segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Viena e os estertores do império!

De tudo que já li, parece que os acontecimentos da virada do século XIX para o século XX na capital austríaca, período da "Secessão" e da 2a. Escola de Viena (música), rivaliza em importância artística e cultural para o ocidente com a "Belle Époque" de Paris, ocorrida mais ou menos no mesmo período.
O fato é que tenho uma curiosidade especial pela história de Viena, em especial desse período de efervescência artística e cultural, justamente entre o declínio do Império e o surgimento da República.
Poucos países na História Contemporânea passaram por transformações tão profundas em seus valores como a Áustria nos estertores do Império Austro-Húngaro, que acabaria levando à instauração da República após o fim da I Guerra, em 1918.
Particularmente na virada do século, a cidade de Viena seria palco privilegiado de movimentos culturais que influenciariam a arte ocidental por todo o século XX, em especial a chamada "Secessão Vienense", caracterizada pelo rompimento com os ditames da arte tradicional e conservadora, em favor de uma visão mais abrangente e universal das diferentes manifestações artísticas, notadamente a pintura, a escultura e a arquitetura.
Como diz o lema exibido no alto do "Edifício Secessão" (foto), símbolo do movimento em Viena, "para cada época, sua arte. Para cada arte, sua liberdade"!


Alemanha, uma viagem musical!

Cd triplo com a gravação do ciclo completo de concertos para órgão de Handel, obras que figuram entre as mais populares do compositor.
É só começar a ouvir para não parar mais. E pensar que Handel compôs tudo isso apenas para execução nos intervalos de seus célebres oratórios.
Em 2016, estive em Halle, sua cidade natal, depois de visitar Leipzig, onde viveu e se consagrou Bach, outro mestre do barroco, e Bayreuth, cidade que virou sinônimo de Wagner por sediar o teatro construído para a montagem das óperas do compositor.
Foi uma viagem temática por cidades e regiões alemãs onde viveram os maiores mestres da música, responsáveis por obras que atravessam séculos encantando gerações de músicos e diletantes.
Mais tarde, um ano depois, a visita foi a Viena, eterna capital da música e onde nasceram ou viveram outros grandes compositores como Mozart, Beethoven, Brahms, Bruckner, Schubert, Mahler e Johann Strauss (pai e filho).
A "cereja do bolo" na capital austríaca foi assistir a um concerto com a Filarmônica de Viena na tradicional KonzertHaus, a realização de um sonho acalentado desde a juventude.
Lembrar dessas viagens chega a ser "doloroso" com tudo que temos vivido nos últimos anos. Mas é preciso acreditar no futuro e em novas viagens e realizações.


Quando fama e riqueza não bastam!

 

O que leva um homem rico, brilhante e verdadeiramente querido por uma legião de fãs e amigos a tirar a própria vida? O documentário "Robin Williams: Entre na Minha Mente", exibido pela HBO, não tenta explicar isso, mas expõe detalhes reveladores da vida do ator, desde a infância até seu fim trágico (suicídio), em agosto de 2014. O que se sabe é que Williams era alcoólatra, sofria de Parkinson e, pouco antes de morrer, fora diagnosticado com demência.
A mente humana é realmente um grande e indecifrável mistério. Quando tudo parece conspirar a favor, algo pode fugir completamente ao nosso controle, dissolver certezas "inabaláveis" e fazer nosso mundinho ruir como um castelo de cartas. E não há dinheiro ou fama capaz de evitar isso. Só Deus!!
A ironia das ironias é que Robin Williams foi eleito pela revista "Entertainment Weekly", em 1997, "O Homem Vivo Mais Engraçado do Mundo". Em muitos casos, porém, passar o tempo todo fazendo os outros rirem pode ser uma tentativa desesperada de animar o próprio espírito, ou apenas uma fuga quando não se consegue lidar com seus próprios "fantasmas".
Alguns amigos relatam no documentário que ele sofria de baixa autoestima, mas eu suspeito que sua depressão crônica se devia ao fato de ter percebido que fama, sucesso e fortuna não lhe bastavam. Possivelmente deu-se conta logo cedo de que faltava-lhe algo maior, mais profundo e verdadeiro para que sua vida fizesse realmente algum sentido.

'Kullervo", uma sinfonia singular!

