domingo, 6 de maio de 2018

Quem se importa?

Acabo de assistir ao filme "Bem-vindo", produção francesa de 2009, que aborda a séria questão da imigração e da xenofobia na França. Dentre outros temas relevantes, como a amizade sincera entre pessoas de diferentes culturas e o resgate do afeto num homem em crise conjugal, o filme faz uma denúncia contundente sobre os maus tratos dispensados pelos franceses (não todos, é claro!) aos imigrantes. Embora a produção seja de 2009, não creio que as coisas tenham melhorado por lá. Pelo contrário, com a crise migratória dos últimos anos, certamente pioraram. O fato é que os movimentos migratórios são tão antigos quanto a humanidade e, enquanto houver guerras, pobreza e desigualdade no mundo, haverá pessoas atravessando fronteiras em busca de uma vida melhor!
Um filme oportuno, belo e comovente! 
A propósito, e para concluir, em que medida cada um de nós se importa realmente com a vida de quem nos parece tão distante e diferente?





Obra-prima imaginária!

Acredito que, para os fãs de Stanley Kubrick, o melhor filme do diretor talvez seja justamente aquele que ele não fez. O argumento que criou para "A.I. - Inteligência Artificial" é realmente brilhante e poderia mesmo transformar o filme numa obra-prima incontestável, um verdadeiro marco na filmografia do cineasta e na própria história do cinema. Mas ele faleceu e ficou por conta de Steven Spielberg, o "Peter-Pan" do cinema, levar adiante o projeto. O resultado final, controverso e excessivamente sentimental, frustrou expectativas de meio mundo e acabou por gerar nos fãs de Kubrick uma espécie de idealização daquilo que o cineasta poderia ter realizado no lugar de Spielberg. Uma obra-prima imaginária e por isso mesmo perfeita!


"Babylon Berlin" e os "Anos Loucos" de Paris

Muito se fala dos "Anos Loucos" de Paris na década de 1920, mas loucura mesmo foi viver em Berlim naqueles mesmos anos, período em que os alemães estiveram sob o domínio da chamada "República de Weimar". Nem mesmo na década de 1960, época do surgimento da contracultura, dos hippies, da proliferação das drogas e da liberação sexual, jovens e adultos ocidentais desfrutaram de tanta liberdade como os moradores endinheirados de Berlim nos "selvagens" e hedonistas anos 20 do século passado. O curioso é que, hoje, poucos conhecem a história desses "Anos Dourados" da capital alemã. Até mesmo os próprios alemães das novas gerações.
"Babylon Berlin", a nova série de TV alemã, promete contar tudo com riqueza de detalhes e bela reconstituição de época. Tomara que algum canal por assinatura (ou Netflix) no Brasil adquira os direitos de transmissão. É imperdível!


Prazer em miniatura

Não sei como as pessoas conseguem, hoje, assistir a filmes e ouvir músicas em smartphones com telinhas "minúsculas" e som "chapado".
Sou da geração que aprendeu a curtir filmes em cinemas de rua, com telões enormes. Ir ao cinema, aliás, era um verdadeiro evento social e cultural. Com o fim desses generosos (e saudosos) espaços destinados à setima arte, acabei migrando para as telas menores das múltiplas salas de shopping e até para a tv. Mas não dá pra me render a essas maquininhas de "mil e uma utilidades". Aí já é demais! Como podemos apreciar figurinos, cenários, fotografia etc. nessas telinhas de 5 ou 6 polegadas? Impossível!!
O mesmo ocorre com a música. Minha geração se acostumou a ouvir música em equipamentos de grande porte, com elevada potência e fidelidade. Hoje, ouve-se música nessas máquinas que cabem no bolso e incapazes de reproduzir com fidelidade as nuances e os timbres específicos de cada instrumento. O que se ouve hoje em dia é algo parecido com música, mas bem mais próximo do ruído. 
Papo de velho? Talvez, mas só talvez!



sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A Unidade Espiritual do Mundo




"Mais vale viver em um sonho que honra a humanidade a contemporizar com uma realidade sufocante que nos envergonhamos de testemunhar...".

