domingo, 17 de maio de 2020

Memórias de Paris.

"Champs Élysées" tomada por policiais e bandeiras da França. Foi assim que deixei Paris exatamente no dia 17 de maio de 1995, 25 anos atrás.
Naquela tarde ensolarada de primavera, depois de 3 dias visitando pela primeira vez a cidade, eu seguiria viagem para Stuttgart, na Alemanha. Saindo do Louvre em direção à Gare de L'est para pegar o trem, vislumbrei a mais famosa avenida de Paris em festa. Achei tudo muito bonito, mas não me dei conta do que estava acontecendo. Somente ao embarcar no trem e ocupar o meu lugar pude, finalmente, descobrir o motivo do clima festivo e colorido na cidade. Uma edição do "Le Monde" abandonada no assento ao lado estampava na capa a notícia da posse de Jacques Chirac como presidente da França justamente naquele dia.
Começava ali a trajetória de Chirac como líder máximo da França e também minha paixão por Paris, cidade que eu teria a oportunidade de visitar outras vezes no futuro. Certamente foi um dos dias mais memoráveis de minhas viagens ao velho continente.
Doces lembranças...

           

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Barcelona - Paris, 25 anos atrás!

14 de maio de 1995, domingo de GP da Espanha de F1 no circuito de Montmeló, juntinho de Barcelona. Depois de uma estada de quase uma semana, chegava o dia de me despedir dos primos espanhóis, que conheci justamente naquela viagem. 
Logo cedo, saí para o último passeio, combinando que voltaria ao meio-dia para o almoço de despedida. Mas cheguei um pouco atrasado porque Barcelona estava com vários bloqueios, incluindo o fechamento de algumas estações de metrô, o que me obrigou a pegar ônibus pela primeira (e única) vez na cidade. Tudo por conta da corrida de F1.
Após o almoço, conversamos bastante e tiramos algumas fotografias como lembrança do (re)encontro da família, passados mais de 60 anos. Em seguida, o primo Martin me levou à Estação de Sants, onde eu embarcaria para a França no final da tarde. O dia estava lindo (foto) e o desafio que se apresentava para os próximos dias era conhecer Paris sem falar uma única palavra de francês. Mas foi falando inglês que me livrei de dormir na rua logo na primeira noite. Essa é uma outra história que eu conto depois!
As boas recordações de Barcelona e dos primos espanhóis eu guardaria para sempre. Era o início de uma relação de amizade que se consolidou ao longo dos anos e da qual muito me orgulho até hoje. 
A convite dos primos, retornei à Espanha outras vezes para passar férias na Galícia, terra da minha saudosa avó Evangelina. Uma experiência que me permitiu reunir ricas impressões não só dos primos, mas também do povo espanhol e do próprio país, que aprendi a amar!



sábado, 9 de maio de 2020

Madrid - Barcelona, 25 anos atrás!!

Manhã de 09 de maio de 1995, exatamente 25 anos atrás!
Estação de Chamartin, em Madrid, procedente de Lisboa. Uma noite inteira dormindo numa cabine de trem com três estranhos, um chileno, um francês e um americano. Uma verdadeira babel! Claro, cheio de medo de ser roubado. Eram os primeiros dias de uma viagem que duraria 1 mês. Dormi abraçado à mochila e com os "travellers checks" (ainda em marcos alemães!) dentro da calça. Todo cuidado era pouco.
Dali, eu ainda faria uma conexão para Barcelona no "Talgo", o melhor trem espanhol da época, com previsão de 7 horas de viagem. Hoje, no AVE, o trem veloz, o trecho é percorrido em menos de 3 horas! Tomei o café da manhã no bar da estação, um sanduíche de queijo acompanhado de um delicioso chocolate quente e cremoso, e embarquei um pouco antes das 11h. Próxima parada, Barcelona, e para uma missão muito especial, conhecer os primos espanhóis!
Durante o percurso, desfrutando da paisagem do interior do país, fiquei pensando na responsabilidade de ser o primeiro brasileiro a visitar a família da Espanha após mais de 6 décadas. E sem saber falar espanhol ou catalão, um desafio e tanto para quem fazia a primeira viagem ao exterior e mal tinha saído do Rio.
O combinado é que a prima e o marido me pegariam na estação às 18h, horário previsto para a chegada, mas cabia a mim reconhecê-los por uma foto que enviaram (pelo correio!) meses antes. Foto que eu, "lesado", não levava comigo! Daria certo isso? 
A chegada a Barcelona reuniria mesmo muitas emoções, mas essa é uma outra história!




