sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Arte e virtude!

Em que medida uma obra artística adquire vida e qualidade própria, podendo (ou devendo) ser apreciada independentemente do caráter ou das virtudes pessoais do autor?
Wagner, um gênio da música, era declaradamente racista e antissemita, mas suas óperas são quase todas reconhecidas como obras-primas revolucionárias.
O próprio Beethoven, para ficar com a guarda do sobrinho, não hesitou em destruir a reputação da cunhada, num processo longo e doloroso, principalmente para o rapaz, que tentou o suicídio por não suportar a enorme pressão do tio possessivo.
Não faltam exemplos na história de artistas geniais de caráter "duvidoso". Afinal, arte e virtude devem caminhar juntas?


Pepe e Vila Isabel, um tardio caso de amor!


Na foto, Pepe (meu pai), ao lado de Martinho da Vila e de outros integrantes da Vila Isabel, pouco antes da entrada da escola na avenida. Ele passava o ano inteiro esperando por esse momento.
O amor pela "Vila" foi despertado quando mudamos para o bairro, há 40 anos, e só aumentou com o passar do tempo.
O ingresso na ala de compositores e, em seguida, no seleto grupo de beneméritos da escola não demorou muito. Pepe compunha fácil e até de madrugada. Precavido, já dormia com o gravador estrategicamente colocado ao lado da cama, na mesinha de cabeceira. Quando a inspiração surgia no meio da noite, acendia a luz, escrevia os versos e gravava tudo.
Em pouco tempo, passou a competir para a escolha do samba-enredo da escola, chegando à final por duas vezes. Não teve a chance, porém, de realizar o sonho de ouvir seu samba cantado na avenida.
Ao morrer, em maio de 2013, deixou um caderno com centenas de sambas. Um legado de valor apenas afetivo para a família, mas guardado com muito carinho.
Pepe, ou "Sombra da Vila", como gostava de ser chamado, ainda que modestamente, escreveu seu nome na história da tradicional escola do bairro de Noel Rosa, seu maior ídolo, homenageado em vários sambas que compôs.

Alô, alô, Edmo!

Entrevista com meu falecido irmão, Edmo Luís, na revista "Minha Novela", de 2008.
A paixão do Edmo era a "telinha", onde atuou em novelas e séries, quase sempre em papéis secundários, mas, com uma bela voz, fez meteórica carreira como locutor e dublador.
Nos anos 1980, famoso com o sucesso dos programas de rádio que comandava, era frequentemente contratado para a abertura de shows de vários ídolos populares. Certa vez, chegou a reunir uma multidão de fãs nos gramados da Quinta da Boa Vista, todos ouvintes fiéis de seus programas românticos nas rádios cariocas.
Edmo, que nos deixou muito cedo, com 60 anos, foi uma das pessoas mais determinadas e autoconfiantes que conheci. Uma trajetória de vida verdadeiramente inspiradora!


Descobrindo Béla Bartók!


Como eu pude passar a vida inteira ouvindo música clássica sem conhecer Béla Bartók (1881-1945)? Imperdoável!!
"Music for Strings, Percussion and Celesta" pode ser considerada uma das melhores composições "eruditas" dos últimos 100 anos. É certamente uma das obras-primas do compositor. Uma outra, "Concert for Orchestra", felizmente também integra o cd (foto).
Um livro que comprei num sebo nos últimos dias (foto) é que me apresentou a Bartók. O cd eu encontrei em seguida, já "orientado" pelo livro. Adoro e aprendo muito com essas "garimpagens". Passei décadas fazendo isso. Assim como as viagens, combinam prazer e conhecimento como poucas coisas na vida!
Por fim, e apenas como curiosidade já que nada disso realmente tem preço, o livro custou 10 reais e o cd, módicos 3 reais!

Kleiber incomparável!


Segundo muitos especialistas (ou "sabidões", como diz o meu amigo alemão), sob o ponto de vista artístico ou musical, esse cd contém a melhor gravação da 5a. sinfonia de Beethoven. Convenhamos, isso é muito subjetivo, mas não deve estar longe da verdade.
Kleiber não gravou todas as 9 sinfonias de Beethoven. A "Nona", por exemplo, hoje a mais popular, não consta de sua discografia; nem a revolucionária "terceira" (a "Heróica"), outra obra obrigatória na carreira de qualquer regente que se preze.
O repertório reduzido frustrava os fãs e incomodava a indústria fonográfica, mas isso também faz parte do legado de Kleiber.
O cd, claro, eu guardo a sete chaves!