"Conservemos a convicção inquebrantável de que nosso mundo passará de catástrofe em catástrofe enquanto se negar a admitir a ideia de uma unidade espiritual".

"Por acaso a razão deve render-se à loucura? É uma ideia menos verdadeira porque, no momento atual, é irrealizável? Pelo contrário, o dever superior do intelectual é o de permanecer fiel às suas convicções, ainda que a realidade as desminta no momento...Admitamos, porém, que inclusive tenhamos nos equivocado e trabalhado em favor de uma quimera; pelo menos teremos vivido para a ilusão mais nobre que anima a face da Terra".

"Não são as línguas, as montanhas e os mares que separam as pessoas, mas seus preconceitos e sua desconfiança”.

Os trechos acima foram extraídos da palestra "A Unidade Espiritual do Mundo", proferida por Stefan Zweig (1881-1942), em 1936, no Rio de Janeiro, e em 1940, em Buenos Aires. O tema permanece atual e oportuno, já que a História, como sabemos todos, teima em se repetir quando a negligenciamos.
Nascido na Áustria, o escritor, dramaturgo e poeta judeu Stefan Zweig era um intelectual de profunda formação humanista. Um homem do seu tempo e de todos os tempos. 
Trata-se, aqui, de um singelo e despretensioso libelo contra a estupidez nacionalista que continua proliferando num mundo cada vez mais dominado por movimentos xenófobos, atentados terroristas, enfim, pela intolerância ou pela negação do "outro". Um mundo que ainda acredita em muros separando povos e culturas. Um mundo que insiste em repetir os erros do passado que levaram gerações inteiras à ruína e à desesperanca. Desesperança essa que vitimou o próprio escritor.
Desiludido com o avanço da intolerância e do totalitarismo num mundo em guerra, e saudoso de sua querida e distante Europa, Zweig, refugiado no Brasil, suicidou-se em Petrópolis, junto com a esposa, em pleno carnaval de 1942.
Seu legado, porém, não está nesse gesto trágico, mas sim em sua obra de inegável inspiração humanista. O texto é uma síntese do pensamento de um homem certamente muito à frente de seu tempo, um tempo de ignorância e trevas, um tempo que, por isso mesmo, não pode voltar!

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Beethoven e os quartetos de cordas definitivos



Nenhuma "verdade" composta por Beethoven até os "últimos quartetos de cordas", incluindo seus celebrados concertos e sinfonias, se aproxima da beleza crua, original e sem concessões oferecida pelo compositor com essas obras. Sabe-se lá quantos artistas em séculos da arte ocidental chegaram a deixar um legado tão pessoal, sincero e até visceral para as gerações futuras como Beethoven e seus cinco últimos quartetos.
Eu já tinha ouvido outras obras do gênero compostas por vários compositores, incluindo de Haydn, mas os 5 últimos de Beethoven, sem exagero, me fizeram rever conceitos arraigados que eu tinha em relação a esse tipo de composição e da própria música. Nada que eu tenha ouvido antes se compara a essas obras, um verdadeiro testamento artístico do compositor. Não tenho dúvida em afirmar que seus quartetos tardios figuram entre as expressões mais elevadas e eloquentes do espírito humano.
Eu, que sempre cultuei a memória de Beethoven, ressalte-se, muito mais o homem e suas contradições do que o próprio artista e sua obra, rendo-me definitivamente à sua genialidade musical, em particular pelo quarteto de cordas de número 131, uma obra que deveria constar da seleção de músicas reunidas pela NASA para lançar ao espaço como símbolos mais representativos do que de melhor produziu nossa civilização.