"Kullervo", sinfonia para solistas, coro e orquestra de Jean Sibelius (1865-1957), conta a história do destino trágico do guerreiro Kullervo, que, após seduzir uma jovem na floresta, se desespera ao saber que se tratava da própria irmã desaparecida desde criança.
A belíssima obra, concluída quando Sibelius tinha apenas 26 anos, foi recebida com entusiasmo em sua estreia em Helsinque, conferindo fama e prestígio ao jovem compositor com seu primeiro trabalho para vozes e grande orquestra.
Kullervo é uma obra singular. Infelizmente, por sua complexidade de execução (solistas, coro e orquestra), raramente integra os programas de concerto.
Embora o tratamento orquestral dado a Kullervo esteja aquém daquele que Sibelius revelaria nas obras da maturidade, o compositor, aos 26 anos, já demonstrava um enorme talento e surpreendente originalidade.
Essa gravação de 1992 com o (então) jovem finlandês Esa-Pekka Salonen à frente da Filarmônica de Los Angeles é ainda hoje considerada uma das melhores já realizadas da obra.


Zweig e Carpeaux, dois "refugiados" ilustres no Brasil

 

A exemplo de seu conterrâneo e contemporâneo Stefan Zweig (também de origem judaica), Otto Maria Carpeaux (1900-1978) deixou sua Áustria natal com a ascensão do nazismo na Europa, se estabelecendo no Brasil.
Do mesmo modo que Zweig, Carpeaux, com sua cultura universal e humanista, autor de uma extensa e antológica História da Literatura Ocidental em 10 volumes, se tornou um dos maiores intelectuais e pensadores de nosso país no século XX.
Esse livro, que comprei agora na livraria Leitura do Centro, relata os anos de formação do jovem Carpeaux numa Áustria em plena efervescência política e cultural, testemunhando os "estertores" do longevo império Austro-Húngaro e o nascimento da República.

São Paulo, uma síntese do Brasil!

Esse livro da coleção da Folha (Coleção Folha - Fotos Antigas do Brasil) revela a trajetória de crescimento de uma cidade que começou como uma pequena vila há pouco mais de 160 anos e se tornou, ao longo do tempo, na maior metrópole brasileira.
Abrigando imigrantes de todas as origens e etnias, São Paulo é a cidade que melhor traduz o processo de formação da diversidade do povo brasileiro. Sua história se confunde com a própria história do desenvolvimento do país.
O curioso é como São Paulo e Rio de Janeiro se complementam em suas características e potencialidades. Bairrismos à parte, são duas belas faces de uma mesma e rica moeda.
A despeito dos problemas que enfrentam, são as cidades brasileiras que refletem com maior fidelidade nossas riquezas e mazelas.


sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Los Niños de Murillo!!

Em 2003, na véspera de embarcar em Madrid para a Galícia, e depois de me encantar com as obras de (Bartolomé Esteban) Murillo (1617-1682) expostas no Museu do Prado, fui ao "El Corte Inglés" e à "Casa del Libro" para comprar um livro sobre o artista. Não encontrei e nenhum vendedor sabia nem quem era (ou foi) Murillo. Saí de mãos vazias e frustrado.
Já na Galícia, comentei com um dos primos a respeito da visita ao Prado e da dificuldade de encontrar em Madrid um livro sobre Murillo, um dos maiores mestres do "Século de Ouro" (XVII) da pintura espanhola.
Quando retornei a Madrid, e antes do embarque para o Rio, voltei ao Prado para tentar encontrar no próprio museu um livro sobre Murillo, o que não fiz na primeira vez por esquecimento.
E estava ali, escondidinho entre livros de Velasquez, Goya e El Greco na loja do Museu, justamente o livro que eu queria, com obras de Murillo retratando o cotidiano das crianças pobres e de rua de Sevilha (Niños de Murillo) no século XVII, cenas que nos comovem até hoje e que, infelizmente, ainda se repetem há séculos no mundo inteiro!



segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Tributo a um ídolo!


No aniversário de 10 anos de morte do saudoso Félix, ex-goleiro do Fluminense e da seleção brasileira (1970), segue o relato de um episódio envolvendo o inesquecível ídolo tricolor que testemunhei em visita à cidade de Heidelberg, na Alemanha, em junho de 2010.
Cabe registrar que, felizmente, no final de 2011, tive a oportunidade de transmitir ao próprio Félix (e à filha dele, Patrícia), por telefone e e-mail, esse mesmo relato. Estou convencido de que proporcionei ao Félix a alegria de saber que, passados mais de 30 anos, alguém tão distante ainda se lembrava dele com tanto carinho. E, cá entre nós, isso realmente não tem preço.

