terça-feira, 22 de setembro de 2020

A militância de Ken Loach

"Você Não Estava Aqui", mais recente filme do veterano Ken Loach, conta as agruras de uma família pobre para sobreviver em meio às precárias condições de trabalho e de renda na Inglaterra.
Uma visão humanista e comovente de uma realidade dura que não se limita ao país da Rainha. Pobre, sabemos todos, está fodido em qualquer lugar do mundo. Tanto faz se em dólar, em real, em euro ou em libra!
A boa notícia é que Loach, aos 84 anos, continua nos oferecendo obras com uma profunda visão crítica do capitalismo e das relações de trabalho.



"O Quarteto", uma visão generosa da maturidade

"O Quarteto", de Dustin Hoffman, que acabo de rever, tem um olhar generoso sobre a arte, os sentimentos e as relações humanas na maturidade (ou na velhice).
Um filme que nos lembra que envelhecer "bem" é tratar com generosidade ou condescendência o passado, a vida que levamos e aqueles que nos cercam. Tudo o mais é (ou sempre foi) definitivamente irrelevante!



"Meu Tio" virou romance

Contra a vontade do pai rico e esnobe, o menino se afeiçoa ao tio pobre.
Na garupa da bicicleta, ele passeia pela periferia, faz novas amizades, vive aventuras e descobre com o tio o prazer da liberdade.
O filme de Jacques Tati, de 1958, uma crítica ao consumismo e à sociedade industrial, se tornou um clássico, e Jean-Claude Carriere, célebre roteirista, resolveu transformá-lo num romance, homenageando uma das obras mais  encantadoras do cinema francês.
O livro conta com ilustrações originais de Pierre Etaix, desenhista de cenários do próprio filme.




Joyce e a celebração da natureza humana

O livro está velhinho (a edição é de 1984), mas é a melhor tradução que já li dessa obra-prima do mestre irlandês.
Depois de assistir ao excelente "Paterson", que acompanha o cotidiano de um motorista de ônibus que vê poesia em tudo, deu vontade de reler Joyce e seu olhar sensível sobre personagens comuns de sua Irlanda natal.
A literatura de James Joyce, dentre outras coisas, nos mostra que a vida de cada um, rico ou pobre, famoso ou anônimo, irlandês ou brasileiro, virtuoso ou "pecador", em qualquer época, é intrinsecamente rica e singular. A importância de nossa jornada ou existência reside em nossa própria natureza humana e não necessariamente em como a conduzimos ou no que nos tornamos.
Joyce foi um escritor eminentemente humanista, daí por que sou fã de sua obra.



Quando a Arte não basta!

O maestro Georg Tintner nasceu em Viena, em 1917, e foi o primeiro judeu a ser aceito no tradicional coro "Meninos Cantores de Viena". Mais tarde, estudou composição na Academia de Viena, mas deixou a Áustria em 1938, fugindo da perseguição aos judeus. No caminho para a Nova Zelândia, acabou preso na Austrália ao ser acusado de ser um espião nazista.
Em 1946, tornou-se cidadão neozelandês, mas retornou à Austrália em 1954, assumindo o posto de maestro residente da Ópera Nacional.
Em 1987, emigrou para o Canadá, onde morou até 02 de outubro de 1999, quando tirou a própria vida após lutar contra um câncer por 6 anos.
Tintner se dedicou ao estudo das obras de Anton Bruckner. Convidado pela gravadora Naxos, entre 1995 e 1998, realizou a gravação do ciclo integral das sinfonias do compositor austríaco, considerado até hoje um trabalho de referência para críticos e fãs de Bruckner.
Embora seja um dos inúmeros apreciadores das sinfonias "brucknerianas", confesso que só descobri essa história hoje, após pesquisar na internet sobre gravações da sinfonia n.00 do compositor, única que ainda não tenho e tida apenas como um estudo do gênero.
Georg Tintner amava Bruckner possivelmente como eu e tantos outros fãs do compositor. Seu fim trágico aos 82 anos, após dedicar uma vida inteira à música, é motivo de profunda tristeza por revelar que a arte, a despeito da beleza e da verdade que contém, também não é capaz de nos salvar da dor e da desesperança!





