindo algumas que nunca tinham visto um brasileiro, como ocorreu duas vezes no interior da Baviera.
Me perdi de carro na Croácia e nos alpes austríacos, fui à praia na Bósnia e Herzegovina, cheguei à capital de um país sem saber que estava no país, testemunhei a realização de uma Copa do Mundo no país-sede, peguei carona em ônibus escolar da R. Tcheca para a Alemanha, por duas vezes, quase dormi no carro por falta de hospedagem...
Enfim, nenhum dinheiro paga por isso. Não foi apenas uma questão de disponibilidade de recursos, mas de oportunidade, e isso não tem preço!



TGV e Paris, a primeira vez a gente nunca esquece!

Depois de passar meses sentindo saudade, mas com a emoção contida, finalmente as lágrimas rolaram ao assistir, agora há pouco, a um episódio de "Mundo Visto de Cima" mostrando Lyon e o TGV (Train à Grande Vitesse), trem francês de alta velocidade.
Lembrei-me da chegada à estação de Lyon no dia 15 de maio de 1995 (uma segunda-feira), após uma viagem noturna desde Barcelona, atravessando os Pirineus, cordilheira que serve de fronteira natural entre Espanha e França, e passando por Perpignan, Montpellier e Nimes, já no sul da França. Fazia uma manhã muito fria e a expectativa era grande para viajar no famoso TGV francês. Eram 7h e a chegada a Paris estava prevista para as 9h. O passe de trem (Europass), comprado ainda no Brasil, dava direito a um assento na primeira classe, com a condição de que eu fizesse a devida reserva de lugar ainda na estação, o que efetivamente providenciei assim que desembarquei do trem que me levou de Barcelona.
Na plataforma indicada, vestido com vários casacos, mas ainda assim quase morrendo de frio, e ao lado de dezenas de executivos acompanhados de suas vistosas pastas (não era tempo de notebooks e muito menos de smartphones), aguardei ansiosamente pelo TGV. Uns dez minutos antes das 7, o trem se aproximou da estação. Fui um dos primeiros a embarcar e procurei logo o assento reservado. Depois de colocar a mala no compartimento superior, finalmente me acomodei e relaxei. Em questão de minutos o vagão estava lotado. Todos, a maioria homens, impecavelmente vestidos e só eu ali (que eu me lembre) de calça jeans, tênis e mochila. O trem partiu na hora certa e, com uma sensação de "peixe fora d'água" (ou penetra), segui viagem, logo me distraindo com a bela paisagem e as fotografias de uma revista de bordo.
Mas não demorou muito para eu me sentir dominado por um sentimento misto de ansiedade por conhecer a mítica Paris dali a duas horas e o receio de chegar a um país sem conhecer nada do idioma. Até então eu só tinha visitado Portugal e Espanha. O resto da viagem, que incluía França e Alemanha, prometia muitas emoções e percalços por conta da comunicação, mas a sorte já estava lançada. E bota sorte nisso!!
Enfim, foi o início de um período de descobertas e novas emoções...
Aquela viagem mudou a minha vida, enriqueceu a minha vida, deu sentido à minha vida...
Sem as viagens, eu certamente seria outra pessoa e receio que menos tolerante e aberta à diversidade humana.
Novas culturas, hábitos, comportamentos, paisagens, visões de mundo...
Isso definitivamente não se aprende nos livros.
Por isso, agradeço a Deus todos os dias pela inspiração e coragem (também saúde e recursos) para superar o medo e viabilizar aquela mágica viagem de 1995.



O Rio dos anos 20!