"Na rua principal de Heidelberg, Alemanha, vestido com a camisa do Fluminense e aguardando minha sobrinha que fazia compras numa loja, reparei que um táxi se aproximava lentamente de mim. Ao parar ao meu lado, e com algum acanhamento, o motorista (foto), um senhor humilde de aprox. 60 anos, me abordou indagando em voz baixa, "Fluminense?" Um tanto surpreso, respondi "sim, é a camisa do Fluminense". Nesse momento, visivelmente emocionado, o homem começou a falar (em português claudicante) de uma visita que o tricolor carioca havia feito à cidade natal dele, a uns 40 quilômetros dali, para jogar um torneio amistoso, em meados da década de 70. Ele citou Félix, Marco Antônio, Paulo César e Rivelino, dentre outros, e quase chorando retirou da carteira de documentos uma foto em que aparecia, ainda rapaz, ao lado do goleiro Félix, a quem ele se referia com mais frequência em nossa conversa. O que mais me surpreendeu é que ele guardava essa foto na carteira há mais de 35 anos, talvez esperando indefinidamente por uma oportunidade em que pudesse mostrá-la a alguém em condições de compreender o significado daquilo.
Sempre muito emocionado, e com lágrimas nos olhos, ele disse que guardava com carinho as lembranças daquele episódio da juventude, o que acabou também me comovendo. Em seguida, perguntei se ele já havia visto alguém com a camisa do Fluminense nesse longo período. Ele respondeu que sim, por algumas vezes, mas que nunca tivera a chance de se aproximar da pessoa. Compreendi então o motivo daquela emoção toda ao falar comigo. Ao me despedir, perguntei se ele não tinha um cartão que eu pudesse levar como lembrança do encontro, imaginando poder um dia estabelecer um novo contato entre ele e o Félix. Ele, então, me entregou um cartão da empresa de táxi em que trabalhava, onde li o nome Felix Albert (daí, talvez, a maior identificação com o goleiro do Fluminense). Provavelmente, o próprio Félix já nem se lembrava mais do jovem xará com quem conversou (segundo ele, em italiano) naqueles longínquos anos 70, numa pequena cidade da Alemanha. Mas a foto dele estava lá, carinhosamente guardada na carteira do Sr. Albert por mais de 35 anos".


quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Um verão inesquecível!!

Há exatamente 26 anos, eu embarcava para fazer a primeira visita, após mais de 60 anos, de um brasileiro à família espanhola na Forja, pequeno povoado da Galícia onde nasceu minha saudosa avó Evangelina e onde morou meu pai, Pepe, nos primeiros anos de vida.
No ano anterior, eu já havia conhecido em Barcelona os dois filhos de José, primo do meu pai, e os três netos. Agora, a jornada até a bucólica Forxa era para conhecer justamente José e sua esposa Esther, aproveitando para conhecer também a terra da vovó Evangelina, as casas (já em ruínas) onde ela viveu com o vovô José Maria (português) e os filhos, incluindo meu pai e os irmãos.
A visita à Galícia nas férias de verão daquele ano (1996), a convite da prima Elisa, me permitiu desfrutar de duas semanas agradáveis com a família reunida. Tratado com muito carinho por todos, em especial pelo primo José e sua esposa Esther, infelizmente já falecidos, vivi dias inesquecíveis naquele longínquo agosto de 1996. A procissão e a festa de San Benito, a “Feria del Pulpo” (polvo), quando quase todos os restaurantes de Ginzo de Límia (cidade próxima) servem um delicioso polvo cozido, prato típico da região, e principalmente a hospitalidade dos primos e dos novos amigos me motivaram a retornar outras vezes, o que fiz com o maior prazer.
Obviamente, guardo daquelas visitas à Galícia as melhores lembranças, que me acompanharão por toda a vida.
Ao acordar hoje, por algum motivo, lembrei disso e não pude deixar de registrar!


segunda-feira, 18 de julho de 2022

Kurt Masur e a lição de uma vida!


