terça-feira, 27 de dezembro de 2022

A música da minha vida!

Passei quase toda a minha vida (e lá se vão muitos anos!) ouvindo a música que se convencionou chamar de "clássica". Um gênero musical que, embora atravesse séculos, enfrenta um grande preconceito por quem a desconhece ou não compreende seu universo. Mas sou testemunha, depois de tantos anos, de que se trata de um tipo de música que reflete uma enorme gama das emoções que envolvem a experiência humana, independentemente de origem e cultura. Por isso mesmo, a essa altura da vida, estou convencido de que nenhuma outra manifestação artística ou cultural revela de maneira tão ampla, verdadeira e profunda o que anima o espírito humano como a música clássica. 
É uma pena que, por gerações, no Brasil e na maior parte do mundo, se estabeleceu o conceito de que música clássica ou "erudita" é para poucos. Um elitismo estúpido que priva a maioria das pessoas de uma experiência que pode estabelecer parâmetros éticos, estéticos e até filosóficos capazes de enriquecer a vida de todos nós. 
Sem pretensão ou preconceito com os demais gêneros musicais, é o que aprendi ouvindo música clássica a vida inteira. Creio, sinceramente, que isso me tornou uma pessoa melhor.

sábado, 3 de dezembro de 2022

A Espanha que conheci.


A Espanha passou os últimos dias às voltas com cartas-bomba enviadas a autoridades locais e órgãos estrangeiros. Ainda não se sabe a origem e a motivação desses atos terroristas, que remontam ao pesadelo que assolou o país por décadas com as ações do grupo separatista basco.
Considerando os alvos (embaixadas da Ucrânia e dos EUA, primeiro-ministro e ministro da Defesa espanhol), é bem provável que esses atentados estejam relacionados com a invasão da Ucrânia pela Rússia, um conflito que já se prolonga por 10 meses, com milhares de vítimas civis, entre mortos e refugiados.
Em relação à Espanha, visitei o país várias vezes desde 1995 e pude testemunhar a consolidação do processo democrático iniciado com a morte de Franco, em 1975. Nas viagens que fiz de ônibus entre Madrid ou Barcelona e a Galícia, percebi também o enriquecimento do país, que soube aplicar muito bem os "generosos" recursos proporcionados pela adesão à União Europeia, em 1986, o que deve ter deixado definitivamente para trás a Espanha pobre e majoritariamente agrária que atravessou boa parte do século XX.
Justamente nesse período, a Espanha experimentou uma fase de crescimento econômico invejável e sem precedentes em sua história recente, propiciando fortes investimentos sociais (saúde, educação, infraestrutura etc.) e uma melhor distribuição da riqueza nacional.
Tudo que vi, li e ouvi em conversas com os primos e na imprensa local, especialmente no jornal "El País", de Madrid, me leva a acreditar que a Espanha viveu até a crise econômica de 2008 sua verdadeira "Belle Époque". Foram anos consecutivos de prosperidade que mudaram o perfil do país, aumentando a qualidade de vida da população e atraindo legiões cada vez maiores de imigrantes, na maioria latinos e africanos, em busca de melhores oportunidades. Certamente, a Espanha lançou até ali os sólidos alicerces que lhe permitem superar desafios e seguir em frente integrando o seleto grupo de países mais ricos e "estáveis" do continente.
Por fim, vale dizer que, para mim, viagens têm um significado que vai muito além da mera "curiosidade turística" (monumentos, igrejas, museus, praças, compras etc). Sempre que visito outros países, a exemplo do que fiz na Espanha, aproveito a oportunidade para observar tudo, desde como as pessoas vivem, se relacionam e se organizam em sociedade (regras de convivência, comunicação, transportes etc.), até preferências culturais, tais como entretenimento, vestuário, alimentação etc.
Estou definitivamente convencido de que o conhecimento do "outro" e de sua visão do mundo é o investimento mais importante para a conquista da paz.

Um país peculiar!