sexta-feira, 17 de abril de 2020

Beethoven, um gênio "compreendido"!

Nesse ano, o mundo da música comemora os 250 anos de nascimento de Beethoven. A efeméride seria lembrada com concertos programados pelas orquestras mais conceituadas de todos os continentes, mas a pandemia do novo coronavírus deve comprometer a maior parte dos eventos.
De todos os compositores eruditos cuja história de vida conheço, ao menos superficialmente, por meio de livros e filmes, Beethoven é aquele com o qual eu tenho a maior e mais profunda identificação. E isso não tem nada a ver com música ou com sua obra, mas sim com a trajetória de vida do compositor, com os obstáculos que enfrentou e a maneira como reagiu a tudo, nem sempre com conformismo ou resignação.
Intempestivo, irascível, intolerante, cruel, injusto! Ele foi tudo isso, mas guardava dentro de si um profundo amor pela espécie humana e sua jornada nesse mundo, embora, com escolhas equivocadas ou "impossíveis", infelizmente não tenha alcançado a tão desejada realização romântica.
A música de Beethoven é impregnada de todas essas contradições, revelando um homem, mais do que um artista, tragicamente incompreendido e deslocado em seu meio social e em seu tempo. Sua obra nada mais é do que um reflexo ou uma resposta, por vezes enfática, a uma experiência de vida atribulada de um homem que, com sua arte, soube como nenhum outro na história da música transformar obstáculos e limitações pessoais na mais sublime expressão do espírito humano.
É por tudo isso que "compreendo" e admiro Beethoven!

terça-feira, 14 de abril de 2020

Férias de verão na Galícia!

Saudade das férias na Galícia (Espanha), terra da minha saudosa avó Evangelina. Estive lá 4 vezes e sempre no verão, quando os primos espanhóis "fogem" do calor de Barcelona para desfrutar de algumas semanas no campo. Forxa, a aldeia onde nasceu minha avó, não passa de uma rua principal com algumas casas modernas e confortáveis e um pequeno núcleo de casario antigo, mas a convivência por semanas com os primos e a "Feria del Pulpo", ou feira do polvo, prato principal servido em duas datas de agosto em todos os restaurantes de Xinzo de Limia, cidade mais próxima, marcaram para sempre em minha memória aquelas férias na Galícia. Alguns, os mais idosos como o primo de meu pai e a esposa, já não estão mais entre nós. Justamente eles que me hospedaram com tanto carinho e hospitalidade. Saudade, muita saudade...
Já se passaram 17 anos desde a última vez em que estive lá. Certamente, muita coisa mudou. Os primos, então adolescentes, que vivem em Barcelona já se casaram e têm filhos, mas, pelo que sei, muitos continuam se reunindo na Galícia no verão. É uma tradição da família!
Se Deus quiser, ainda apareço por lá nessa vida. Quanto aos que já se foram, esses eu tenho certeza que reencontrarei algum dia em outro plano.


domingo, 22 de março de 2020

Uma lição dolorosa.

Não deixa de ser curioso (e irônico) lembrar dos barcos repletos de refugiados africanos impedidos, nos últimos anos, de se aproximarem dos portos europeus por medo da "disseminação" da pobreza no continente.
Agora, uma ameaça invisível que também vem de longe invade os países mais ricos da Europa (e do mundo) sem reconhecer fronteiras, trazendo, além de mais pobreza, muito medo e a própria morte em escala assustadora. Se não praticamos a empatia e a solidariedade por bem, o destino se encarrega de nos dar a lição de uma forma bem mais dolorosa.


sábado, 15 de fevereiro de 2020

Jovens, envelheçam!