domingo, 21 de agosto de 2016

Jogos Olímpicos do Rio, um evento de contrastes numa cidade única


O que mais me impressionou nesses Jogos Olímpicos não foi nenhuma marca olímpica ou recorde batido. Nem mesmo Usain Bolt ou Michael Phelps, que encantaram o público por onde passaram. Foi a autenticidade do povo e da gente brasileira, expondo ao mundo, para o bem ou para o mal, nossas virtudes e também mazelas. Houve sim água verde (e suspeita) na piscina, problemas de infraestrutura na Vila Olímpica, filas intermináveis nos ginásios, assaltos a atletas e autoridades, vaias "inoportunas" e até prisão de nadadores americanos. Mas também tivemos uma belíssima cerimônia de abertura, o surgimento de novos heróis olímpicos (Isaquias Queiroz, Rafaela Silva, Martine Grael, Kahena Kunze, Thiago Braz etc.), a melhora no desempenho do país no quadro de medalhas e, principalmente, uma alegria contagiante nas ruas e praças de competição como talvez nunca tenha havido em outras edições do evento. Uma dose verdadeiramente olímpica de brasilidade que o mundo inteiro pôde testemunhar "in loco" ou a distância. E tudo isso com uma enorme transparência que somente uma democracia pujante e consolidada pode oferecer.
Salvo revelações bombásticas no futuro, considero o saldo do evento bastante positivo para o país. Gostem ou não (brasileiros e estrangeiros), é assim que nós somos, com defeitos e qualidades como qualquer povo, mas com uma mistura peculiar de etnias e culturas que nos torna únicos no mundo. E tenho muito orgulho de pertencer a tudo isso.


domingo, 17 de julho de 2016

Música clássica: O ocaso de uma indústria?


Com o advento do cd nos anos de 1980, a indústria fonográfica especializada em música erudita viveu sua era de ouro, despejando no mercado seus extensos catálogos de títulos clássicos já exaustivamente explorados com o vinil. O público consumidor, ávido por conhecer a nova tecnologia, tratou de substituir seus preciosos lps pelos tão decantados cds, com promessa de som puro e sem os indefectíveis chiados dos bolachões.
Por outro lado, novas gravadoras especializadas em música erudita surgiram da noite para o dia, enriquecendo executivos que mal sabiam distinguir entre "barroco", "clássico" e "romântico".
Foi uma época de fartura, e todos, produtores e consumidores, foram convidados para a festa. Com o auxílio de gravações digitais "perfeitas", surgiram novos intérpretes e regentes, que se tornaram, em pouco tempo, os queridinhos do público. A partir daí, nenhum amante da "boa música" deixou de formar sua própria coleção de cds. As gravadoras especializadas ganharam dinheiro como nunca e bons músicos de orquestra tiveram sua grande oportunidade, afinal, trabalho era o que não faltava.
Mas ainda estava por vir uma mudança que provocaria um "terremoto" na indústria fonográfica e na comercialização de obras musicais. Com a popularização da internet e a chegada do "streaming", além da velha pirataria, comprar mídias de música, especialmente erudita, se tornou um hábito cada vez mais raro, se restringindo a puristas e colecionadores, o que feriu de morte a indústria.
Com isso, gravar a milésima versão da mesma obra de Beethoven, de Mozart ou de Bach, mesmo com novos regentes e intérpretes, tornou-se uma aventura arriscada, considerando os altos custos de gravação e de comercialização dos produtos e o encolhimento do público consumidor para esse tipo de música. Mesmo nos melhores dias da indústria fonográfica, os amantes dos "clássicos" não eram em número suficiente para garantir vendas expressivas de lps ou cds. Essas gravações eram praticamente subsidiadas pelos, então, altos lucros proporcionados às gravadoras por artistas como Michael Jackson, Elton John, Madonna etc.
Hoje, no mundo inteiro, os lançamentos de cds clássicos são escassos (no Brasil, desapareceram), se limitando a concertos do maestro holandês André Rieu, de gosto duvidoso, e releituras dispensáveis de um repertório erudito já exaurido por plateias e consumidores de várias gerações, incluindo as sinfonias de compositores como Beethoven, Mozart, Brahms, Schubert e Mahler; as obras sacras de Mozart, Bach e Handel; e até uma versão reescrita (heresia?) por Max Richter das "Quatro Estações", de Vivaldi. 
Como a média de idade do público frequentador de concertos, no mundo inteiro, está em torno de 60 anos, a própria música clássica como produto cultural corre o risco de desaparecer. 
Numa tentativa de frear esse processo, a Filarmônica de Berlim, uma das orquestras mais prestigiadas do mundo, vem implementando, há alguns anos, um programa de transmissão ao vivo de concertos (Digital Concert Hall), pela internet, um esforço louvável e relativamente bem-sucedido, até agora, para formar novas gerações de públicos para a música clássica. Se esse é o caminho e se vai dar certo, só o tempo dirá.