Ansfelden celebra Bruckner

A cidadezinha de Ansfelden, na Áustria, comemorou em 04 de setembro o 196º aniversário de seu filho mais ilustre, Anton Bruckner (1824-1896), talvez o compositor que mais fale ao meu coração. Ao contrário de outros grandes músicos que desde muito cedo tiveram consciência (ou convicção) de seu talento incomum, como Bach, Beethoven, Mozart, Mahler e Wagner, esse homem simples e provinciano passou boa parte da vida "implorando" por atenção e reconhecimento, embora tenha produzido obras monumentais tidas hoje como verdadeiras "catedrais sonoras", frutos de sua profunda devoção religiosa.
Em Viena, para onde se mudou somente aos 44 anos, em 1868, Bruckner enfrentou o desprezo de colegas músicos e de críticos locais influentes, ainda que não lhe tenha faltado o apoio de muitos amigos, notadamente no final da vida, quando recebeu várias homenagens. Mas, na capital austríaca, detratores caçoavam do compositor por sua insegurança, postura servil e até mesmo pelo despojamento com que se vestia, pecado mortal numa Viena ainda imponente e imperial do século XIX. Submisso, não raras vezes, o compositor efetuou alterações significativas em suas composições supostamente já concluídas, visando agradar a críticos e músicos mais experientes e conceituados.
Apesar disso, passados mais de 124 anos de sua morte, a importância do legado de Bruckner é reconhecida por todos os amantes da "boa música", entre compositores, intérpretes e público em geral. Suas obras, em especial as 3 missas e o "Te Deum", são impregnadas de sincera e intensa religiosidade e oferecem ao mundo um inegável testemunho de fé.



A vanguarda de Heinrich Heine

Relendo "Viagem ao Harz", de Christian Heinrich Heine (1797-1856), considerado um dos mais célebres representantes do romantismo alemão.
A obra consiste de deliciosos relatos de viagem, "temperados" por fina ironia e entremeados pela mais alta e bela poesia.
Heine se solidarizou com as agruras dos trabalhadores pobres da nascente sociedade industrial e chegou até a escrever um poema denunciando o tráfico negreiro para o Brasil, ressaltando o sofrimento infligido aos africanos na travessia do oceano em condições desumanas. E não deixou de associar criticamente a escravidão ao café e ao tabaco consumidos pela nova burguesia europeia.
Por sua profunda visão humanista, Heine, ainda em vida, teve seus livros proibidos na Áustria e em boa parte da Alemanha, mas inspirou compositores como Schumann, Brahms, Mendelssohn, Liszt e Tchaikovsky. No Brasil, foi traduzido por Gonçalves Dias, Machado de Assis, Raul Pompeia e Manuel Bandeira, dentre outros.
Infelizmente, o brilhante poeta e escritor passou os últimos 8 anos de vida paralítico e entrevado numa cama. Para um homem desbravador e de espírito libertário, um fim de vida trágico.
O fato é que Heine viveu tão à frente de seu tempo que, um século depois de morrer, foi considerado subversivo pelos nazistas, que queimaram seus livros. Certamente, se vivesse hoje, também não escaparia da onda de estupidez e ignorância que assola o mundo, em especial o Brasil. E ainda seria, sem exagero algum, um homem de "vanguarda"!





Berlim, a capital do futuro.

Berlim ressurge das cinzas e se reconstrói a cada dia, dividida entre as lembranças do passado sombrio e o otimismo por vezes contagiante que se revela em edifícios, ruas, praças e até bairros inteiros reconstruídos após a queda do muro, em novembro de 1989.

Em Berlim, praticamente a cada quarteirão percorrido, encontramos fortes referências (deliberadamente mantidas) aos trágicos acontecimentos do século XX, mas, talvez, nenhuma outra cidade europeia transmita maior confiança no futuro do que a capital alemã.
Se Paris celebra um passado glorioso, refletido na preservação da homogeneidade de seu próprio conjunto arquitetônico, Berlim, por circunstâncias históricas, se vê diante da necessidade de recriar quase tudo, em busca de um futuro diferente e promissor que a redima de seu triste passado, mas sem jamais esquecê-lo!
Esses livros, que comprei quando visitei a cidade há alguns anos, revelam em detalhes todo o processo de recuperação da cidade, evidenciado em ousados projetos arquitetônicos que conferem a Berlim uma faceta moderna e otimista.
Em minha opinião, é a capital europeia mais "conectada" com o futuro, embora ainda enfrente os maiores desafios políticos, sociais e econômicos do presente.




domingo, 17 de maio de 2020

Memórias de Paris.