Costumo ter um carinho especial pelos jovens. Muitas vezes até os "invejo", não pela juventude em si, mas pelo longos anos que, em tese, ainda terão pela frente. Outras vezes, porém, confesso que me decepciono. 
Dias atrás, estive com um jovem querido (filho de amigos) com quem não conversava há bastante tempo e fiquei triste por vê-lo tão intolerante e presunçoso destilando preconceitos, principalmente em relação aos mais pobres ou menos educados. Além disso, cheio de certezas inabaláveis, revelou em nossa conversa um profundo desprezo pela opinião e pela experiência alheia. Naturalmente, pensa que já sabe tudo, o que me fez lembrar daquela famosa frase de Nélson Rodrigues:
- Jovens, envelheçam!!
Claro, não há garantia alguma de que o tempo e a idade nos tornarão seres humanos melhores, mas as "porradas" que levamos, ou as "perdas e ganhos" que a passagem dos anos nos proporciona, certamente podem aumentar as chances de termos um olhar mais generoso com o próximo e com a própria vida!


Os cinemas de sábado à noite!


Saudade do tempo em que as estreias de filmes como "Star Wars" eram aguardadas ansiosamente por multidões que faziam filas intermináveis nas portas dos cinemas (de rua) para assistir. Um tempo em que os filmes levavam anos para passar na TV. Não havia vídeo doméstico, inaugurado nos anos 80 com o finado formato VHS, e muito menos internet. Assistir a um filme no cinema, sozinho ou com a namorada, era um acontecimento social e cultural da maior importância. Nos subúrbios, era o ponto alto do fim de semana. Um evento que rivalizava com as festinhas na casa de amigos e com os bailes de "discoteca" nos clubes.
Lembro muito bem de quando assisti à estreia de "Os Embalos de Sábado à Noite" num cinema de Madureira, em 1978. A fila dava voltas no quarteirão, e ninguém arredava pé dali. Isso durou vários finais de semana porque poderia levar anos até que a televisão programasse a exibição. 
Enfim, eram tempos em que ir ao cinema era um grande acontecimento, um verdadeiro ritual, principalmente para as classes populares. Hoje, o filme nem estreou nos cinemas e tem gente que já assistiu na internet. Outros tempos!


Dúvidas e escolhas!


Quando vemos um jovem com dúvidas típicas da juventude (preferências, quem sou, o que vale a pena, o que quero da vida, onde quero chegar etc.), não temos muito o que dizer, afinal, não há mesmo respostas prontas para quase nada. Na verdade, para ser sincero (e dependendo do nível de presunção de cada um), estamos tão "perdidos" quanto eles. Vivemos o suficiente (ou não!) para saber que não há regras nem fórmulas matemáticas para viver plenamente, porque não há valores absolutos nem um caminho certo ou único para a realização ou para a felicidade. Cada um encontra o seu, do seu jeito e com seus próprios erros e acertos.
Alguém mais velho querer impor ao jovem sua trajetória de vida, com os mesmos receios e as mesmas escolhas, é pura falta de humildade e até mesmo de honestidade.


Os loucos anos 20 no Rio!


Bem-vindos os novos "Anos 20"! E que sejam tão inspiradores e auspiciosos como foram há 100 anos!!