Haydn em Londres

Ótima gravação, com direito a belíssimo livreto ilustrado, das duas últimas sinfonias compostas por Haydn na corte do príncipe Eszterhazy, localizada na aprazível Eisenstadt (que visitei em 2017), próxima de Viena. Em 1791, ano da morte de Mozart, o compositor se transferiu para Londres, onde recebeu excelente acolhida e compôs suas 12 últimas sinfonias, chamadas apropriadamente de "londrinas".
Depois de duas estadas no período de 4 anos na Inglaterra, Haydn retornou definitivamente a Viena em 1795 e lá ainda compôs, além de missas e quartetos de cordas, os oratórios "A Criação" e "As Estações", as derradeiras obras-primas de uma longa, brilhante e profícua carreira.
Em tempo, o cd, em estado de novo e intocado, encontrei essa semana num sebo da Saens Pena. É o que resta no Rio, além da excelente loja "Arquivo Musical", no Centro, para os apreciadores desse gênero musical.


A resposta de Schubert!


Aos 29 anos, perto do final da vida (morreu muito jovem, com 31!), embora já tivesse composto pelo menos 6 sinfonias completas, Franz Schubert (1797-1828) entendia que faltava-lhe criar uma obra extensa que pudesse rivalizar com as grandes sinfonias de Beethoven. A "Nona", também denominada "A Grande", é a resposta que desejava dar a si mesmo e aos contemporâneos. E o resultado está à altura do "desafio"! É uma obra bem-sucedida que ocupa espaço nobre no repertório sinfônico.
A performance da Filarmônica de Viena, sob a regência do saudoso George Solti (1912-1997), é antológica. Um cd precioso!

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Entre Deus e todos nós!

 


Como comenta um amigo de Carlos Kleiber (1930-2004) no documentário "Estou perdido para o mundo", em termos de música, o maestro teria sido o melhor mediador entre Deus e a humanidade. Para quem já ouviu ou assistiu Kleiber, faz sentido, muito sentido! 
Pena que o artista tenha terminado seus dias solitário e melancólico. Em dezembro de 2003, ao perder sua companheira de décadas e descobrir um câncer de próstata, caiu em profunda depressão. Meses depois, se isolou em Konjsiva, uma aldeia nas montanhas da Eslovênia, onde veio a falecer em julho de 2004.
O casal repousa agora (lado a lado) no cemitério da pequena propriedade eslovena, como revela a comovente cena final do documentário.
Triste fim para um homem singular e um artista extraordinário que jamais se rendeu à indústria fonográfica. Sem fazer concessões, só regeu quando quis e as obras que apreciava. E não foram muitas. Era certamente a antítese de Karajan, a própria personificação da indústria. Talvez por isso mesmo tenha virado lenda!

A difícil gestação de uma obra-prima!

 


Faltava ler essa tradução elogiadíssima de Caetano W. Galindo para "Dublinenses", minha obra favorita de James Joyce.
Com pouco mais de 20 anos, o escritor descreve em 15 belíssimos contos e com precoce maturidade as inquietações de típicos personagens (crianças, jovens e idosos) de Dublin, sua cidade natal, no início do século XX.
Para publicar a obra, Joyce enfrentou uma "via crucis". Após sofrer críticas até do pai, cogitou excluir um dos contos (Um Encontro), empenhou relógio e contratou advogados na tentativa de ver o livro publicado, o que só ocorreu dois anos depois de concluído. Um ano mais tarde, só 379 exemplares haviam sido vendidos, 120 dos quais comprados pelo próprio Joyce.
Mas a obra sobreviveu, atravessando gerações e encantando leitores de várias nacionalidades e culturas.

Entre a vocação autoritária e o anseio democrático.