Saudade de uma cidade que não conheci e de um tempo que não vivi!
A leitura de "Metrópole à Beira-Mar - O Rio Moderno dos Anos 20", de Ruy Castro, flui naturalmente em forma de uma rica e extensa crônica sobre a efervescência artística e cultural de um Rio de Janeiro ainda otimista e confiante no futuro. A modernidade europeia do início do século XX, com seus desafios e contradições, encontrava aqui terreno fértil para se instalar e se reproduzir.
Mas não durou muito. A partir dos anos 1930, a capital federal nunca mais foi a mesma, a despeito do rápido "espasmo" ocorrido no final dos anos 1950, com a visão "empreendedora" de JK, que se refletiu em todos os ramos de atividades, criando no imaginário de uma geração inteira de cariocas e brasileiros a visão de um Brasil próspero e moderno que o tempo infelizmente não "avalizou".
Voltando ao livro, o fato é que nunca mais o povo carioca teve tantos motivos para acreditar no futuro como nos anos 1920. A leitura é indispensável para quem deseja conhecer a História de uma cidade que já foi a legítima capital política, artística e cultural desse país. Uma cidade que se vê hoje tomada pela criminalidade em todos os níveis, pela desigualdade/insensibilidade social e por uma profunda crise econômica que se estende há décadas e que parece não ter fim.
Por último, vale dizer, trata-se de um livro precioso e fundamental para o registro da História não só do Rio, mas do próprio país. O volume de informações reunidas sobre o cotidiano da capital federal, com suas ricas manifestações populares e visitas de monarcas e de grandes artistas e personalidades estrangeiras, algo que nunca mais se repetiu na cidade, deve ser inédito nessa obra. Se eu fosse professor, usaria o livro em sala de aula para estimular em cada criança e jovem carioca o amor pelo Rio de Janeiro e o desejo de trabalhar para vê-lo de novo política, econômica, artística e culturalmente pujante, como a geração de nossos avós puderam testemunhar naqueles longínquos anos 1920!



Os clichês que não resumem a vida!

Revisitei “O Turista Acidental” ontem à noite e me lembrei desse comentário que fiz há alguns anos...
Ele odeia surpresas. Vive cada momento de acordo com o "planejado" e nada foge ao seu rígido controle. Tornou-se, então, autor de guias de viagens para pessoas que “detestam” viajar. Isso mesmo, seu público-alvo é formado exatamente por turistas que gostam de reproduzir nas viagens todas as facilidades às quais estão acostumados em suas rotinas diárias.
Quem já assistiu deve saber que estou me referindo a Macon Leary, o protagonista de "O Turista Acidental", uma adaptação para o cinema do romance homônimo de Anne Tyler, escolhida como melhor filme de 1988 pelo Círculo de Críticos de Cinema de Nova York. Assistindo ao filme, confesso que lembrei de um amigo que se parece muito com Leary, o personagem vivido por William Hurt. Ele (o amigo) não abre mão da rotina e receio que só não viajou até hoje para a Europa (um sonho antigo) porque não conhece um guia de viagens como o de Leary.
Mas todos sabemos que em viagens, como na vida, não é possível controlar e prever tudo, daí as dificuldades enfrentadas pelo personagem em sua história pessoal. A partir da trágica perda do filho de 12 anos, sua vida toma um rumo completamente inesperado, o que leva Leary a vivenciar situações novas, algumas desconfortáveis e outras que certamente o ajudarão a ver as coisas de maneiras diferentes.
Nesse sentido, não há nada no filme que contrarie mais as expectativas do personagem e da maioria das pessoas do que os acontecimentos mostrados na sequência final em que Leary, hospedado em Paris, resolve retornar aos Estados Unidos. Após arrumar rapidamente a pequena bagagem, ele deixa o hotel sentindo fortes dores na coluna. Na rua, à procura de um táxi para levá-lo ao aeroporto e não resistindo às dores, Leary acaba abandonando a maleta. Em seguida, ele avista um táxi parado de onde sai um adolescente. Com pressa (e dificuldade), Leary grita "espera", mas o motorista não ouve e arranca com o carro. O garoto, ao ver Leary e percebendo que ele desejava pegar o mesmo táxi, pede para o motorista esperar. O carro finalmente para e o garoto, com uma gentileza incomum, ajuda Leary a entrar no veículo, despedindo-se com um sonoro "bon voyage!!" antes de fechar a porta. Leary fica tão surpreso com a atitude do rapaz que o acompanha com o olhar por um bom tempo, como que não acreditando que aquele jovem tão atencioso e gentil fosse real.
Como sabemos, há poucas coisas mais previsíveis e familiares na vida do que o clichê. E não há maior clichê a respeito dos franceses (e dos parisienses em particular) do que a grosseria e o mau humor. Muitos podem até pensar que pessoas como o adolescente do filme só existem na ficção, mas não é verdade. Numa de minhas viagens, presenciei situações semelhantes exatamente em Paris. Um rapaz ajudou minha sobrinha a retirar a mala do vagão do metrô e, logo depois, uma senhora de meia idade chegou a carregar a mala dela pelas escadas da estação. Além disso, quando eu estava tirando fotos no interior da Conciergerie, um menino de aprox. 10 anos que integrava uma excursão escolar, ao ver que eu estava fotografando as celas, orientou os colegas para que se mantivessem afastados do local, uma atitude que desmente todos os clichês a respeito do povo francês.
Finalmente, acredito que a diferença (ou uma das diferenças) entre mim e Leary, o personagem, é que, após muitas viagens, aprendi que Paris e a vida definitivamente não se resumem aos clichês.