Se vivo fosse, Kurt Masur completaria hoje 95 anos!
Em 21 de junho de 2008, tive a oportunidade (e a sorte) de assistir a um concerto com a Orquestra Nacional da França, sob a regência do saudoso maestro alemão, no Museu D'Orsay, em Paris.
No documentário "Uma Aventura Musical" que tenho em meu acervo, Masur conta um episódio peculiar do início de carreira que reflete perfeitamente o quanto podemos perder (ou deixar de ganhar) quando nos deixamos levar pelo orgulho e pela vaidade. E o que vale para a música certamente se aplica a todas as dimensões da vida.
No dia seguinte a um concerto no qual, ainda muito jovem, regeu pela primeira vez uma sinfonia de Bruckner, o maestro encontrou na rua um famoso professor de violino que lhe disse:
- Seu concerto ontem foi bom, mas teria sido melhor se você, durante a performance, demonstrasse amar mais a Bruckner do que a si próprio.
Masur afirmou que essa "lição" de humildade teria pautado suas decisões ao longo de toda a carreira, determinando a relação que passaria a ter dali por diante com a música.
Quando o músico, e não só o maestro, se dispõe a "compreender" o compositor, suas motivações e até mesmo as possíveis inquietações que o levaram a criar a obra, aí sim se estabelece a cumplicidade necessária para reproduzir mais fielmente suas ideias, justamente o que testemunhei naquele inesquecível concerto do verão de 2008, em Paris.


domingo, 17 de julho de 2022

Semelhanças, diferenças e a humanidade que nos define!



"É melhor presenciar algo uma única vez do que ouvir sobre isso milhares de vezes" - Provérbio asiático.

Nesses tempos de inflação alta na Europa e no mundo, e de dólar/euro cada vez mais caro, não custa fazer uma retrospectiva de um tempo em que era mais fácil (e barato) cruzar fronteiras.
Por pura sorte (e talvez oportunidade histórica), comecei a viajar justamente quando o real valia muito. Na primeira viagem, em 1995, nossa nova moeda valia mais do que o dólar ou qualquer moeda europeia. Naquela época pré-euro, até a Europa era acessível para os brasileiros. Nos últimos anos, porém, com a crise econômica, o aumento do dólar/euro e a pandemia da Covid-19, o cenário mudou.
Tenho plena consciência de que aproveitei muito bem os melhores anos da economia brasileira para realizar um sonho de infância, conhecer a Europa, experimentando algumas das maiores emoções que tive na vida. Atravessei o continente de um jeito que mesmos os turistas endinheirados (que não é e nunca foi o meu caso!) não têm a oportunidade de fazer.
- De trem, de carro e até de bicicleta, visitei cidades grandes e pequenas e dezenas de aldeias no interior de vários países, incluindo algumas que nunca tinham recebido um brasileiro;
- Em 1995, para retornar ao Brasil, fiz uma viagem de trem de Stuttgart a Lisboa, com duas conexões (Paris e Irun), que levou nada menos que 32 horas. Era a primeira viagem e aprendi a lição sobre bilhetes aéreos;
- Na primeira vez que cheguei em Paris, também em 1995 (sem internet), me vi, com mala e cuia, sem hospedagem na cidade. Meu inglês iniciante é que me salvou de dormir na estação de trem;
- Fui o primeiro brasileiro da família a encontrar os primos espanhóis, em Barcelona e na Galícia, após mais de 60 anos, iniciativa da qual vou me orgulhar pelo resto da vida;
- Me perdi de carro na Croácia e só "me achei" com a ajuda providencial de peladeiros de beira de estrada;
- Cheguei de carro a Vaduz, capital de Liechtenstein, sem saber que estava no país, uma experiência única da qual jamais esquecerei;
- Com 56 anos, fui à praia (ou pelo menos à beira da água!) na Bósnia e Herzegovina. Para um carioca que não vai à praia no Rio desde criança, um evento pra lá de singular;
- Testemunhei a realização de uma Copa do Mundo no país-sede, Alemanha, incluindo a abertura do evento numa Munique ensolarada, festiva e tomada por torcedores de várias nacionalidades. Vivi ali alguns dos momentos mais felizes da minha vida;
- Viajei num ônibus "exclusivo" de Viena a Praga (mais de 6 horas!) ao custo de apenas 3 garrafinhas de água, com direito a suspense e receio com a imigração tcheca na fronteira com a Áustria;
- Por 4 vezes, na Alemanha e na Áustria, me vi sem hospedagem perto do anoitecer. Numa delas, fui salvo por D. Érika, uma simpática senhora austríaca que me "abrigou" em sua casa de Nenzing, uma pequena cidade nos alpes austríacos;
- Na semana que antecedeu a abertura da Copa da Alemanha, em 2006, peguei uma carona de Praga a Frankfurt num ônibus escolar, gentilmente oferecida pelos alunos do meu amigo alemão.
E muito, muito mais histórias que dariam até para escrever um livro!
Vale dizer que, em algumas dessas viagens, eu estava acompanhado de amigos alemães e brasileiros, o que tornou essas experiências ainda mais divertidas.
Com tudo isso, pensar que muito jovem, antes mesmo de sair do Rio pela primeira vez (para Ouro Preto), eu acalentava o sonho de apenas "pisar" na Europa. Nem pensava no que faria depois, eu só me imaginava colocando os pés no velho continente!
Ainda criança (com pouco mais de 10 anos), lembro-me perfeitamente de como ficava ansioso por folhear cada fascículo da coleção "Geografia Ilustrada" que minha mãe comprava nas bancas de jornais. Quanto mais distante (e diferente) o país, maior a minha curiosidade. Como eram, como viviam, o que pensavam?
Depois de tantas viagens, não tenho todas as respostas, mas pude descobrir que as semelhanças entre os povos são muito maiores e eloquentes do que as diferenças que os distinguem. Uma lição que nenhum livro e só mesmo as viagens poderiam me proporcionar!