 

É fácil (quando se tem dinheiro) atravessar o planeta para torcer pelo Brasil, uma seleção com real expectativa de sucesso em qualquer Copa do Mundo. Difícil é fazer isso, economizando o que pode e o que não pode, para torcer pelo País de Gales no distante Oriente Médio. Apesar disso, milhares de galeses foram até o Catar e proporcionaram alguns dos momentos mais comoventes da competição até agora.
Com a derrota para a rival Inglaterra, eles deram adeus à Copa do Mundo ainda na fase de grupos, mas a demonstração de carinho dos torcedores no final do jogo (uma enorme mancha vermelha na arquibancada), reconhecendo, apesar do insucesso, a "entrega" dos jogadores, e o agradecimento do time junto à torcida certamente produziram momentos emocionantes que já marcaram para sempre o evento.
O futebol e a Copa do Mundo em particular oferecem a oportunidade de testemunharmos episódios ricos de significados (dramas, alegrias etc.) e de empatia. Esse aspecto humano da competição, aliado à imprevisibilidade própria do futebol, é o que mais me atrai em Copas do Mundo. E foram justamente a trajetória do apenas esforçado time do País de Gales e sua numerosa e apaixonada torcida no Catar que despertaram minha curiosidade pelo país e por sua rica e milenar história, incluindo a longa rivalidade com a Inglaterra e a manutenção do idioma, dos costumes e das tradições locais, mesmo após mais de cinco séculos sob o "domínio" inglês, apesar de desfrutar hoje de alguma autonomia administrativa. Não é qualquer povo que resiste a tudo isso por tanto tempo sem perder a identidade e o orgulho de suas origens. Uma verdadeira lição de patriotismo!!

Viva até ser esquecido!

A mais bela animação do cinema em muitos anos, indicada também para adultos.
Nenhuma cultura ocidental lida com a morte de maneira mais poética do que a mexicana.
Verdadeiramente, só morremos quando o último vivo (ou encarnado) se esquece de nós.
Enquanto permanecemos na memória dos que ficam, quem somos ou fomos não deixa de existir. E o filme nos conta isso de maneira comovente e bem-humorada.


Belo e comovente, mas superficial.

Em 2009, Tornatore retomou a atmosfera romântica e bem-sucedida de "Cinema Paradiso", lançando a superprodução "Baaria - A Porta do Vento", supostamente uma continuação do filme anterior (para alguns, uma refilmagem).
A nova produção conta a história de três gerações de uma família também siciliana, traçando um painel da cena política italiana ao longo de 50 anos, com foco no romance entre os jovens Peppino e Mannina e na trajetória de vida do protagonista, desde a infância nos anos 30 até a maturidade, com a consolidação de sua carreira política no Partido Comunista.
Mas o aspecto social do filme, que contrasta com o clima intimista de "Cinema Paradiso", não é de todo resolvido. Quando a história parece evoluir para um aprofundamento do contexto político, o roteiro retorna às questões mais pessoais e afetivas do personagem, relegando a um plano secundário passagens relevantes da história contemporânea da Itália que contribuem para sua formação.
De todo modo, a criativa e comovente sequência final do filme absolve a produção de todos os seus possíveis pecados. Inesquecível!!


Se nada der certo, enlouqueça!

 

Um adolescente com ideias suicidas procura ajuda médica e acaba internado na ala de doentes mentais de um hospital público. Ali, em meio a pacientes crônicos e com os mais variados distúrbios, vai receber lições para o resto da vida!
Uma comédia diferente e muito divertida que conta com um roteiro enxuto e belas atuações.
O garoto protagonista, em particular, tem uma atuação impressionante. Parece viver mesmo aquela situação. E o diretor, percebendo isso, abusa dos "closes"!
Divertidíssimo!!

Um drama real e dilacerante!

O realismo com que esse filme trata a questão do vício em drogas é doloroso e quase insuportável, mas funciona para nos mostrar que essa tragédia pode se abater sobre qualquer um, inclusive aqueles que mais amamos.
O drama de um pai vendo o filho se lançar num precipício aparentemente sem volta é dilacerante!
E o jovem ator (Timothée Chalamet) tem uma atuação impecável. Intensa sem ser apelativa, num papel difícil de desempenhar com tão pouca idade.
A cena final diz tudo sem usar uma única palavra. Nem precisa!
Enfim, há muito tempo não assisto a um filme tão impactante.


Na terra de "los hermanos"!