"Champs Élysées" tomada por policiais e bandeiras da França. Foi assim que deixei Paris exatamente no dia 17 de maio de 1995, 25 anos atrás.
Naquela tarde ensolarada de primavera, depois de 3 dias visitando pela primeira vez a cidade, eu seguiria viagem para Stuttgart, na Alemanha. Saindo do Louvre em direção à Gare de L'est para pegar o trem, vislumbrei a mais famosa avenida de Paris em festa. Achei tudo muito bonito, mas não me dei conta do que estava acontecendo. Somente ao embarcar no trem e ocupar o meu lugar pude, finalmente, descobrir o motivo do clima festivo e colorido na cidade. Uma edição do "Le Monde" abandonada no assento ao lado estampava na capa a notícia da posse de Jacques Chirac como presidente da França justamente naquele dia.
Começava ali a trajetória de Chirac como líder máximo da França e também minha paixão por Paris, cidade que eu teria a oportunidade de visitar outras vezes no futuro. Certamente foi um dos dias mais memoráveis de minhas viagens ao velho continente.
Doces lembranças...

           

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Barcelona - Paris, 25 anos atrás!

14 de maio de 1995, domingo de GP da Espanha de F1 no circuito de Montmeló, juntinho de Barcelona. Depois de uma estada de quase uma semana, chegava o dia de me despedir dos primos espanhóis, que conheci justamente naquela viagem. 
Logo cedo, saí para o último passeio, combinando que voltaria ao meio-dia para o almoço de despedida. Mas cheguei um pouco atrasado porque Barcelona estava com vários bloqueios, incluindo o fechamento de algumas estações de metrô, o que me obrigou a pegar ônibus pela primeira (e única) vez na cidade. Tudo por conta da corrida de F1.
Após o almoço, conversamos bastante e tiramos algumas fotografias como lembrança do (re)encontro da família, passados mais de 60 anos. Em seguida, o primo Martin me levou à Estação de Sants, onde eu embarcaria para a França no final da tarde. O dia estava lindo (foto) e o desafio que se apresentava para os próximos dias era conhecer Paris sem falar uma única palavra de francês. Mas foi falando inglês que me livrei de dormir na rua logo na primeira noite. Essa é uma outra história que eu conto depois!
As boas recordações de Barcelona e dos primos espanhóis eu guardaria para sempre. Era o início de uma relação de amizade que se consolidou ao longo dos anos e da qual muito me orgulho até hoje. 
A convite dos primos, retornei à Espanha outras vezes para passar férias na Galícia, terra da minha saudosa avó Evangelina. Uma experiência que me permitiu reunir ricas impressões não só dos primos, mas também do povo espanhol e do próprio país, que aprendi a amar!



sábado, 9 de maio de 2020

Madrid - Barcelona, 25 anos atrás!!

Manhã de 09 de maio de 1995, exatamente 25 anos atrás!
Estação de Chamartin, em Madrid, procedente de Lisboa. Uma noite inteira dormindo numa cabine de trem com três estranhos, um chileno, um francês e um americano. Uma verdadeira babel! Claro, cheio de medo de ser roubado. Eram os primeiros dias de uma viagem que duraria 1 mês. Dormi abraçado à mochila e com os "travellers checks" (ainda em marcos alemães!) dentro da calça. Todo cuidado era pouco.
Dali, eu ainda faria uma conexão para Barcelona no "Talgo", o melhor trem espanhol da época, com previsão de 7 horas de viagem. Hoje, no AVE, o trem veloz, o trecho é percorrido em menos de 3 horas! Tomei o café da manhã no bar da estação, um sanduíche de queijo acompanhado de um delicioso chocolate quente e cremoso, e embarquei um pouco antes das 11h. Próxima parada, Barcelona, e para uma missão muito especial, conhecer os primos espanhóis!
Durante o percurso, desfrutando da paisagem do interior do país, fiquei pensando na responsabilidade de ser o primeiro brasileiro a visitar a família da Espanha após mais de 6 décadas. E sem saber falar espanhol ou catalão, um desafio e tanto para quem fazia a primeira viagem ao exterior e mal tinha saído do Rio.
O combinado é que a prima e o marido me pegariam na estação às 18h, horário previsto para a chegada, mas cabia a mim reconhecê-los por uma foto que enviaram (pelo correio!) meses antes. Foto que eu, "lesado", não levava comigo! Daria certo isso? 
A chegada a Barcelona reuniria mesmo muitas emoções, mas essa é uma outra história!




sexta-feira, 17 de abril de 2020

Beethoven, um gênio "compreendido"!