A atualidade do romantismo de Heine!

Heinrich Heine é um dos mais celebrados poetas e escritores alemães. Suas obras, escritas há dois séculos, permanecem atuais, e seu estilo irônico é curiosamente semelhante ao de Machado de Assis, que teria se inspirado no escritor alemão, conforme afirmam alguns estudiosos. O brasileiro, encantado com Heine, chegou a traduzir suas obras para o português.
Fica difícil imaginar um homem com a cabeça ou a mentalidade de Heine na Alemanha do início do século XIX, embora ele tenha sido contemporâneo de Goethe. Suas ideias românticas e humanistas ainda encontram eco num mundo cada vez mais desigual e insensível.
"...As crianças, pensei comigo, por serem mais jovens do que nós, ainda conseguem se lembrar de quando elas também eram árvores e pássaros e, por isso, ainda são capazes de entendê-los. Nós, porém, já somos velhos e temos preocupações em excesso, jurisprudência demais e muitos versos ruins na cabeça...".
"Viagem ao Harz", Heinrich Heine.



Bach e os tempos difíceis em que vivemos!

A "Paixão Segundo São Mateus", composta por J. S. Bach, descreve um dos episódios bíblicos mais representativos da fé cristã, as últimas horas de Jesus e sua crucificação. Nessa obra-prima, o compositor dá um testemunho eloquente de sua profunda religiosidade.
A arte de Bach pode perfeitamente nos ajudar a compreender e enfrentar essa época de tantas incertezas, dor e sofrimento. Um período sombrio que desafia (ou reforça) nossa fé em Deus e em sua misericórdia!
Sobre a "Paixão Segundo São Mateus", Nietzsche, célebre filósofo alemão, afirmou:
- Quem desaprendeu totalmente a cristandade tem a chance de ouvi-la aqui como um verdadeiro evangelho!



Expulso do bar em Praga!

Estávamos os três, eu e meus amigos, passeando por Praga já há algumas horas e deu aquela vontade terrível de urinar. Praga é linda e convida a longos passeios a pé, mas banheiro público não vimos nenhum na cidade, nem mesmo pago, como é comum encontrar nas grandes cidades europeias.
Depois de procurarmos um banheiro por horas, recorremos a um daqueles bares antigos de Praga, com cheiro e cara de séculos de história.
Era cedo ainda, final da tarde, e não havia clientes. Só vimos um homem no balcão, bastante ocupado para perceber nossa entrada "sorrateira".
Após "esvaziar a bexiga", o desafio era sair do bar também sem ser percebido. Meus amigos foram rápidos e saíram na frente, mas foram vistos pelo funcionário. O babaca aqui, pra variar, foi o último a sair e acabou ouvindo pelos três todos os impropérios tchecos possíveis. O homem até tentou me alcançar. No final, deu pra ouvir, em claro e sonoro inglês, que ali não era banheiro público.
Confesso que, já do lado de fora, me senti como uma criança pega em flagrante "aprontando mais uma", mas o que seria das viagens sem esses "incidentes" e lembranças?
Há 15 anos...


Viena e seu passado de vanguarda!