domingo, 10 de julho de 2016

O prazer de receber bem


Uma das melhores e mais marcantes impressões que guardei da Copa de 2006, na Alemanha, foi a maneira gentil e atenciosa com que fui abordado por voluntários do evento e pelo povo alemão, em geral. Principalmente os mais jovens, sempre prontos para ajudar diante da menor demonstração de dúvida por parte dos turistas. Se parasse na rua ou no metrô, ou abrisse o mapa da cidade (mesmo longe do estádio!), em segundos era possível ouvir "can i help you?" e "are you lost?" vindo de todos os lados. Não posso negar que aquilo me marcou profundamente e contribuiu para que eu formasse um juízo bastante positivo dos alemães.
Salvo possíveis exceções que desconheço, a figura do voluntário sempre existiu nos lugares do mundo que já sediaram eventos como Copa do Mundo e Olimpíada. São cidadãos das cidades-sede, do próprio país e até do exterior que se dispõem a realizar esse trabalho, gratuitamente, apenas pelo prazer de participar do evento e de ajudar os visitantes nos transportes públicos, no acesso aos ginásios etc.
Quero, portanto, render minhas homenagens aos milhares de voluntários (cariocas, brasileiros e até estrangeiros!) que atuarão nos JO do Rio, sem remuneração, mas cheios de satisfação e orgulho por representar nossa cidade e nosso país no maior evento esportivo do mundo. Não tenham dúvidas de que eles defenderão a boa imagem do Rio e o Brasil tanto quanto cada um dos atletas brasileiros envolvidos nas competições.
No entanto, quase todos os conhecidos com os quais converso sobre o assunto afirmam que não fariam isso de jeito nenhum, muitos deles alegando que não trabalhariam "de graça" para o governo. 
Por esse raciocínio, os voluntários dos eventos já realizados em outros países teriam sido todos ingênuos ou "otários de carteirinha", como se referiu um dos amigos.
Gostemos ou não da ideia, o fato é que uma Olimpíada não é um evento do governo e sim da nação inteira. Quem se candidatou para sediar essa festa esportiva de âmbito internacional foi a sociedade brasileira, por meio de seus legítimos representantes. Além disso, é a imagem do país que está em jogo durante o período das competições, e não de partidos ou de governos de plantão. Se isso não é relevante, juro que não sei mais (ou nunca soube) o que é!


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Um estranho caso de amor à música

Tenho uma coleção de aprox. 600 cds de trilhas sonoras de filmes dos mais variados gêneros, e poucas vezes ouvi algum deles lembrando (ou para lembrar) da história que vi no cinema ou na TV. Para ser sincero, a metade do acervo é composta por músicas de filmes que eu nem mesmo assisti! Como conheço bem o estilo dos compositores e as emoções típicas de cada gênero cinematográfico, esses são os parâmetros que utilizo para decidir pela compra dos cds. O fato é que a cada audição imagino uma trama (ou cena) quase sempre distinta do roteiro original que inspirou o compositor. Estranho? Talvez, mas é a mais pura verdade. 
O que me encanta nos scores está relacionado com a linguagem musical empregada para transmitir as diferentes emoções contidas nas narrativas, de acordo com os respectivos gêneros cinematográficos (ação, comédia, drama, suspense etc). Por isso, costumo dizer que gosto mais de música de filmes do que propriamente de filmes. Bem, é quase isso.
Dentre os poucos cds que ouço em casa lembrando especificamente da história do filme está o da trilha sonora de "A Aventura de Pi", composta por Mychael Danna. Mais precisamente a faixa "God Storm", correspondente à cena da tempestade em alto-mar. Não há como ouvir a música sem associá-la às imagens da situação-limite enfrentada pelo personagem. A própria cena se constitui num dos momentos mais emocionantes do filme. E a música de Mychael Danna está à altura!




sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Maracanã, 1950 - A maior lição do esporte.