Nesse ano, o mundo da música comemora os 250 anos de nascimento de Beethoven. A efeméride seria lembrada com concertos programados pelas orquestras mais conceituadas de todos os continentes, mas a pandemia do novo coronavírus deve comprometer a maior parte dos eventos.
De todos os compositores eruditos cuja história de vida conheço, ao menos superficialmente, por meio de livros e filmes, Beethoven é aquele com o qual eu tenho a maior e mais profunda identificação. E isso não tem nada a ver com música ou com sua obra, mas sim com a trajetória de vida do compositor, com os obstáculos que enfrentou e a maneira como reagiu a tudo, nem sempre com conformismo ou resignação.
Intempestivo, irascível, intolerante, cruel, injusto! Ele foi tudo isso, mas guardava dentro de si um profundo amor pela espécie humana e sua jornada nesse mundo, embora, com escolhas equivocadas ou "impossíveis", infelizmente não tenha alcançado a tão desejada realização romântica.
A música de Beethoven é impregnada de todas essas contradições, revelando um homem, mais do que um artista, tragicamente incompreendido e deslocado em seu meio social e em seu tempo. Sua obra nada mais é do que um reflexo ou uma resposta, por vezes enfática, a uma experiência de vida atribulada de um homem que, com sua arte, soube como nenhum outro na história da música transformar obstáculos e limitações pessoais na mais sublime expressão do espírito humano.
É por tudo isso que "compreendo" e admiro Beethoven!

terça-feira, 14 de abril de 2020

Férias de verão na Galícia!

Saudade das férias na Galícia (Espanha), terra da minha saudosa avó Evangelina. Estive lá 4 vezes e sempre no verão, quando os primos espanhóis "fogem" do calor de Barcelona para desfrutar de algumas semanas no campo. Forxa, a aldeia onde nasceu minha avó, não passa de uma rua principal com algumas casas modernas e confortáveis e um pequeno núcleo de casario antigo, mas a convivência por semanas com os primos e a "Feria del Pulpo", ou feira do polvo, prato principal servido em duas datas de agosto em todos os restaurantes de Xinzo de Limia, cidade mais próxima, marcaram para sempre em minha memória aquelas férias na Galícia. Alguns, os mais idosos como o primo de meu pai e a esposa, já não estão mais entre nós. Justamente eles que me hospedaram com tanto carinho e hospitalidade. Saudade, muita saudade...
Já se passaram 17 anos desde a última vez em que estive lá. Certamente, muita coisa mudou. Os primos, então adolescentes, que vivem em Barcelona já se casaram e têm filhos, mas, pelo que sei, muitos continuam se reunindo na Galícia no verão. É uma tradição da família!
Se Deus quiser, ainda apareço por lá nessa vida. Quanto aos que já se foram, esses eu tenho certeza que reencontrarei algum dia em outro plano.


domingo, 22 de março de 2020

Uma lição dolorosa.

Não deixa de ser curioso (e irônico) lembrar dos barcos repletos de refugiados africanos impedidos, nos últimos anos, de se aproximarem dos portos europeus por medo da "disseminação" da pobreza no continente.
Agora, uma ameaça invisível que também vem de longe invade os países mais ricos da Europa (e do mundo) sem reconhecer fronteiras, trazendo, além de mais pobreza, muito medo e a própria morte em escala assustadora. Se não praticamos a empatia e a solidariedade por bem, o destino se encarrega de nos dar a lição de uma forma bem mais dolorosa.


sábado, 15 de fevereiro de 2020

Jovens, envelheçam!