 


Acabei de assistir, no canal "Curta!", ao documentário "Os Anos JK: Uma Trajetória Política".
Sinceramente, o que mais me entristece e envergonha no nosso país, na verdade, como brasileiro mesmo, não é nem a corrupção sistêmica, um "câncer" que corrói a confiança do povo nas instituições e nos poderes constituídos, mas a falta de tradição democrática, uma constatação óbvia ao estudar a história do Brasil nos últimos 200 anos.
Somos uma nação rica em recursos naturais e com uma extraordinária diversidade humana, uma rara combinação que nos confere um potencial enorme de produção de riquezas e de desenvolvimento econômico e social. Mas a vocação autoritária é uma praga que nos persegue por gerações. As ameaças ao Estado de Direito e à ordem democrática são frequentes ao longo da história, isso quando não estamos já mergulhados em regimes autoritários como foi no Estado Novo, de Getúlio, nos anos 1930, e na ditadura militar, entre 1964 e 1985.
Sempre que avançamos um pouco na tentativa de consolidação de um regime democrático, nossa vocação para o autoritarismo se manifesta em defesa do arbítrio e do retrocesso, como vimos emblematicamente no último dia 7 de setembro.
O estabelecimento de um Estado Democrático de Direito é, portanto, uma luta diária e também um enorme desafio que atravessa gerações no Brasil.
Parece que estamos definitivamente condenados a uma eterna luta entre a vocação autoritária e o anseio democrático.

Stefan Zweig, um homem à frente do seu tempo!

 

Em 1941, em sua passagem pelo Rio de Janeiro, Stefan Zweig sugeriu a Lasar Segall, pintor que conheceu em São Paulo, "uma representação de toda a tragédia dos refugiados de hoje", certamente se referindo às vítimas da guerra em curso na Europa.
Na ocasião, Lasar estava justamente terminando "Navio de Emigrantes" e lhe enviou uma fotografia do quadro. Zweig, então, respondeu: "há nele uma síntese visionária da miséria contemporânea."
Há 80 anos, Zweig já chamava a atenção para o problema dos refugiados originários de regiões conflagradas, crises migratórias que se tornam cada vez mais frequentes num mundo globalizado que elimina fronteiras para o fluxo de produtos e mercadorias, mas que resiste à circulação de pessoas. 

Amor e ódio, vício e virtude!

 

"Da Alemanha", publicado no início do séc. XIX pela francesa Madame de Staël (1766-1817), é uma verdadeira declaração de amor à Alemanha, o que provocou, à epoca, um êxodo da intelectualidade do continente em direção ao país.
O efeito foi tão "devastador" (também por conter críticas à cultura francesa) que levou Napoleão a proibir o livro e a queimar toda a primeira edição.
Quando li trechos na livraria, encontrei uma descrição (ou impressão) da Alemanha que casa perfeitamente com o que sinto desde minha primeira visita ao país e que jamais li em qualquer outro livro ou guia turístico.
Na obra, escrita há mais de 200 anos, Staël já afirmava que faz parte do caráter alemão encarar o cumprimento de uma ordem como um dever.
Isso explica Hitler quase 150 anos depois? Muito provavelmente, mas também o sucesso do país, "reconstruído" em poucas décadas à base de um rigoroso respeito às regras e de muita organização.
Assim como acontece com cada um de nós, as nações, para o bem e para o mal, também colhem os frutos de seus vícios e virtudes.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Afeganistão, uma terra "indomável"!

 

Esse livro da premiada escritora russa Svetlana Aleksiévitch, Nobel de Literatura de 2015, contém relatos comoventes de sobreviventes, inclusive afegãos, da guerra soviética-afegã ocorrida entre 1979 e 1989.
Publicado em 1991, apenas 2 anos após o fim do conflito, o livro provocou controvérsia na Rússia por seu testemunho honesto sobre a realidade da guerra e a vulnerabilidade do país numa operação originalmente destinada à "manutenção da paz".
O título "Meninos de Zinco" é uma referência às legiões de jovens soldados mortos e enviados para casa em caixões de zinco.
Uma leitura indispensável para compreender o contexto em que se deu a ocupação norte-americana no Afeganistão por 20 anos e os últimos acontecimentos relativos à retirada das tropas ocidentais do país asiático.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Carl Nielsen, uma revelação!