"Maracanã - O Filme", uma coprodução Brasil/Uruguai de 2014, é o melhor documentário que já vi sobre a Copa de 1950. Imagens raras do Rio (restauradas em alta definição), desde a zona sul, passando pelo centro, até o entorno do Maracanã, acompanhadas de discursos infelizes de autoridades e matérias "idem" da imprensa brasileira, conferem à produção uma qualidade única e, me atrevo a dizer, antológica. Tudo lindo e ao mesmo tempo patético. Para mim, o futebol perdia ali sua inocência. O triste (para nós) episódio daquela tarde de 16 de julho de 1950 se configura, certamente, na maior lição de humildade (e de prudência!) proporcionada pelo esporte, e não só pelo futebol, em todos os tempos. Por isso mesmo, o filme deveria ser exibido em escolas e centros de formação de atletas de todas as modalidades esportivas. Com o belo documentário, é possível ver que no esporte, e na própria vida, sejam quais forem as circunstâncias, a vitória ou a derrota começa na mente e no coração de cada um de nós. 



sábado, 14 de novembro de 2015

"Nós sempre teremos Paris!"


Arco do Triunfo do Carrossel, em frente ao Museu do Louvre

"Descobri" a capital francesa exatamente há 20 anos, por ocasião de minha primeira viagem à Europa. Surpreendentemente (ou estupidamente), não incluí a França em meu roteiro inicial, que continha Portugal, Espanha, Alemanha e Áustria. Em meus passeios por Barcelona, onde estava para conhecer os primos espanhóis, fiz amizade com turistas que iam para Paris no mesmo dia em que eu embarcaria para Stuttgart, na Alemanha. Incentivado por eles, resolvi mudar o roteiro e dar uma "paradinha" na capital francesa, embora, curiosamente, nunca tivesse tido muito interesse pela cidade. O fato é que ao chegar a Paris foi paixão à primeira vista. Fiquei deslumbrado com a amplidão e o aspecto monumental da cidade, fora tudo aquilo que sabemos desde criança, notadamente a grande oferta de atrações artísticas e culturais de uma metrópole que já foi considerada a capital do mundo. Amei tudo que vi e vivi no curto período em que permaneci por lá, aprox. 4 dias, e voltei outras vezes, na companhia de amigos e parentes. E espero ter a chance de visitar a cidade de novo, afinal, como dizia apropriadamente Hemingway, "Paris é uma festa!". Foi, é e sempre será!!
Apesar dos atentados recentes ocorridos na capital francesa, em especial o de ontem, que vitimou mais de uma centena de pessoas, espero que os parisienses continuem firmes na defesa da liberdade, da democracia e da tolerância, valores que compartilham com todo o mundo ocidental, e que se constituem em alicerces de qualquer sociedade civilizada, ainda que imperfeita como toda criação humana.

Entrada da "Shakespeare and Company", livraria tradicional de Paris


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O legado de Abbado



Cláudio Abbado, falecido em janeiro de 2014, vítima de câncer, foi um maestro com um profundo senso de humanidade. Em sua extensa carreira, levou a música clássica a operários e estudantes, a penitenciárias e hospitais, por considerar que "a educação musical é, na realidade, a educação do homem". 
Ao ser nomeado senador vitalício pelo parlamento italiano, em agosto de 2013, Abbado decidiu destinar o salário à escola de música da pequena cidade de Fiesole, numa clara demonstração, entre tantas outras ao longo da vida, de sua paixão pela música e de sua fé no poder dessa arte para a formação do caráter humano.
A gravação abaixo, de 2007, já se tornou antológica. Nela, Abbado conduz a Orquestra do Festival de Lucerna, integrada por alguns dos melhores solistas europeus, na execução da 3ª Sinfonia de Gustav Mahler, uma das obras mais célebres do repertório clássico. Uma preciosidade que funciona como um prematuro e autêntico testamento artístico de um dos mais prestigiados regentes dos últimos 50 anos.
Cabe registrar que, finalmente, comprei o blu-ray com o concerto, no site da Saraiva, surpreendentemente a um preço mais baixo do que encontraria em qualquer loja dos EUA. Como é o tipo de produto que vende pouco, devia estar "encalhado". Sorte a minha!


sábado, 5 de setembro de 2015

Eu sou neto de imigrantes!