Costumo ter um carinho especial pelos jovens. Muitas vezes até os "invejo", não pela juventude em si, mas pelo longos anos que, em tese, ainda terão pela frente. Outras vezes, porém, confesso que me decepciono. 
Dias atrás, estive com um jovem querido (filho de amigos) com quem não conversava há bastante tempo e fiquei triste por vê-lo tão intolerante e presunçoso destilando preconceitos, principalmente em relação aos mais pobres ou menos educados. Além disso, cheio de certezas inabaláveis, revelou em nossa conversa um profundo desprezo pela opinião e pela experiência alheia. Naturalmente, pensa que já sabe tudo, o que me fez lembrar daquela famosa frase de Nélson Rodrigues:
- Jovens, envelheçam!!
Claro, não há garantia alguma de que o tempo e a idade nos tornarão seres humanos melhores, mas as "porradas" que levamos, ou as "perdas e ganhos" que a passagem dos anos nos proporciona, certamente podem aumentar as chances de termos um olhar mais generoso com o próximo e com a própria vida!


Os cinemas de sábado à noite!


Saudade do tempo em que as estreias de filmes como "Star Wars" eram aguardadas ansiosamente por multidões que faziam filas intermináveis nas portas dos cinemas (de rua) para assistir. Um tempo em que os filmes levavam anos para passar na TV. Não havia vídeo doméstico, inaugurado nos anos 80 com o finado formato VHS, e muito menos internet. Assistir a um filme no cinema, sozinho ou com a namorada, era um acontecimento social e cultural da maior importância. Nos subúrbios, era o ponto alto do fim de semana. Um evento que rivalizava com as festinhas na casa de amigos e com os bailes de "discoteca" nos clubes.
Lembro muito bem de quando assisti à estreia de "Os Embalos de Sábado à Noite" num cinema de Madureira, em 1978. A fila dava voltas no quarteirão, e ninguém arredava pé dali. Isso durou vários finais de semana porque poderia levar anos até que a televisão programasse a exibição. 
Enfim, eram tempos em que ir ao cinema era um grande acontecimento, um verdadeiro ritual, principalmente para as classes populares. Hoje, o filme nem estreou nos cinemas e tem gente que já assistiu na internet. Outros tempos!


Dúvidas e escolhas!


Quando vemos um jovem com dúvidas típicas da juventude (preferências, quem sou, o que vale a pena, o que quero da vida, onde quero chegar etc.), não temos muito o que dizer, afinal, não há mesmo respostas prontas para quase nada. Na verdade, para ser sincero (e dependendo do nível de presunção de cada um), estamos tão "perdidos" quanto eles. Vivemos o suficiente (ou não!) para saber que não há regras nem fórmulas matemáticas para viver plenamente, porque não há valores absolutos nem um caminho certo ou único para a realização ou para a felicidade. Cada um encontra o seu, do seu jeito e com seus próprios erros e acertos.
Alguém mais velho querer impor ao jovem sua trajetória de vida, com os mesmos receios e as mesmas escolhas, é pura falta de humildade e até mesmo de honestidade.


Os loucos anos 20 no Rio!


Bem-vindos os novos "Anos 20"! E que sejam tão inspiradores e auspiciosos como foram há 100 anos!!

Muito já se escreveu sobre os "loucos" anos 1920 em Paris. Ernest Hemingway, escritor americano que lá viveu no período, chegou a afirmar em seu livro de memórias "Paris é Uma Festa" que "se você teve a sorte de viver em Paris quando jovem, sua presença continuará a acompanhá-lo pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa ambulante”.
Hemingway, no entanto, não estava sozinho em sua reverência à capital francesa. No livro "Os Anos Loucos - Paris na década de 1920", o também escritor americano William Wiser nos oferece uma divertida e reveladora crônica sobre o período de efervescência cultural que reuniu em Paris personalidades ícones do século XX como Cole Porter, F. Scott Fitzgerald, Samuel Beckett, Josephine Baker, Ernest Hemingway, James Joice, Picasso, Coco Chanel e, claro, Ernest Hemingway, dentre outros.
Mas Ruy Castro, com seu livro recém-lançado "Metrópole à Beira-Mar", nos lembra que o Rio também foi palco de uma tremenda "festa" há 100 anos. Como informa a própria contracapa do livro, aqui viveram naquele período Adalgisa Nery, Adhemar Gonzaga, Bidu Sayão, Carlos Chagas, Carmen Miranda, Cecilia Meirelles, Di Cavalcanti, Francisco Alves, Ismael Nery, Ismael Silva, J. Carlos, João do Rio, Lima Barreto, Manuel Bandeira, Mario Reis, Orestes Barbosa, Pixinguinha, Procópio Ferreira, Ronald de Carvalho, Roquette-Pinto e Villa-Lobos. Dá pra imaginar essa gente toda se encontrando no "balneário"? 
Pois é, de alguma forma, todas essas personalidades contribuíram para forjar o caráter artístico, cultural e humano da cidade, conferindo ao povo carioca uma natureza singular que atravessa gerações. Para o bem e para o mal, é o que somos e por que somos.
Um livro, portanto, de leitura obrigatória. Pelo menos para os cariocas que ainda amam e se importam com a cidade.