Muito já se escreveu sobre os "loucos" anos 1920 em Paris. Ernest Hemingway, escritor americano que lá viveu no período, chegou a afirmar em seu livro de memórias "Paris é Uma Festa" que "se você teve a sorte de viver em Paris quando jovem, sua presença continuará a acompanhá-lo pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa ambulante”.
Hemingway, no entanto, não estava sozinho em sua reverência à capital francesa. No livro "Os Anos Loucos - Paris na década de 1920", o também escritor americano William Wiser nos oferece uma divertida e reveladora crônica sobre o período de efervescência cultural que reuniu em Paris personalidades ícones do século XX como Cole Porter, F. Scott Fitzgerald, Samuel Beckett, Josephine Baker, Ernest Hemingway, James Joice, Picasso, Coco Chanel e, claro, Ernest Hemingway, dentre outros.
Mas Ruy Castro, com seu livro recém-lançado "Metrópole à Beira-Mar", nos lembra que o Rio também foi palco de uma tremenda "festa" há 100 anos. Como informa a própria contracapa do livro, aqui viveram naquele período Adalgisa Nery, Adhemar Gonzaga, Bidu Sayão, Carlos Chagas, Carmen Miranda, Cecilia Meirelles, Di Cavalcanti, Francisco Alves, Ismael Nery, Ismael Silva, J. Carlos, João do Rio, Lima Barreto, Manuel Bandeira, Mario Reis, Orestes Barbosa, Pixinguinha, Procópio Ferreira, Ronald de Carvalho, Roquette-Pinto e Villa-Lobos. Dá pra imaginar essa gente toda se encontrando no "balneário"? 
Pois é, de alguma forma, todas essas personalidades contribuíram para forjar o caráter artístico, cultural e humano da cidade, conferindo ao povo carioca uma natureza singular que atravessa gerações. Para o bem e para o mal, é o que somos e por que somos.
Um livro, portanto, de leitura obrigatória. Pelo menos para os cariocas que ainda amam e se importam com a cidade.


Bem perto da perfeição!

Herbert von Karajan tinha uma virtude que para muitos era um defeito. Buscava incessantemente a perfeição. 
Eu nunca vi/ouvi uma performance chegar tão perto da perfeição como na abertura de "Tanhauser", de Richard Wagner, executada nesse concerto pela Orquestra Filarmônica de Berlim no já longínquo ano de 1975. É possível perceber que os músicos permanecem compenetrados e concentrados exclusivamente na partitura, não havendo lugar para desvios de olhar, gracejos ou distração de qualquer espécie. E ai daquele que se atrevesse a isso, já que a gravação fora dirigida pelo próprio maestro, que, controlador e exigente como era, certamente se ocuparia de supervisionar a edição. Como ele gravava "para a posteridade", imagina o nível de controle que exercia sobre tudo!
Merecidamente criticado por sua omissão e cumplicidade com os nazistas durante a II Guerra, Karajan, porém, encarnava aquilo que eu considero pré-requisito básico para qualquer maestro. Dedicação, disciplina e até reverência absolutas na abordagem de uma obra musical!


domingo, 15 de setembro de 2019

Rússia: um império em transformação

Após ler "As Últimas Testemunhas - crianças na segunda guerra mundial", de Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2015, que contém relatos comoventes de testemunhas das atrocidades cometidas pelos nazistas na ex-União Soviética, decidi descobrir com o livro "O Fim do Homem Soviético", da mesma autora, como a sociedade russa reagiu à queda do império soviético e à ascensão do capitalismo que se instalou no país a partir dos anos 1990.
Divididos entre saudosos de um tempo sem volta, acalentado principalmente pelos mais velhos, e desejosos de mais democracia e liberdade, os russos vêm escrevendo, nos últimos 30 anos, um novo capítulo de sua história rica e milenar.
Nas primeiras páginas já foi possível perceber o quanto foi traumática a transição "acidental" (ou sem planejamento) do socialismo para o capitalismo. Uma experiência dolorosa que provocou a divisão de um povo cuja trajetória de vida se confundia com a própria história do socialismo. Não estava em jogo apenas o destino das pessoas com a adoção do novo regime (capitalismo), mas também o que dava sentido à existência de um império orgulhoso de seu passado e de suas conquistas.
O livro revela que um dos maiores problemas da queda do socialismo foi que a adoção instantânea do capitalismo levou mais pobreza para grande parte de uma população que não estava acostumada a sobreviver por sua própria conta, esforço e risco. 
Enfim, não é possivel, de um dia (mês ou ano) para o outro, substituir uma experiência de 7 décadas de tutela do Estado por um novo sistema no qual a sobrevivência de cada um depende exclusivamente da iniciativa individual.
O livro traça um painel abrangente dos valores que forjaram o caráter de um povo que viveu por gerações em função de guerras e do orgulho patriótico. A desintegração do império soviético, nos anos 1990, provocou feridas profundas na vida nacional que certamente ainda não cicatrizaram.
A impressão que fica é que a experiência de 70 anos de comunismo criou raízes na alma do povo soviético de uma forma que o capitalismo que o sucedeu ainda não foi capaz de "arrancar". E será um dia?
Em resumo, há entre os russos um clima latente de saudosismo, associado ao sentimento de orgulho de já ter pertencido a um império temido e que agora se rende ao poder corrupto do dinheiro e da riqueza material. Um sentimento compartilhado também por boa parte da juventude.
E que ninguém se engane. A Rússia atual vive dias de incertezas e nem a liderança firme e autoritária de Putin demonstra ser capaz de pacificar um povo radicalmente dividido entre a herança gloriosa do passado socialista e a promessa de prosperidade e "felicidade" ainda não cumprida pelo capitalismo!