Há exatos 15 anos, com dois amigos, eu visitava Buenos Aires, dando um tempo em minhas viagens para a Europa.
Buenos Aires talvez seja a capital latino-americana mais parecida com Paris, embora, hoje, esteja bem longe da cidade elegante de 100 anos atrás, quando a Argentina figurava entre os países mais ricos do mundo, a 9ª maior economia, à frente de Alemanha, Dinamarca e França.
Fomos muito bem-recebidos pela amiga argentina Silvina Gerardi , Silvina Gerardi , que gentilmente nos acompanhou em vários passeios e até nos levou para conhecer a simpática San Isidro, uma pequena cidade próxima de Buenos Aires, que tem uma atmosfera semelhante às cidades serranas do estado do Rio.
Em quase duas semanas, além de fazer muitas caminhadas, visitamos El Caminito, La Bombonera, Recoleta, Puerto Madero, Café Tortoni (show de tango), Livraria El Ateneo, Calle Florida, San Isidro, Delta do Tigre e o "Malba", museu onde tive a oportunidade de ver "Abaporu", a obra mais famosa da brasileira Tarsila do Amaral. Mas faltou conhecer a Feira de San Telmo e o Teatro Colón, que estava fechado para reformas. Fica para uma próxima vez!

Berlim, uma cidade entre o passado e o futuro.

Passeio de barco pelo rio Spree, em Berlim, com a moderníssima estação central (hauptbahnhof) ao fundo.
Conheci Berlim no verão de 2010. A capital alemã, ao lado de Amsterdam, é a cidade mais "vanguardista" que visitei em minhas viagens. Talvez por ter recomeçado praticamente do zero após ficar em ruínas com os bombardeios da II Guerra, a cidade se reinventa a cada dia sob a influência de levas crescentes de imigrantes e novos padrões/valores de convivência. O fato é que poucas cidades europeias celebram a diversidade cultural e humana como Berlim.
A cidade se encontra dividida entre as lembranças do passado sombrio e o otimismo por vezes contagiante que se revela em edifícios, ruas, praças e até bairros inteiros reconstruídos após a queda do muro, em novembro de 1989.
Em Berlim, praticamente a cada quarteirão percorrido, encontramos fortes referências (deliberadamente mantidas) aos trágicos acontecimentos do século XX, mas, talvez, nenhuma outra cidade europeia transmita maior confiança no futuro.
Se Paris celebra o passado, refletido na preservação da homogeneidade de seu próprio conjunto arquitetônico, Berlim, por circunstâncias históricas, se vê diante da necessidade de recriar quase tudo em busca de um futuro diferente que a redima de um passado triste e conturbado.


segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Viena e os estertores do império!

De tudo que já li, parece que os acontecimentos da virada do século XIX para o século XX na capital austríaca, período da "Secessão" e da 2a. Escola de Viena (música), rivaliza em importância artística e cultural para o ocidente com a "Belle Époque" de Paris, ocorrida mais ou menos no mesmo período.
O fato é que tenho uma curiosidade especial pela história de Viena, em especial desse período de efervescência artística e cultural, justamente entre o declínio do Império e o surgimento da República.
Poucos países na História Contemporânea passaram por transformações tão profundas em seus valores como a Áustria nos estertores do Império Austro-Húngaro, que acabaria levando à instauração da República após o fim da I Guerra, em 1918.
Particularmente na virada do século, a cidade de Viena seria palco privilegiado de movimentos culturais que influenciariam a arte ocidental por todo o século XX, em especial a chamada "Secessão Vienense", caracterizada pelo rompimento com os ditames da arte tradicional e conservadora, em favor de uma visão mais abrangente e universal das diferentes manifestações artísticas, notadamente a pintura, a escultura e a arquitetura.
Como diz o lema exibido no alto do "Edifício Secessão" (foto), símbolo do movimento em Viena, "para cada época, sua arte. Para cada arte, sua liberdade"!


Alemanha, uma viagem musical!