Muita gente associa Viena a óperas de Mozart e valsas de Strauss (pai e filho), mas, há pouco mais de 1 século, a capital austríaca já foi considerada de "vanguarda". É verdade que Viena já há muito deixou de dar as cartas no ramo das artes, mas na virada do século XIX para o século XX a cidade tornou-se palco da "Secessão", um movimento iniciado na Alemanha (Munique e Berlim) e, em seguida, estabelecido em Viena (1898) por um grupo de artistas liderados por Gustav Klimt, onde se propagou em resposta aos padrões acadêmicos e conservadores predominantes na época. 
No mesmo período, também floresceu na cidade a chamada "Segunda Escola de Viena", movimento musical integrado por um grupo de compositores "modernistas" (Arnold Schoenberg, Alban Berg, Anton Webern etc.), que se caracterizou pelo emprego do atonalismo e do dodecafonismo na música, linguagens até hoje apreciadas apenas por parcelas reduzidas de melômanos. Após 100 anos, linguagens musicais ainda de vanguarda ou definitivamente "sepultadas"? 
O fato é que Viena, uma cidade que parece sempre voltada para seu passado glorioso como capital de um império e da música clássica, já teve também seus dias (ou anos) de vanguarda nas artes, apontando novos caminhos e inspirando movimentos artísticos e musicais. Hoje, quem caminha pelas ruas centenárias da cidade ainda percebe no ar um certo orgulho pelo passado imperial e rica herança cultural, refletidos nos monumentos que dominam seu centro histórico. 
 Se os artistas de vanguarda de nossos dias já não se inspiram no que acontece em Viena, ao menos não podem ignorar tudo o que a capital austríaca representa para a arte ocidental.


"Espanha Vista de Cima" e irresistível!

Excluindo o desnecessário tom "épico" da música, trata-se de um filme indispensável para explorar e conhecer toda a beleza da Espanha. 
Como já disse algumas vezes, nenhum país europeu aproveitou tão bem os recursos recebidos ao passar a integrar a União Europeia como a Espanha. O país pobre e eminentemente agrário que atravessou boa parte do século XX ficou (espero) definitivamente para trás. Tive a rara e rica oportunidade histórica de acompanhar atentamente os acontecimentos na Espanha desde a primeira visita que fiz ao país, em 1995, para conhecer os primos de Barcelona. Nesse período, a Espanha experimentou uma fase de crescimento econômico invejável e sem precedentes em sua história recente. Esse enriquecimento, decorrente, em grande parte, do ingresso do país na União Europeia, em 1986, beneficiou a maioria da população, propiciando fortes investimentos sociais (saúde, educação, infraestrutura etc.) e uma melhor distribuição da riqueza nacional. Tudo que vi, li e ouvi em todos esses anos me leva a acreditar que a Espanha viveu até a crise econômica de 2008 sua verdadeira "Belle Epoque". Foram anos consecutivos de prosperidade que mudaram o perfil do país, aumentando a qualidade de vida da população e atraindo legiões cada vez maiores de imigrantes, na maioria latinos e africanos, em busca de melhores oportunidades. 
Talvez o país ainda não tenha se recuperado totalmente, a exemplo de muitos outros, da crise de 2008, mas lançou até ali os sólidos alicerces que lhe permitem superar desafios e seguir em frente integrando o seleto grupo de países mais ricos e estáveis do continente. Esse belíssimo filme não me deixa mentir e oferece o mais justo testemunho de tudo isso! 
Quando me lembro do rico legado da Olimpíada de Barcelona, em 1992, o maior já proporcionado a uma cidade na história dos Jogos Olímpicos da era moderna, fico com uma pontinha de inveja e também uma enorme vergonha ao constatar nosso fracasso com os JO do Rio. Mas essa é uma outra história.



segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Terrence Malick e o papel de cada um de nós