domingo, 16 de setembro de 2018

A cantata "erótica" de Carl Orff


"Carmina Burana", aclamada cantata (ou oratório) baseada em textos medievais de conotação erótica, é a obra mais popular do compositor alemão Carl Orff (1895-1982). E a fama não é gratuita. A singular combinação dos naipes da orquestra, com destaque para os metais e a percussão, aliada a 3 coros (masculino, feminino e infantil), confere à composição uma sonoridade que chega até a ser hipnótica. 
Em síntese, o que os textos profanos da cantata propõem é uma espécie de parábola sobre o papel da boa ou má "fortuna" (sorte) na vida humana, determinando o destino de cada um de nós.
O fato é que disponho de 6 gravações da obra com orquestras diferentes (uma somente com canções e instrumentos medievais originais), e minha preferida era, até hoje, a de Seiji Ozawa regendo a Orquestra Filarmônica de Berlim. Surpreendentemente, depois de tanto tempo, mudei de ideia ao ouvir agora há pouco a gravação com a Royal Philharmonic Orchestra, de Londres, conduzida por Richard Cooke, que oferece um andamento mais lento e aparentemente mais adequado à obra. O curioso é que não me lembro de já ter acontecido isso comigo. Habitualmente, sou conservador e estabeleço como padrão a performance que ouço pela primeira vez (claro, quando se trata de gravação com orquestra e regente qualificados), em detrimento de qualquer outra ouvida mais tarde. Dessa vez, para minha surpresa, gostei mais da que ouvi hoje, quase 40 anos depois de ouvir a gravação com Seiji Ozawa. Literalmente, vivendo e aprendendo, afinal, sempre é possível ampliar os horizontes (e mudar de ideia!).
Cabe registrar que, em 2006, por ocasião da realização da Copa do Mundo na Alemanha, visitei Andechs, a cidadezinha onde se encontra o mosteiro que conserva o túmulo de Carl Orff, o autor da obra, estreada em 1937. Fica pertinho de Munique e vale uma esticada até lá para conhecer um típico e simpático vilarejo do interior da Baviera, que conta também com uma famosa cervejaria, mantida há séculos por monges de um mosteiro da região. Mas essa é uma outra história.


40 anos da "Varèse" e o mercado de trilhas sonoras no Brasil


Reminiscência...