Bem perto da perfeição!

Herbert von Karajan tinha uma virtude que para muitos era um defeito. Buscava incessantemente a perfeição. 
Eu nunca vi/ouvi uma performance chegar tão perto da perfeição como na abertura de "Tanhauser", de Richard Wagner, executada nesse concerto pela Orquestra Filarmônica de Berlim no já longínquo ano de 1975. É possível perceber que os músicos permanecem compenetrados e concentrados exclusivamente na partitura, não havendo lugar para desvios de olhar, gracejos ou distração de qualquer espécie. E ai daquele que se atrevesse a isso, já que a gravação fora dirigida pelo próprio maestro, que, controlador e exigente como era, certamente se ocuparia de supervisionar a edição. Como ele gravava "para a posteridade", imagina o nível de controle que exercia sobre tudo!
Merecidamente criticado por sua omissão e cumplicidade com os nazistas durante a II Guerra, Karajan, porém, encarnava aquilo que eu considero pré-requisito básico para qualquer maestro. Dedicação, disciplina e até reverência absolutas na abordagem de uma obra musical!


domingo, 15 de setembro de 2019

Rússia: um império em transformação

Após ler "As Últimas Testemunhas - crianças na segunda guerra mundial", de Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2015, que contém relatos comoventes de testemunhas das atrocidades cometidas pelos nazistas na ex-União Soviética, decidi descobrir com o livro "O Fim do Homem Soviético", da mesma autora, como a sociedade russa reagiu à queda do império soviético e à ascensão do capitalismo que se instalou no país a partir dos anos 1990.
Divididos entre saudosos de um tempo sem volta, acalentado principalmente pelos mais velhos, e desejosos de mais democracia e liberdade, os russos vêm escrevendo, nos últimos 30 anos, um novo capítulo de sua história rica e milenar.
Nas primeiras páginas já foi possível perceber o quanto foi traumática a transição "acidental" (ou sem planejamento) do socialismo para o capitalismo. Uma experiência dolorosa que provocou a divisão de um povo cuja trajetória de vida se confundia com a própria história do socialismo. Não estava em jogo apenas o destino das pessoas com a adoção do novo regime (capitalismo), mas também o que dava sentido à existência de um império orgulhoso de seu passado e de suas conquistas.
O livro revela que um dos maiores problemas da queda do socialismo foi que a adoção instantânea do capitalismo levou mais pobreza para grande parte de uma população que não estava acostumada a sobreviver por sua própria conta, esforço e risco. 
Enfim, não é possivel, de um dia (mês ou ano) para o outro, substituir uma experiência de 7 décadas de tutela do Estado por um novo sistema no qual a sobrevivência de cada um depende exclusivamente da iniciativa individual.
O livro traça um painel abrangente dos valores que forjaram o caráter de um povo que viveu por gerações em função de guerras e do orgulho patriótico. A desintegração do império soviético, nos anos 1990, provocou feridas profundas na vida nacional que certamente ainda não cicatrizaram.
A impressão que fica é que a experiência de 70 anos de comunismo criou raízes na alma do povo soviético de uma forma que o capitalismo que o sucedeu ainda não foi capaz de "arrancar". E será um dia?
Em resumo, há entre os russos um clima latente de saudosismo, associado ao sentimento de orgulho de já ter pertencido a um império temido e que agora se rende ao poder corrupto do dinheiro e da riqueza material. Um sentimento compartilhado também por boa parte da juventude.
E que ninguém se engane. A Rússia atual vive dias de incertezas e nem a liderança firme e autoritária de Putin demonstra ser capaz de pacificar um povo radicalmente dividido entre a herança gloriosa do passado socialista e a promessa de prosperidade e "felicidade" ainda não cumprida pelo capitalismo!