Cd triplo com a gravação do ciclo completo de concertos para órgão de Handel, obras que figuram entre as mais populares do compositor.
É só começar a ouvir para não parar mais. E pensar que Handel compôs tudo isso apenas para execução nos intervalos de seus célebres oratórios.
Em 2016, estive em Halle, sua cidade natal, depois de visitar Leipzig, onde viveu e se consagrou Bach, outro mestre do barroco, e Bayreuth, cidade que virou sinônimo de Wagner por sediar o teatro construído para a montagem das óperas do compositor.
Foi uma viagem temática por cidades e regiões alemãs onde viveram os maiores mestres da música, responsáveis por obras que atravessam séculos encantando gerações de músicos e diletantes.
Mais tarde, um ano depois, a visita foi a Viena, eterna capital da música e onde nasceram ou viveram outros grandes compositores como Mozart, Beethoven, Brahms, Bruckner, Schubert, Mahler e Johann Strauss (pai e filho).
A "cereja do bolo" na capital austríaca foi assistir a um concerto com a Filarmônica de Viena na tradicional KonzertHaus, a realização de um sonho acalentado desde a juventude.
Lembrar dessas viagens chega a ser "doloroso" com tudo que temos vivido nos últimos anos. Mas é preciso acreditar no futuro e em novas viagens e realizações.


Quando fama e riqueza não bastam!

 

O que leva um homem rico, brilhante e verdadeiramente querido por uma legião de fãs e amigos a tirar a própria vida? O documentário "Robin Williams: Entre na Minha Mente", exibido pela HBO, não tenta explicar isso, mas expõe detalhes reveladores da vida do ator, desde a infância até seu fim trágico (suicídio), em agosto de 2014. O que se sabe é que Williams era alcoólatra, sofria de Parkinson e, pouco antes de morrer, fora diagnosticado com demência.
A mente humana é realmente um grande e indecifrável mistério. Quando tudo parece conspirar a favor, algo pode fugir completamente ao nosso controle, dissolver certezas "inabaláveis" e fazer nosso mundinho ruir como um castelo de cartas. E não há dinheiro ou fama capaz de evitar isso. Só Deus!!
A ironia das ironias é que Robin Williams foi eleito pela revista "Entertainment Weekly", em 1997, "O Homem Vivo Mais Engraçado do Mundo". Em muitos casos, porém, passar o tempo todo fazendo os outros rirem pode ser uma tentativa desesperada de animar o próprio espírito, ou apenas uma fuga quando não se consegue lidar com seus próprios "fantasmas".
Alguns amigos relatam no documentário que ele sofria de baixa autoestima, mas eu suspeito que sua depressão crônica se devia ao fato de ter percebido que fama, sucesso e fortuna não lhe bastavam. Possivelmente deu-se conta logo cedo de que faltava-lhe algo maior, mais profundo e verdadeiro para que sua vida fizesse realmente algum sentido.

'Kullervo", uma sinfonia singular!

"Kullervo", sinfonia para solistas, coro e orquestra de Jean Sibelius (1865-1957), conta a história do destino trágico do guerreiro Kullervo, que, após seduzir uma jovem na floresta, se desespera ao saber que se tratava da própria irmã desaparecida desde criança.
A belíssima obra, concluída quando Sibelius tinha apenas 26 anos, foi recebida com entusiasmo em sua estreia em Helsinque, conferindo fama e prestígio ao jovem compositor com seu primeiro trabalho para vozes e grande orquestra.
Kullervo é uma obra singular. Infelizmente, por sua complexidade de execução (solistas, coro e orquestra), raramente integra os programas de concerto.
Embora o tratamento orquestral dado a Kullervo esteja aquém daquele que Sibelius revelaria nas obras da maturidade, o compositor, aos 26 anos, já demonstrava um enorme talento e surpreendente originalidade.
Essa gravação de 1992 com o (então) jovem finlandês Esa-Pekka Salonen à frente da Filarmônica de Los Angeles é ainda hoje considerada uma das melhores já realizadas da obra.


Zweig e Carpeaux, dois "refugiados" ilustres no Brasil

 

A exemplo de seu conterrâneo e contemporâneo Stefan Zweig (também de origem judaica), Otto Maria Carpeaux (1900-1978) deixou sua Áustria natal com a ascensão do nazismo na Europa, se estabelecendo no Brasil.
Do mesmo modo que Zweig, Carpeaux, com sua cultura universal e humanista, autor de uma extensa e antológica História da Literatura Ocidental em 10 volumes, se tornou um dos maiores intelectuais e pensadores de nosso país no século XX.
Esse livro, que comprei agora na livraria Leitura do Centro, relata os anos de formação do jovem Carpeaux numa Áustria em plena efervescência política e cultural, testemunhando os "estertores" do longevo império Austro-Húngaro e o nascimento da República.