Em 2003, encomendei no exterior esse cd quádruplo, comemorativo do aniversário de 25 anos da "Varese Sarabande", gravadora americana especializada em trilhas sonoras que dispõe do maior catálogo de obras do gênero.
Lá se foram 15 anos e a gravadora continua firme e forte no mercado, com títulos raros (novos e reeditados), para deleite dos amantes de scores de filmes. 
Infelizmente, embora esteja subordinada, desde fevereiro desse ano, à Universal Music, que atua no Brasil, nenhum título da "Varese" é lançado no mercado nacional há décadas, o que só ocorreu nos anos 80, na verdadeira "época de ouro" desse mercado no país. 
Bons tempos em que eu entrava na Mesbla, na Modern Sound, na Gramophone, na Bilboard, na Moto Discos, na Breno Rossi ou na Gabriela Discos e encontrava uma bancada imensa com LPs de trilhas sonoras de filmes recém-lançados nos cinemas do Rio.

domingo, 3 de junho de 2018

Imprensa e diversidade


Nos últimos anos, tenho visto uma geração inteira de novos jornalistas com graves deficiências conceituais relativas ao papel social do jornalismo e a noções elementares de ética profissional.
Não faz muito tempo, e não sei se há aqui uma necessária relação de causa e efeito, tivemos a decisão do STF dispensando a formação acadêmica (ou a graduação) para o exercício da função. 
O fato é que, acompanhando o trabalho da imprensa, não por ofício, mas por hábito mesmo, percebo, de maneira geral, um desconhecimento gritante dos princípios básicos da atividade, revelando uma prática profissional que se aproxima perigosamente da militância política e da defesa de interesses privados (leia-se patrões!) na cobertura dos acontecimentos, em detrimento de uma postura mais equilibrada que contemple a diversidade de opiniões.
Por tudo isso, penso que a imprensa brasileira precisa urgentemente se reinventar para voltar a desfrutar de um mínimo de credibilidade com a população. E voltar a desempenhar seu papel fundamental na consolidação da democracia em nosso país e na própria formação da cidadania dos brasileiros.


quarta-feira, 23 de maio de 2018

Terapia em grupo

Desgraçadamente (não consigo encontrar um termo mais apropriado), a realização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, duas oportunidades de ouro (e raras) para um país, uma nação, um povo, independentemente dos resultados esportivos, elevar sua autoestima a níveis sem precedentes, serviu para provocar nos brasileiros um profundo e incontido sentimento de impotência e humilhação. E não faço menção ao "7 a 1" da Copa do Mundo. Antes, nossa maior vergonha se resumisse a isso.
Refiro-me ao escândalo das obras superfaturadas para a realização dos eventos, à construção de estádios desnecessários a custos milionários e às obras de infraestrutura nas cidades-sede, inacabadas até hoje em 11 das 12 capitais. Tudo isso promovido por políticos corruptos, alguns já na cadeia, com prejuízos incalculáveis para os cofres públicos. 
Hoje, é impossível identificar um único vestígio de legado urbano, esportivo ou social para os brasileiros. Uma lástima e um fracasso talvez sem igual entre os países que já sediaram esses eventos. Pelo contrário, o que se noticia ultimamente são sérias acusações de compra de votos para sediar a Olimpíada no Rio, envolvendo as mais altas autoridades políticas e esportivas do país.
Conclusão, com tudo isso, a menos de 1 mês da Copa do Mundo da Rússia, a despeito do "esforço" publicitário nos meios de comunicação, no Rio de Janeiro, o único sinal da proximidade do evento é a troca de figurinhas do "álbum da Copa", principalmente por crianças e adolescentes. Ao contrário das edições anteriores da Copa do Mundo (e não só da realizada no Brasil), o povo carioca vem revelando pouco entusiasmo com a seleção e com o evento, o que se reflete na ausência do assunto nas conversas em geral e também na falta de decoração nas ruas e avenidas, uma "tradição" da cidade que não se repete esse ano.
Resumo da ópera, os brasileiros, e não só os cariocas, encontram-se num estado de "letargia" que não se coaduna com o temperamento festivo, confiante e extrovertido do povo. Além de melhores votos nas eleições de outubro, talvez estejamos todos necessitando mesmo é de uma boa terapia! Será que dá pra fazer em grupo?


segunda-feira, 7 de maio de 2018

Aaron Copland e o instrumento dos deuses

De Aaron Copland, compositor e teórico musical americano que se tornou uma verdadeira lenda no século XX, em seu livro "Como Ouvir e Entender Música", publicado originalmente em 1939:

"A trompa tem um timbre maravilhosamente redondo - suave, acariciante, quase líquido. Tocada em sua maior intensidade, tem uma qualidade majestosamente metálica que é o oposto do seu timbre mais suave. Se existe um som mais nobre do que o de oito trompas em fortíssimo cantando uma melodia em uníssono, eu nunca ouvi esse som. Outra sonoridade expressiva a ser obtida da trompa é a que resulta do emprego da surdina, que às vezes é produzida colocando-se a mão na boca do instrumento. Consegue-se então um som sufocado e áspero que ao ser intensificado transforma-se em algo de extraterreno, que parece vir, com efeitos mágicos, de um lugar distante".

Em outras palavras, mais sucintas, eu diria (como já disse várias vezes) que a trompa é o instrumento dos deuses! 
Dizem até que é o instrumento de orquestra mais difícil de tocar. Nem poderia ser diferente, afinal, deuses não costumam se contentar com pouco!


Perdi o trem

Meu amigo João Cantiber, músico de carteirinha, vive se referindo a mim como "maestro", até para me apresentar a outros amigos. Uma gentileza em alusão ao meu "amor" pela música. Mas acho que há mesmo alguma "verdade" nisso. Não sou maestro, claro, até porque nunca estudei ou "pratiquei" música, mas a paixão que tenho pela música orquestral me faz concluir que, se não sou maestro, deveria ter sido! 
Dizem que vocação é chamamento; é algo para o qual nascemos e nos sentimos impelidos a buscar, a seguir, a explorar, custe o que custar. Depois de uma vida inteira ouvindo música "obsessivamente" quase todos os dias, só agora estou convencido de que minha verdadeira vocação é e sempre foi a música orquestral. Não como intérprete, tocando um instrumento, porque esse nunca foi o meu desejo, mas regendo as obras na tentativa de dar vida e voz ao pensamento musical do compositor. Essa é a minha paixão e também, agora eu sei, minha grande frustração na vida. Não dei ouvidos ao chamamento, à vocação, e hoje, beirando a terceira idade, por comodismo ou mesmo covardia, vejo que desprezei tudo isso. Enfim, o trem passou e deixei de embarcar para aquela que deveria ser a maior e melhor viagem da minha vida.


Linguagem universal

É curioso como a música "fala" para todos, independentemente de credo, etnia, cultura ou nacionalidade. Isso é o que faz dessa arte a mais "ecumênica" e agregadora criação do homem (ou de Deus). É uma linguagem universal que pode ser compreendida por qualquer ser humano, esteja onde estiver, tenha a origem que tiver. 
Por isso, nada aproxima mais os seres humanos do que a música, daí que a construção de um futuro comum e harmonioso em nossa civilização (em crise) passa necessariamente pela constante valorização da música na educação de crianças e jovens.
E se há acertos no filme "Contatos Imediatos do 3º Grau", de Steven Spielberg, o principal deles é justamente a maneira com que se estabelece a comunicação dos humanos com os alienígenas. Aquelas já famosas 5 notas compostas por John Williams. Genial!


Sibelius por Bernstein

Já tenho 4 gravações da belíssima Quinta Sinfonia de Sibelius, duas em cd, uma em blu-ray e outra que "salvei" do YouTube, filmada em preto e branco, em 1966, sob a regência de Leonard Bernstein. Nela, a melhor de todas, apesar de "mono", o lendário maestro americano, com sua maneira emotiva e reverente de tratar a obra, não se limita a conduzir a orquestra na execução "correta" da música. Com um gestual que reflete profundo envolvimento com a sinfonia, ele vai mais longe, dando a impressão de "incorporar" o autor, transmitindo assim a verdadeira essência da obra. 
Enfim, assistir às performances de Bernstein é ter a oportunidade de conhecer as obras numa dimensão única e inconfundível que, talvez, só o compositor pudesse revelar.