 

O compositor dinamarquês Carl Nielsen adquiriu fama mundial por sua música instrumental, em especial as 6 sinfonias, mas Nielsen é conhecido (e reverenciado) em seu país também por suas belas canções compostas para solistas e coro, obras baseadas em antigas tradições dinamarquesas que se tornaram parte da identidade cultural do país, assim como o próprio compositor.
Patrocinado pela Biblioteca Real da Dinamarca, esse cd (The Unknown Carl Nielsen) oferece justamente a primeira gravação de 26 dessas canções, que evocam a "alma" e a cultura do povo dinamarquês, todas traduzidas para o inglês.
O título do cd naturalmente se refere ao repertório de Nielsen pouco executado fora da Dinamarca. É uma pena!

Nos tempos de um estadista!

 

Com D. Pedro, conquistamos a independência de Portugal, mas foi com seu filho, D. Pedro II, que o Brasil viveria seus melhores dias no período do império, incluindo o fim "oficial", ainda que tardio e "incipiente", da escravatura.
Grande líder político, humanista e defensor das ciências e das artes, D. Pedro II se revelou um verdadeiro estadista, respeitado por artistas, intelectuais e cientistas do mundo inteiro.
Ele viajou por quase toda a Europa, falava 17 idiomas e, estudioso, tinha interesse por todas as áreas de conhecimento. Fez uso dessa erudição em benefício do país, criando instituições públicas que prestam até hoje inestimáveis serviços à nação.
Reconhecido pelo exemplo de liderança e legado humanitário, viveu os últimos anos exilado em Paris, onde faleceu e teve um funeral com merecidas honras de Chefe de Estado.
Espero que essa nova novela da Globo, que retrata justamente o período de reinado de D. Pedro II, revele para as novas gerações ao menos uma fração, ainda que pequena, da enorme contribuição do imperador, certamente o maior (ou talvez único) estadista que esse país já conheceu.
Vale dizer que não tenho a menor simpatia por monarquias, um anacronismo que persiste no mundo, embora reconheça o papel de reis e rainhas na sustentação de algumas monarquias modernas.
Na verdade, sou republicano até a alma. Entendo que todos devam ser iguais perante a lei, ou a Constituição, um compromisso inarredável de qualquer sociedade que se considere verdadeiramente democrática no nosso tempo.

Um Oscar para melhor orquestração!

 

O segredo por trás de algumas das mais belas trilhas sonoras compostas por Danny Elfman está em Steve Bartek, orquestrador dos scores de "Batman" (1 e 2), "Edward, Mãos de Tesoura", "Homem-Aranha" (1 e 2) e muitos outros.
Confesso que às vezes não sei onde termina a inspiração de Elfman e começa a arte de Bartek, talvez o mais brilhante orquestrador de Hollywood nas últimas décadas.
Steve Bartek foi guitarrista da banda de rock californiana "Oingo Boingo", de onde saiu também Elfman antes de se dedicar definitivamente aos scores de filmes.
Com seus pares, certamente Bartek desfruta do merecido reconhecimento, mas penso que ainda falta aos produtores e à Academia de Cinema de Hollywood conferir aos orquestradores o devido destaque na promoção dos filmes e das trilhas sonoras. Nesse sentido, a inclusão da categoria de "melhor orquestrador" na entrega anual do Oscar já seria uma boa e justa medida.
Depois de ouvir scores de filmes por mais de 4 décadas, estou convencido de que alguns desses profissionais podem e devem ser considerados como coautores de trilhas sonoras antológicas da história do cinema.

Saudade...

 


Saudade dos tempos do jornal impresso...
Adquiri o hábito de leitura de jornal ainda criança com meu pai e só o abandonei há poucos anos, aderindo de vez à internet. Mas posso garantir aos mais novos que a notícia "instantânea" na telinha do celular não oferece o mesmo prazer da surpresa ao abrir o jornal buscando "novidades" em cada página, em cada seção.
Nas viagens que fiz sozinho na Europa, a compra do El País" espanhol era obrigatória nas estações de trem. Um companheiro indispensável para percorrer grandes distâncias, alternando belas paisagens pela janela com ótimos artigos de um dos melhores jornais do mundo. Lembro até de alguns artigos de opinião sobre imigração no continente e política interna na Espanha e na Europa.
Hoje em dia, com os sites jornalísticos e a "banalização" (para o bem e para o mal) da notícia na internet, tudo isso virou passado e pura nostalgia.