São Paulo, uma síntese do Brasil!

Esse livro da coleção da Folha (Coleção Folha - Fotos Antigas do Brasil) revela a trajetória de crescimento de uma cidade que começou como uma pequena vila há pouco mais de 160 anos e se tornou, ao longo do tempo, na maior metrópole brasileira.
Abrigando imigrantes de todas as origens e etnias, São Paulo é a cidade que melhor traduz o processo de formação da diversidade do povo brasileiro. Sua história se confunde com a própria história do desenvolvimento do país.
O curioso é como São Paulo e Rio de Janeiro se complementam em suas características e potencialidades. Bairrismos à parte, são duas belas faces de uma mesma e rica moeda.
A despeito dos problemas que enfrentam, são as cidades brasileiras que refletem com maior fidelidade nossas riquezas e mazelas.


sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Los Niños de Murillo!!

Em 2003, na véspera de embarcar em Madrid para a Galícia, e depois de me encantar com as obras de (Bartolomé Esteban) Murillo (1617-1682) expostas no Museu do Prado, fui ao "El Corte Inglés" e à "Casa del Libro" para comprar um livro sobre o artista. Não encontrei e nenhum vendedor sabia nem quem era (ou foi) Murillo. Saí de mãos vazias e frustrado.
Já na Galícia, comentei com um dos primos a respeito da visita ao Prado e da dificuldade de encontrar em Madrid um livro sobre Murillo, um dos maiores mestres do "Século de Ouro" (XVII) da pintura espanhola.
Quando retornei a Madrid, e antes do embarque para o Rio, voltei ao Prado para tentar encontrar no próprio museu um livro sobre Murillo, o que não fiz na primeira vez por esquecimento.
E estava ali, escondidinho entre livros de Velasquez, Goya e El Greco na loja do Museu, justamente o livro que eu queria, com obras de Murillo retratando o cotidiano das crianças pobres e de rua de Sevilha (Niños de Murillo) no século XVII, cenas que nos comovem até hoje e que, infelizmente, ainda se repetem há séculos no mundo inteiro!



segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Tributo a um ídolo!


No aniversário de 10 anos de morte do saudoso Félix, ex-goleiro do Fluminense e da seleção brasileira (1970), segue o relato de um episódio envolvendo o inesquecível ídolo tricolor que testemunhei em visita à cidade de Heidelberg, na Alemanha, em junho de 2010.
Cabe registrar que, felizmente, no final de 2011, tive a oportunidade de transmitir ao próprio Félix (e à filha dele, Patrícia), por telefone e e-mail, esse mesmo relato. Estou convencido de que proporcionei ao Félix a alegria de saber que, passados mais de 30 anos, alguém tão distante ainda se lembrava dele com tanto carinho. E, cá entre nós, isso realmente não tem preço.

"Na rua principal de Heidelberg, Alemanha, vestido com a camisa do Fluminense e aguardando minha sobrinha que fazia compras numa loja, reparei que um táxi se aproximava lentamente de mim. Ao parar ao meu lado, e com algum acanhamento, o motorista (foto), um senhor humilde de aprox. 60 anos, me abordou indagando em voz baixa, "Fluminense?" Um tanto surpreso, respondi "sim, é a camisa do Fluminense". Nesse momento, visivelmente emocionado, o homem começou a falar (em português claudicante) de uma visita que o tricolor carioca havia feito à cidade natal dele, a uns 40 quilômetros dali, para jogar um torneio amistoso, em meados da década de 70. Ele citou Félix, Marco Antônio, Paulo César e Rivelino, dentre outros, e quase chorando retirou da carteira de documentos uma foto em que aparecia, ainda rapaz, ao lado do goleiro Félix, a quem ele se referia com mais frequência em nossa conversa. O que mais me surpreendeu é que ele guardava essa foto na carteira há mais de 35 anos, talvez esperando indefinidamente por uma oportunidade em que pudesse mostrá-la a alguém em condições de compreender o significado daquilo.
Sempre muito emocionado, e com lágrimas nos olhos, ele disse que guardava com carinho as lembranças daquele episódio da juventude, o que acabou também me comovendo. Em seguida, perguntei se ele já havia visto alguém com a camisa do Fluminense nesse longo período. Ele respondeu que sim, por algumas vezes, mas que nunca tivera a chance de se aproximar da pessoa. Compreendi então o motivo daquela emoção toda ao falar comigo. Ao me despedir, perguntei se ele não tinha um cartão que eu pudesse levar como lembrança do encontro, imaginando poder um dia estabelecer um novo contato entre ele e o Félix. Ele, então, me entregou um cartão da empresa de táxi em que trabalhava, onde li o nome Felix Albert (daí, talvez, a maior identificação com o goleiro do Fluminense). Provavelmente, o próprio Félix já nem se lembrava mais do jovem xará com quem conversou (segundo ele, em italiano) naqueles longínquos anos 70, numa pequena cidade da Alemanha. Mas a foto dele estava lá, carinhosamente guardada na carteira do Sr. Albert por mais de 35 anos".


quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Um verão inesquecível!!

Há exatamente 26 anos, eu embarcava para fazer a primeira visita, após mais de 60 anos, de um brasileiro à família espanhola na Forja, pequeno povoado da Galícia onde nasceu minha saudosa avó Evangelina e onde morou meu pai, Pepe, nos primeiros anos de vida.
No ano anterior, eu já havia conhecido em Barcelona os dois filhos de José, primo do meu pai, e os três netos. Agora, a jornada até a bucólica Forxa era para conhecer justamente José e sua esposa Esther, aproveitando para conhecer também a terra da vovó Evangelina, as casas (já em ruínas) onde ela viveu com o vovô José Maria (português) e os filhos, incluindo meu pai e os irmãos.
A visita à Galícia nas férias de verão daquele ano (1996), a convite da prima Elisa, me permitiu desfrutar de duas semanas agradáveis com a família reunida. Tratado com muito carinho por todos, em especial pelo primo José e sua esposa Esther, infelizmente já falecidos, vivi dias inesquecíveis naquele longínquo agosto de 1996. A procissão e a festa de San Benito, a “Feria del Pulpo” (polvo), quando quase todos os restaurantes de Ginzo de Límia (cidade próxima) servem um delicioso polvo cozido, prato típico da região, e principalmente a hospitalidade dos primos e dos novos amigos me motivaram a retornar outras vezes, o que fiz com o maior prazer.
Obviamente, guardo daquelas visitas à Galícia as melhores lembranças, que me acompanharão por toda a vida.
Ao acordar hoje, por algum motivo, lembrei disso e não pude deixar de registrar!


segunda-feira, 18 de julho de 2022

Kurt Masur e a lição de uma vida!


Se vivo fosse, Kurt Masur completaria hoje 95 anos!
Em 21 de junho de 2008, tive a oportunidade (e a sorte) de assistir a um concerto com a Orquestra Nacional da França, sob a regência do saudoso maestro alemão, no Museu D'Orsay, em Paris.
No documentário "Uma Aventura Musical" que tenho em meu acervo, Masur conta um episódio peculiar do início de carreira que reflete perfeitamente o quanto podemos perder (ou deixar de ganhar) quando nos deixamos levar pelo orgulho e pela vaidade. E o que vale para a música certamente se aplica a todas as dimensões da vida.
No dia seguinte a um concerto no qual, ainda muito jovem, regeu pela primeira vez uma sinfonia de Bruckner, o maestro encontrou na rua um famoso professor de violino que lhe disse:
- Seu concerto ontem foi bom, mas teria sido melhor se você, durante a performance, demonstrasse amar mais a Bruckner do que a si próprio.
Masur afirmou que essa "lição" de humildade teria pautado suas decisões ao longo de toda a carreira, determinando a relação que passaria a ter dali por diante com a música.
Quando o músico, e não só o maestro, se dispõe a "compreender" o compositor, suas motivações e até mesmo as possíveis inquietações que o levaram a criar a obra, aí sim se estabelece a cumplicidade necessária para reproduzir mais fielmente suas ideias, justamente o que testemunhei naquele inesquecível concerto do verão de 2008, em Paris.


domingo, 17 de julho de 2022

Semelhanças, diferenças e a humanidade que nos define!



"É melhor presenciar algo uma única vez do que ouvir sobre isso milhares de vezes" - Provérbio asiático.