"Uma Vida Oculta" (2019) é mais um belíssimo filme de Terrence Malick, esse baseado em eventos reais. O autor nos coloca na pele de um fazendeiro austríaco que se recusa a jurar lealdade a Hitler durante a II Guerra. Casado e pai de duas meninas, o personagem sofre pressão de todos os lados (à exceção da jovem e corajosa esposa), especialmente da cunhada, de amigos e do próprio bispo local, para assinar o juramento, mas, por profundas convicções religiosas e morais, se recusa terminantemente a fazê-lo, sob o risco até de ser executado.
Os que o amavam lhe pediam apenas o "razoável" para salvar a própria vida, assinar um mero papel e esquecer tudo, mas o que parecia tão simples para eles lhe era totalmente inaceitável, intolerável. Uma verdadeira infâmia!!
É um filme que sugere uma profunda reflexão a respeito da vulnerabilidade humana, das condições físicas e morais às quais estamos submetidos nas relações de poder e do que cada um de nós faz ou deixar de fazer para o bem ou para o mal prosperar. 
Ouso afirmar, ainda, que Malick reitera em seus filmes a importância da fé, da integridade, do afeto e, em última instância, do AMOR em nossa jornada nesse mundo.
Homem de profunda fé cristã, o cineasta dedicou sua vida e sua arte a prestar contas com Deus! E nos inspira a fazer o mesmo!



terça-feira, 3 de novembro de 2020

Perdido em Salzburg

Na primeira vez que visitei Salzburg, na Áustria, em maio de 1995, cheguei à noite e mal pude observar a cidade. No dia seguinte, bem cedinho, saí da casa da Susie, amiga que me hospedava, peguei um ônibus indicado por ela e fui até o centro histórico para conhecer a célebre cidade de Mozart e que serviu de locação para o filme "A Noviça Rebelde". Era um raro domingo de sol naquele período do ano (segundo ela) e muitos turistas já tomavam conta das praças e dos bares. Até as missas nas igrejas estavam lotadas de fiéis (e curiosos). Eu mesmo entrei numa igreja ao ouvir vozes infantis cantando algo familiar. Não era uma gravação! Era um coro infantil "in loco" executando uma das várias missas compostas por Mozart. Dá para imaginar esse cartão de visitas?
Após essa bela recepção, prossegui explorando a cidade. Identifiquei locações do filme, visitei a casa natal de Mozart (agora, um museu) e percebi que tudo em Salzburg gira em torno de seu filho mais famoso e do filme que tornou a cidade conhecida no mundo inteiro. 
À tardinha, ao pegar o ônibus para retornar à casa da minha amiga é que me dei conta de que talvez não soubesse o ponto exato em que deveria saltar, já que havia chegado na casa dela à noite. Literalmente "marinheiro de primeira viagem", não apurei isso antes de me despedir de manhã. Ela só me disse o número do ônibus que deveria pegar (o mesmo, na ida e na volta), e lá fui eu para a cidade como uma criança no parque de diversões ansiosa para experimentar os brinquedos.
Devidamente acomodado no ônibus, inexperiente, confesso que quase entrei em pânico. Nem poderia perguntar ao motorista, já que eu mesmo não sabia o nome de nada. Perguntar qual o ponto de ônibus da casa da Susie? Era só o que eu sabia. Levado a Salzburg pela amiga alemã, não perguntei nada durante a viagem de trem desde Munique. Saltamos na estação principal (hauptbahnhof), pegamos um ônibus e só então chegamos à casa da amiga austríaca. E isso à noite!! Como eu poderia saber o ponto exato para saltar na volta do centro histórico? 
Essa aflição durou todo o percurso. Sabia que era perto e passei a viagem inteira tentando identificar uma paisagem ou uma edificação "familiar". Só me lembrava que a casa ficava no meio de uma curva bem fechada, quase formando um semicírculo (foto). Foi justamente essa lembrança que me salvou, e também o tempo percorrido, que calculei mentalmente. Quando o ônibus entrou na curva, fiz o sinal e saltei no ponto seguinte! Graças a Deus, era o local certo!
Aprendi ali a registrar quase tudo por escrito e não ficar dependendo de outras pessoas. Mas é claro que isso não evitou contratempos em outras viagens. Na verdade, a cada viagem, uma emoção, uma experiência e uma lição diferente, e esse é o grande barato de sair pelo mundo!!



sábado, 31 de outubro de 2020

Adoração ao ídolo!