quarta-feira, 6 de julho de 2022

Memórias do cinema...

Minha primeira relação com o cinema foi de "ódio à primeira vista"!
A empregada lá de casa pediu e minha mãe concordou que ela levasse as crianças (meus irmãos e eu) para assistir "A Noviça Rebelde". Eu tinha apenas 6 anos e não entendi absolutamente nada daquela "história sem fim" sobre uma família rica e numerosa que gostava de música e vivia num lugar bonito e distante. Música folclórica austríaca, nazismo e perseguição política (embora vivêssemos aqui numa ditadura) eram temas alheios à minha realidade. Depois de três horas sentado numa sala escura e sem poder falar ou levantar, eu aprendi, na mais tenra idade, o verdadeiro significado de tortura.
Com o trauma do primeiro "encontro", o cinema só viria a me conquistar muitos anos mais tarde quando, já adolescente, assisti a "Houve Uma Vez Um Verão", de Robert Mulligan.
A história nostálgica de um rapaz da minha idade apaixonado por uma mulher madura e comprometida, um belo rito de passagem, mexeu comigo como poucas que vi no cinema em toda a minha vida, o que contribuiu para que eu ingressasse no curso de Cinema da UFF. O objetivo era me tornar roteirista, mas tranquei a matrícula assim que passei no concurso do IBGE. O serviço público, do qual fiz parte por 35 anos e me orgulho muito, abortou minha carreira no cinema antes mesmo de começar.
O fato é que não demorou para que eu trocasse a PAIXÃO pelo cinema pelo AMOR pela música. Ainda hoje, adoro assistir a filmes, mas a música se tornou um vício e uma razão de viver, que se traduz por uma busca incessante pela Beleza, pelo Amor e pela Verdade. Estou convencido de que nenhuma outra manifestação humana nos aproxima tanto disso!


domingo, 19 de junho de 2022

O Doutor Fausto que há em todos nós.

Um compositor vende sua alma ao diabo em troca de vida longa e plena realização artística.
O romance "Doutor Fausto", de Thomas Mann, baseado na peça "Fausto", de Goethe, é uma "alegoria" da Alemanha no período de gestação do nazismo entre as duas grandes guerras do século XX, mas tragicamente se aplica também aos tempos atuais, quando o mundo se vê cada vez mais tomado por extremismos e radicalizações em busca do poder.
Em nossos dias, porém, tudo se revela ainda mais sinistro ao vermos "pactos" semelhantes realizados por gente que se diz e se apresenta publicamente como cristã ou seguidora da Bíblia, num despudor que só mesmo o diabo ousaria praticar ou propor!
"Doutor Fausto", assim como a própria peça de Goethe, escrita há 200 anos, é obra atemporal e definitiva justamente por expor fraquezas humanas de qualquer tempo ou lugar, de qualquer cultura ou nacionalidade.
Na verdade, há um "Doutor Fausto" no coração de cada um de nós!