Lembranças da Floresta

 

O recente incêndio no Parque Nacional da Tijuca me lembrou de uns passeios que eu costumava fazer na Floresta da Tijuca, sempre às segundas-feiras, no final dos anos 1970.
Um amigo de infância tinha folga no trabalho justamente nesse dia. Quando fazia tempo bom, ele me chamava para passear na estradinha que dava acesso à Floresta no Alto da Boa Vista. Confesso que não me lembro muito bem sobre o que conversávamos nas longas caminhadas em meio àquelas árvores e vegetação centenárias. Como éramos muito jovens (em torno de 20 anos), certamente o assunto recorrente eram os planos para o futuro. Ele já empregado e eu, embora cursando Jornalismo, ainda indeciso sobre o que queria e deveria fazer, um sentimento que, preciso admitir, me acompanhou por boa parte da vida.
Depois que me mudei para Vila Isabel, em 1981, só o vi 2 ou 3 vezes, e nunca mais visitei a Floresta da Tijuca. Lá se vão mais de 40 anos.
Soube mais tarde que ele se casou, teve filhos e se mudou para o interior de Minas Gerais, onde deve viver até hoje.
Espero que o amigo tenha realizado seus sonhos de infância e juventude. Da minha parte, não tenho do que me queixar. Sem fazer muitos planos, deixei a vida me levar, e reconheço que o destino acabou sendo muito generoso comigo.

Um filme mudou a minha vida!

 

Quando assisti a esse filme em Speyer, na Alemanha, em agosto de 1998, decidi que deveria dedicar o resto da vida à realização dos meus sonhos mais verdadeiros.
Lembro perfeitamente que, ainda no cinema, fui dominado por uma inquietação em relação à vida que levava, limitado a um trabalho, um endereço, uma cidade e um país, quando meu espírito ansiava por novas descobertas e emoções. Uma ideia de pertencimento ao mundo e não apenas a um lugar ou a uma cultura, ampliando horizontes e atravessando fronteiras físicas e limites pessoais em busca de algo maior e mais transcendental. Um verdadeiro despertar do espírito!
Depois de 23 anos e já aposentado, percebo que ainda falta muito para realizar plenamente tudo que sonhei naquele instante mágico e revelador, mas foi ali que plantei a semente que me levaria a dedicar o resto da vida a viajar, viajar e viajar...
Não vi tudo nesse mundo, muito longe disso, mas agradeço a Deus pelo que aprendi e por todas as experiências que vivi nesses anos todos, o que certamente me tornou uma pessoa mais feliz e realizada.

Brasil, Espanha e uma família reunida!

 

Tive o privilégio e a honra de ter sido o único brasileiro de minha geração na família a conhecer pessoalmente José (primo de meu pai) e a esposa Esther, da Galícia.
Meu pai, meus tios e minhas tias eram crianças ou muito jovens quando partiram da Espanha para o Brasil no início dos anos 1930.
Somente minhas tias Carmen, Áurea e Clélia, já no final da vida e bem idosas, ainda mantinham lembranças vívidas da infância na Galícia. A única imagem que meu pai guardava na memória dos tempos de Espanha era da neve batendo na janela. Pudera, veio para o Brasil com apenas 4 ou 5 anos.
Conheci José e Esther, já falecidos, quando visitei os primos em férias na Galícia. Fui lá 4 vezes, a última em 2003. Sempre recebido com carinho e hospitalidade, guardo boas lembranças daqueles dias na Forja com a família reunida. Quase todos vivem em Barcelona, mas costumam passar o verão na Galícia, uma tradição familiar que atravessa gerações.
Ali passei dias agradáveis conhecendo melhor a história da família e até as casas, já em ruínas, onde meu pai morou. Desde então, mantenho contato regular com os primos, o que restabeleceu relações familiares praticamente suspensas por mais de 6 décadas.
Saber que fui o maior responsável por isso, com a providencial ajuda das lembranças de minha saudosa tia Aurinha, é também um motivo de orgulho pra mim.