Nesses tempos de inflação alta na Europa e no mundo, e de dólar/euro cada vez mais caro, não custa fazer uma retrospectiva de um tempo em que era mais fácil (e barato) cruzar fronteiras.
Por pura sorte (e talvez oportunidade histórica), comecei a viajar justamente quando o real valia muito. Na primeira viagem, em 1995, nossa nova moeda valia mais do que o dólar ou qualquer moeda europeia. Naquela época pré-euro, até a Europa era acessível para os brasileiros. Nos últimos anos, porém, com a crise econômica, o aumento do dólar/euro e a pandemia da Covid-19, o cenário mudou.
Tenho plena consciência de que aproveitei muito bem os melhores anos da economia brasileira para realizar um sonho de infância, conhecer a Europa, experimentando algumas das maiores emoções que tive na vida. Atravessei o continente de um jeito que mesmos os turistas endinheirados (que não é e nunca foi o meu caso!) não têm a oportunidade de fazer.
- De trem, de carro e até de bicicleta, visitei cidades grandes e pequenas e dezenas de aldeias no interior de vários países, incluindo algumas que nunca tinham recebido um brasileiro;
- Em 1995, para retornar ao Brasil, fiz uma viagem de trem de Stuttgart a Lisboa, com duas conexões (Paris e Irun), que levou nada menos que 32 horas. Era a primeira viagem e aprendi a lição sobre bilhetes aéreos;
- Na primeira vez que cheguei em Paris, também em 1995 (sem internet), me vi, com mala e cuia, sem hospedagem na cidade. Meu inglês iniciante é que me salvou de dormir na estação de trem;
- Fui o primeiro brasileiro da família a encontrar os primos espanhóis, em Barcelona e na Galícia, após mais de 60 anos, iniciativa da qual vou me orgulhar pelo resto da vida;
- Me perdi de carro na Croácia e só "me achei" com a ajuda providencial de peladeiros de beira de estrada;
- Cheguei de carro a Vaduz, capital de Liechtenstein, sem saber que estava no país, uma experiência única da qual jamais esquecerei;
- Com 56 anos, fui à praia (ou pelo menos à beira da água!) na Bósnia e Herzegovina. Para um carioca que não vai à praia no Rio desde criança, um evento pra lá de singular;
- Testemunhei a realização de uma Copa do Mundo no país-sede, Alemanha, incluindo a abertura do evento numa Munique ensolarada, festiva e tomada por torcedores de várias nacionalidades. Vivi ali alguns dos momentos mais felizes da minha vida;
- Viajei num ônibus "exclusivo" de Viena a Praga (mais de 6 horas!) ao custo de apenas 3 garrafinhas de água, com direito a suspense e receio com a imigração tcheca na fronteira com a Áustria;
- Por 4 vezes, na Alemanha e na Áustria, me vi sem hospedagem perto do anoitecer. Numa delas, fui salvo por D. Érika, uma simpática senhora austríaca que me "abrigou" em sua casa de Nenzing, uma pequena cidade nos alpes austríacos;
- Na semana que antecedeu a abertura da Copa da Alemanha, em 2006, peguei uma carona de Praga a Frankfurt num ônibus escolar, gentilmente oferecida pelos alunos do meu amigo alemão.
E muito, muito mais histórias que dariam até para escrever um livro!
Vale dizer que, em algumas dessas viagens, eu estava acompanhado de amigos alemães e brasileiros, o que tornou essas experiências ainda mais divertidas.
Com tudo isso, pensar que muito jovem, antes mesmo de sair do Rio pela primeira vez (para Ouro Preto), eu acalentava o sonho de apenas "pisar" na Europa. Nem pensava no que faria depois, eu só me imaginava colocando os pés no velho continente!
Ainda criança (com pouco mais de 10 anos), lembro-me perfeitamente de como ficava ansioso por folhear cada fascículo da coleção "Geografia Ilustrada" que minha mãe comprava nas bancas de jornais. Quanto mais distante (e diferente) o país, maior a minha curiosidade. Como eram, como viviam, o que pensavam?
Depois de tantas viagens, não tenho todas as respostas, mas pude descobrir que as semelhanças entre os povos são muito maiores e eloquentes do que as diferenças que os distinguem. Uma lição que nenhum livro e só mesmo as viagens poderiam me proporcionar!