A Áustria do pós-guerra!

Preciosa antologia bilíngue (alemão/português) reunindo textos literários e narrativos de autores austríacos publicados no período de 1945 a 1995, correspondente ao cinquentenário da "Segunda República da Áustria".
O livro, "Runa - Revista Portuguesa de Estudos Germanísticos", pertenceu a um dos maiores juristas desse país, já falecido, e me foi oferecido ontem por seu filho, um amigo dileto, que conhece meu profundo interesse pela cultura germânica, a exemplo do seu saudoso pai.
A obra propicia uma rara oportunidade para compreender a natureza do "pensamento austríaco" durante as primeiras cinco décadas de reconstrução física e moral da Áustria após os conflitos da II Guerra.
A propósito, há alguns meses, numa mesma sessão de julgamento do STF, os ministros Luís Roberto Barroso e Rosa Weber se referiram aos ensinamentos recebidos do eminente jurista, citando-o nominalmente ao declararem seus votos. Decerto, um motivo de orgulho para o amigo e toda a família.


sábado, 18 de junho de 2022

Refugiados, imigrantes, "deslocados" e afins.

A quantidade de refugiados no mundo cresce de tal maneira que nos remete aos períodos mais sombrios da história. Por motivos diversos, incluindo desastres naturais, conflitos e perseguições (os mais comuns), legiões de habitantes do planeta abandonam suas regiões de origem em busca de paz e sobrevivência. Em resposta a isso, os países mais ricos fecham as fronteiras na tentativa de proteger sua prosperidade e modo de vida, construídos, em muitos casos, com a dedicação e a força de trabalho de gerações de imigrantes, tratados hoje com desprezo e indiferença.
O conjunto de nações precisa encontrar uma solução concreta para o sério problema humanitário envolvendo refugiados, cujo agravamento põe em xeque o próprio conceito de civilização que conhecemos.
A construção de muros separando nações, como propôs Trump em relação ao México, é uma medida que nos remete à Idade Média, quando muralhas eram erguidas em torno de castelos e núcleos urbanos para afastar povos inimigos, e condena populações carentes a uma vida miserável e, pior, sem esperança.
Não é razoável que, em pleno século XXI, as nações mais desenvolvidas não consigam lidar com o problema sem recorrer ao recurso egoísta de levantar muros para afastar indesejáveis.
Os mais recentes movimentos migratórios têm criado novas demandas para as nações recebedoras, gerando a necessidade de volumosos investimentos sociais, mas nada justifica a indiferença dos países mais ricos em relação ao destino de milhões de vítimas de conflitos ou da pobreza extrema como estamos vendo nos últimos anos.
Um mundo que se diz civilizado precisa aprender a compartilhar melhor suas riquezas, proporcionando aos seres humanos de quaisquer origens ou culturas a chance de buscar e encontrar a própria felicidade, seja lá o que isso efetivamente signifique para cada um de nós.
Vale dizer que sou neto de imigrantes (um português e uma espanhola) que chegaram aqui jovens e paupérrimos no início do século XX em busca, como tantos outros, de melhores condições de vida.
O contato mais recente com os primos espanhóis me permitiu ver minha própria trajetória de vida sob uma perspectiva histórica, da qual muito me orgulho.


terça-feira, 10 de maio de 2022

Debussy e o "impressionismo" na música.

Livros de música clássica no Brasil são raridades. Biografias de compositores são mais raras ainda. Só encontramos por aqui dos mais "populares" como Beethoven, Mozart, Bach etc.
Depois de ouvir bastante Claude Debussy nos últimos dias, fiquei encantado com o compositor francês e o movimento impressionista na música (embora o próprio Debussy não gostasse desse "rótulo" para sua obra).
Procurei nos sites brasileiros por livros sobre o compositor, mas não encontrei nada. Já nas livrarias estrangeiras há vários, fazendo justiça à importância da obra de Debussy, que provocou uma saudável e criativa ruptura com a herança dos grandes mestres que o antecederam. Só por isso já valeria a pena conhecer mais a fundo a vida e a obra de Debussy, para compreender o contexto histórico, artístico e cultural que o levou a procurar novos caminhos para a música na virada do séc. XIX para o séc. XX. E, cá entre nós, ele foi muito bem-sucedido, apesar de não ter se tornado tão popular como Beethoven ou Mozart. Mas essa é uma outra história...