Essa crise migratória que afeta gravemente a Europa nos últimos dias me sensibiliza particularmente. Sou neto de imigrantes europeus (Portugal e Espanha), que chegaram ao Brasil, até onde eu sei, pobres e em busca de melhores oportunidades na vida. Embora o contexto fosse outro, já que não eram refugiados de guerra, eles vieram de países pobres do continente, especialmente minha saudosa avó Evangelina, procedente da Galícia, até hoje uma das regiões mais carentes da Espanha. Não tenho detalhes de como ela chegou até aqui, mas duvido muito que tenha vindo de 1ª classe e com fartos recursos. Sua história certamente não difere muito da trajetória de tantos imigrantes que, ao longo do século XX, atravessaram países e fronteiras na tentativa legítima de conquistar uma vida melhor, para si e para os familiares. 
Por tudo isso, me solidarizo com os refugiados na Europa, muitos acompanhados de crianças pequenas e até bebês, principalmente com aqueles procedentes de regiões em conflito, como Síria, Afeganistão e Iraque, que não tinham mesmo outra alternativa, a não ser fugir. Espero que encontrem generosidade e compreensão em sua difícil jornada por terras estrangeiras, em busca da sobrevivência e da felicidade, este último um artigo cada vez mais raro no mundo louco em que vivemos.
Finalmente, é preciso ressaltar que apenas fechar fronteiras e reprimir a imigração ilegal, como alguns países do leste europeu vêm fazendo, é o mesmo que enxugar gelo. A solução, a médio e longo prazo, passa por iniciativas que promovam a estabilidade política e o desenvolvimento econômico e social nas regiões de origem dessas legiões de imigrantes. É a alternativa mais sustentável, ainda que de implementação complexa e demorada, para minimizar essa tragédia humanitária que já matou milhares de pessoas nos últimos anos.

Milhares de imigrantes decidem ir a pé de Budapeste (Hungria) até a fronteira com a Áustria

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Mahler e as sinfonias que comportam o mundo



Mahler dizia que "uma sinfonia deve ser como o mundo; precisa conter tudo". De fato, suas sinfonias parecem revelar tudo (ou muito) a respeito do que realmente nos afeta e importa nessa vida. Mas é preciso, no mínimo, bastante perseverança para "decifrá-las". Para compreender, por exemplo, a terceira sinfonia em toda (?) a sua dimensão, precisei ouvi-la várias vezes antes de me dar conta da extensão dos significados contidos na obra, com a qual o compositor explora brilhantemente, e, admito, com alguma retórica, grande parte dos sentimentos que envolvem nossa experiência de vida. Não creio mesmo que haja algo à altura no amplo repertório de sinfonias disponível.
Aliás, estou convencido de que a civilização ocidental não produziu arte mais extraordinária e reveladora do espírito humano do que as sinfonias compostas pelos grandes mestres. Nem mesmo as maiores maravilhas criadas pelo homem no mundo ousaram transmitir com tamanha eloquência nossas contradições e sentimentos mais profundos.


domingo, 21 de junho de 2015

Viagens e o prazer de flanar!



Uma das coisas que mais aprecio em viagens é poder flanar (andar ociosamente e sem destino) por cidades desconhecidas, encontrando em cada rua, em cada esquina, algo que me surpreenda ou estimule, sem me dar conta do tempo e da distância. Pode ser uma construção de arquitetura singular, uma taberna com ares medievais, uma singela moradia com crianças brincando na calçada, um sebo de artigos raros e esquecidos pelo tempo, ou mesmo uma pequena livraria familiar daquelas que foram desaparecendo com o surgimento das megastores e seus indefectíveis best-sellers. Simplesmente, um raro prazer que a rotina e a mesmice nos roubam a cada dia.