A cidade de Bayreuth, no norte da Baviera/Alemanha, tem lugar cativo e nobre na história da música. Lá foi erguido o Teatro do Festival de Bayreuth (Bayreuth Festspielhaus), com capacidade para 2000 pessoas, concebido por Richard Wagner (1813-1883) para a montagem de seu ciclo monumental de óperas. A obra, inaugurada em 1876, teve supervisão do próprio compositor e contou com um projeto arquitetônico revolucionário, incluindo a construção de um fosso coberto para a orquestra que torna os músicos invisíveis para o público. Embora auxilie a imersão da plateia na história, trata-se de um recurso controverso porque dificulta o sincronismo entre músicos e intérpretes, um desafio enorme também para o regente.
Bayreuth é uma das mais belas e organizadas cidades que conheci em toda a Alemanha. Curiosamente, apesar de Bayreuth ter sofrido bastante com os bombardeios na II Guerra, não foi atingido seu mais famoso teatro, erguido para a execução de obras de um compositor antissemita e adorado por Hitler. Os aliados sabiam disso? 
O "Bayreuth Festspielhaus" é um verdadeiro templo de adoração a Wagner que atravessa gerações. Frequentado também pelas mais altas autoridades do país, o "Festival de Bayreuth" tem eventos anuais disputadíssimos que requerem compra de ingressos com antecedência de anos. Dei sorte porque no dia da minha visita não havia espetáculo e pude, pelo menos, fazer um tour pelo interior do teatro, com direito a assistir a um vídeo sobre sua construção.
Foi uma tarde agradável e inesquecível. Dali eu iria para Leipzig, outra cidade icônica do universo musical, onde Johann Sebastian Bach se consagrou como organista e compositor. Mas essa é uma outra história!



sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Primeira parada: "Vettelheim"!

Heppenheim (ou "Vettelheim", como dizem os locais em homenagem a Sebastian Vettel) é a bela cidadezinha natal do piloto de F1. Visito Heppenheim sempre que vou à Alemanha, que fica no caminho de Frankfurt, onde desembarco e meus amigos me apanham, para Heidelberg, cidade onde moram. Chova ou faça sol, é parada obrigatória para tomar as primeiras rodadas de cerveja no país. 
Em seguida, paramos na estrada, sempre no mesmo ponto, para comprar frutas vermelhas, em especial morangos, cerejas e amoras, típicas da região. Até a vendedora, uma senhora simpática, parece ser sempre a mesma. Doces lembranças...
Esse programa já se tornou tradição em minhas visitas à Alemanha nos últimos 25 anos.



Visita obrigatória

"Hochstein Musikhaus", fundada há 157 anos, é a única (ou maior) loja especializada em música de Heidelberg, Alemanha. Vende instrumentos musicais, partituras, cds, dvds e blu-rays exclusivamente de obras clássicas, incluindo sinfonias, concertos e óperas.
Encomendei lá a caixa de cds/blu-rays com o ciclo completo de sinfonias de Sibelius lançado pela gravadora da própria Filarmônica de Berlim. Fizeram o pedido em Berlim e me entregaram antes do meu retorno ao Brasil. A melhor compra da viagem!
A visita à simpática loja é obrigatória! Fica na Bergheimer Strasse, pertinho da Bismarckplatz, praça central da cidade e entrada do belo e preservado centro histórico.
Mais um motivo para me sentir em casa em Heidelberg. Na verdade, aqui mesmo no Brasil, são raríssimas as lojas com tamanha variedade de itens de música!



quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Doces recordações

Quando viajo com os amigos da Alemanha de carro ou de trem pela Europa, já se tornou "tradição" a realização de refeições rápidas ao longo do percurso. São "piqueniques" improvisados nas estradas ou mesmo a bordo dos trens. 
Antes do "embarque", passamos em algum supermercado ou padaria e compramos queijos, pães, frios, chocolates, água, vinho e guardanapo. Dessa forma, economizamos tempo e dinheiro durante o dia e deixamos para fazer a refeição principal à noite, nos restaurantes.
Já fizemos piqueniques em todos os locais imagináveis (e improváveis!) de vários países. Na estrada, no trem, na porta de museus, igrejas e palácios, e até na fila para um concerto de verão no Museu D'Orsay e em frente à Notre Dame de Paris.
Esses momentos, por seu improviso, informalidade e descontração, acabam se tornando os mais divertidos das viagens.


quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Toledo: história milenar, três religiões e lar de El Greco

Lembranças de minha primeira visita a Toledo, Espanha, em agosto de 1996. 
A cidade, consagrada como "Patrimônio Mundial da Unesco", conta com uma bela e conservada herança cultural de séculos de ocupação cristã, muçulmana e judaica. Uma convivência religiosa que nem sempre se mostrou pacífica ao longo dos séculos. 
A visita ao centro histórico (ou "casco viejo") se constitui numa verdadeira viagem no tempo. Casarios seculares em ruas estreitas, que preservam o aspecto medieval da cidade, podem representar um enorme desafio para os visitantes desprevenidos (ou fora de forma), mas a recompensa é garantida com a visita a museus, lojas de artesanatos e bijuterias em ouro e prata e, principalmente, à monumental Catedral Gótica, datada do século XIII, com seu magnífico altar em estilo barroco e quase todo "banhado" a ouro.
Mas, para mim, Toledo se torna especial por ter sido lar de El Greco, um dos pintores que mais aprecio na história da arte. Ali, El Greco passou os últimos 37 anos de vida, realizando a maioria das obras de seu período de maturidade artística.
Por estar próxima de Madri, um pouco mais de meia hora de trem, Toledo é uma visita obrigatória para turistas interessados em arte e história medieval.



sábado, 17 de outubro de 2020

Mannheim, passado e presente!

Mannheim, cidade próxima a Heidelberg, foi bombardeada e praticamente destruída durante a II Guerra. Pouca coisa ficou de pé e seu palácio, que agora abriga a universidade local, não foi exceção. A reconstrução no pós-guerra durou de 1947 a 2007 e recuperou o esplendor do estilo barroco da edificação.
Como se trata de um palácio que serviu de residência imperial, os cômodos habitados no passado pelos membros da corte funcionam atualmente como salas de aula, laboratórios e demais instalações da universidade, uma das mais prestigiadas da Alemanha. Ao lado da entrada de cada sala, existe um pequeno quadro indicando a função original do aposento, que pode ter sido o quarto de dormir do príncipe, o quarto de vestir da princesa ou mesmo a sala de jantar da família real. É tudo muito organizado, com o propósito evidente de preservar o patrimônio histórico, artístico e cultural da cidade, embora as instalações sejam intensamente frequentadas por milhares de universitários que ali estudam a cada período letivo.
A cidade também foi sede, no século XVIII, da chamada "Escola de Mannheim", que introduziu novas técnicas de orquestração, influenciando compositores da época, dentre eles, Joseph Haydn e o próprio Mozart, que viveu ali por quase 5 meses. Por muito tempo, Mannheim se estabeleceu como um dos mais importantes centros artísticos e intelectuais da Europa. Não desfruta do mesmo prestígio hoje, mas, do ponto de vista econômico, continua sendo uma cidade de referência na região.






Nostalgia imperial

Em 2017, aproveitei a estada em Viena por duas semanas para visitar Budapeste, que fica a apenas 243 km de distância, uma viagem rápida de trem apreciando a bela paisagem da região.
Por sua arquitetura monumental, a capital húngara mantém uma certa elegância herdada dos tempos do Império Austro-Húngaro, dissolvido com o fim da primeira grande guerra. E décadas de socialismo só fizeram acelerar esse processo de "desbotamento" do brilho artístico e cultural da cidade. Mas ainda é uma bela cidade, certamente saudosa de seus melhores dias no passado. 
E também segura. Quando voltei à noite para o hotel, por volta das 22h, as ruas ainda estavam apinhadas de gente, incluindo famílias com crianças e idosos. Ninguém aparentava qualquer preocupação com segurança. Apesar de surpreso, nem eu!!