Saudade do jornal impresso...

 


Saudade do jornal impresso...
mas de quando não havia internet!
Do tempo em que a leitura diária do jornal era a melhor (ou única) maneira de saber das notícias com alguma profundidade. Foi basicamente com o jornal que aprendi a desenvolver uma visão crítica sobre a realidade.
Desde cedo, seguindo o exemplo do meu pai, adquiri o hábito de ler jornal. Quando criança, era O Globo. Mais tarde, na Universidade, o JB, que me acompanhou até acabar, em 2010. Depois, na falta de um jornal maís crítico no Rio, retornei ao O Globo. Não demorou muito. Desiludido com o apoio do jornal ao governo Temer e a campanha sórdida e sistemática, mantida até hoje, contra os servidores públicos, resolvi acabar com a assinatura e aderir de vez à internet.
Mas confesso que tenho saudade de pegar o jornal de manhã, apurar as manchetes e, em seguida, virar cada página sem saber exatamente o que vou encontrar depois. Um hábito adquirido ao longo da vida inteira que a internet definitivamente não substituiu.

A Finlândia de Sibelius e a ameaça russa.

Depois que conheci (e amei) as obras do finlandês Jean Sibelius (1865-1957), um dos maiores sinfonistas do século XX, passei a me interessar pela Finlândia, sua história e sua cultura. O país viveu sob a dominação russa (então czarista) por um longo período, e só conquistou a independência em 1917.
Muitas obras de Sibelius retratam o folclore e a rica cultura do povo finlandês. O poema sinfônico "Finlândia", sua composição mais popular, tratada como um grito de resistência à ocupação russa, acabou se tornando um hino "informal" do país.
Com a ameaça de Putin à Finlândia (e à Suécia), ressurge o fantasma da dominação russa de triste memória para os finlandeses.
A essa altura, e mais de um século depois, Sibelius certamente se revira no túmulo diante do risco de nova ocupação do país pelos russos imperialistas.



Europa, entre a construção da paz e o pesadelo da guerra!

 


Um continente entre o sonho de construção da paz e o reiterado pesadelo da guerra!
Após as duas grandes guerras ocorridas na primeira metade do século XX que tiveram o continente europeu como palco principal, alguns países da região resolveram se unir para promover a recuperação de suas economias combalidas pelos conflitos. Em alguns anos, esse processo culminou na criação da União Europeia, que reúne hoje 28 países com interesses políticos e econômicos (nem sempre) comuns. Trata-se de um belo e ambicioso projeto destinado a aproximar os povos em defesa do bem-estar e da paz no continente. Na verdade, pelo forte simbolismo que encerra, o sucesso dessa experiência interessa a toda a humanidade.
Mas, afinal, as lideranças nacionais da Europa de nosso tempo estão à altura do desafio de consolidar essa união? Por que surgem tantos políticos eurocéticos no continente? As seguidas crises de refugiados comprometem o projeto? Como lidar com o crescimento de movimentos xenófobos e da extrema direita?
Existe chance real do estabelecimento de uma paz duradoura na Europa à prova de crises econômicas, movimentos nacionalistas e líderes populistas?
Enfim, para onde caminha a União Europeia?

A música universal de Carl Nielsen

Assistindo a um filme dinamarquês (O Bombardeio) na Netflix, confesso que achei tudo muito estranho no comportamento dos personagens. Nada ali lembrava nosso jeito de viver, de reagir às situações e de nos relacionarmos. Aparentemente, uma "frieza" incômoda entre pessoas que se gostam ou se amam que evidencia as diferenças gritantes entre os nórdicos e nós, os latinos.
Mas, apesar disso, como por um milagre, me tornei um grande fã de Carl Nielsen (1865-1931), o maior compositor dinamarquês. Ouço e "compreendo" suas músicas com uma intensidade que contrasta radicalmente com a profunda estranheza que sinto em relação ao comportamento dos dinamarqueses em situações do cotidiano. Só mesmo a música é capaz de aproximar seres humanos tão "diferentes". A linguagem musical fala diretamente ao coração e à alma, sem passar por filtros culturais que costumam afastar as pessoas. Com a música, o que "fala" mais alto é a natureza (ou essência) humana comum a todos nós, sem distinção de cultura, etnia, religião, ideologia ou geografia. É ou não é um "milagre"?