A infantilização do cinema



Assisti a "Jurassic World" (no cinema) e "Planeta dos Macacos: O Confronto" (na TV). Um argumento fraco no primeiro e um roteiro óbvio e maniqueísta no segundo comprometem seriamente as produções.
Se por um lado Hollywood perdeu a capacidade de transformar argumentos tolos em boas histórias, por outro, revela uma crescente inabilidade para produzir roteiros à altura de argumentos criativos.
Ou a indústria perdeu o jeito pra coisa, ou então sabe que o público atual deseja justamente consumir esse tipo de cinema, infantilizado e superficial.
Seja como for, tô fora!


quinta-feira, 28 de maio de 2015

Bruckner e a última gravação de Karajan



O cd acima contém a 7ª sinfonia de Bruckner com a Orquestra Filarmônica de Viena, última gravação do polêmico Herbert von Karajan, realizada três meses antes de morrer, em abril de 1989. Curiosamente, o resultado é a antítese de tudo que o maestro professou ao longo da extensa carreira. Se Karajan sempre se caracterizou pela busca incessante da perfeição nas performances das orquestras que dirigiu, aqui, já aos 81 anos e bastante enfermo, deixou de lado essa obsessão pelos detalhes e deixou correr uma execução por vezes irregular, mas permeada de sensibilidade e, por que não dizer, humanidade. Será que o grande mestre austríaco precisou envelhecer e flertar com a morte para descobrir a verdadeira natureza humana, repleta de beleza, mas também de imperfeições?
Cabe destacar que o adágio da sinfonia (vídeo abaixo), escrito sob forte emoção e tristeza, por conta da morte de Wagner, ídolo maior de Bruckner, é uma das mais belas passagens do sinfonismo, não só germânico, mas de toda a música ocidental.

sábado, 23 de maio de 2015

Heidelberg, 20 anos depois!



Hoje, dia 23 de maio, faz exatamente 20 anos que fui a Heidelberg (Alemanha) pela primeira vez. A visita não estava programada em meu roteiro original da viagem (a primeira ao exterior), mas acabei indo lá a convite da Cristina, que se tornaria, ao longo dos anos, uma das minhas maiores amigas. 
Hospedado em Stuttgart, na casa da Almut, outra amiga da Alemanha, concordei em adiar meu retorno à casa da minha amiga brasileira Tânia, em Lisboa, justamente para visitar Cristina e seu companheiro Armin (que eu ainda não conhecia), com quem ela se casaria no mês seguinte. 
Cheguei em Heidelberg numa ensolarada manhã de primavera e aproveitamos o belo dia para passear. Fiquei encantado com tudo que vi e principalmente com a atmosfera que dominava cada cantinho da cidade, sede da mais antiga universidade alemã (1386) e, por isso mesmo, frequentada por jovens universitários das mais diversas origens e culturas. Castelo, pequenas livrarias, sebos com raridades (cds, dvds e livros) e bares/restaurantes/cervejarias centenários contribuíam para conferir a Heidelberg um charme que eu ainda não havia testemunhado em qualquer outra cidade visitada até então na Europa. 
O fato é que após 8 viagens a Heidelberg continuo amando tudo por lá. A cada visita é uma nova emoção, desfrutando de caminhadas por ruas com casarios centenários que mais parecem pequenos castelos, incursões por sebos repletos de "novidades" e lojinhas de antiguidades, e passeios em bondes coloridos e pontuais, dentre outras atrações típicas da cidade. Tudo isso na companhia de amigos com os quais já cruzei boa parte da Alemanha, da França, da Suíça e da Áustria, de carro e de trem, descobrindo aldeias históricas, cidades milenares e culturas distintas. 
É claro que a hospitalidade dos amigos Armin e Cristina, renovada a cada visita, torna tudo isso muito mais fácil, natural e prazeroso. Agradeço, portanto, aos dois pela gentileza, carinho e atenção com que me recebem a cada visita e por tudo de bom que essas experiências vêm representando pra mim nesses 20 anos. E que venham mais 20 anos, se Deus quiser!