domingo, 6 de maio de 2018

Histórias de todos nós!

Os três volumes já publicados de "Histórias da Gente Brasileira", de Mary del Priore, reúnem relatos raros e pitorescos sobre o cotidiano dos brasileiros comuns nos períodos de Colônia, Império e República (primeira parte), tema pouco abordado pelos historiadores, que sempre se ocuparam da vida palaciana e dos bastidores do poder.
As obras descrevem como trabalhavam, se alimentavam, se vestiam, se divertiam, enfim, hábitos e costumes da gente simples do país, incluindo os escravos nas senzalas.
São livros imprescindíveis para o conhecimento da formação do caráter do povo brasileiro e de como chegamos até aqui.
E a autora promete o lançamento de mais um volume sobre a República, tratando do período de 1950 até os nossos dias.




Rito de passagem

O filme "Sete Minutos depois da Meia-Noite", dirigido pelo espanhol J. A. Bayona, teve exibição relâmpago no circuito do Rio, no início do ano passado, e até hoje não foi lançado em mídia (dvd ou blu-ray) no Brasil. Finalmente, após exibição na Netflix, a produção estreia esse mês na tv por assinatura (HBO). 
O filme, elogiado pela crítica, trata de nossos sentimentos mais profundos e contraditórios, o quanto são naturais e a necessidade de admiti-los sem culpa ou cobrança. Trata, enfim, do rito de passagem ao qual todos estamos sujeitos até o último de nossos dias, jovens ou bem velhinhos no leito de morte. Portanto, é altamente recomendável, tanto para adultos como para jovens.


De pai pra filho!

Assistindo a um programa sobre Noel Rosa no canal "Arte1", me dei conta que meu falecido pai tinha Noel Rosa como ídolo. Ele lia tudo sobre o compositor, cujo trabalho certamente o inspirou nas centenas de sambas que compôs nos últimos 30 anos de vida. Sim, meu pai era compositor (integrava a ala dos compositores da Vila isabel) e dos bons. Escrevia música com enorme facilidade, sentado num bar, vendo televisão e até no meio da madrugada, quando lhe batia um ideia na cabeça. Infelizmente, tudo isso surgiu muito tarde na vida dele, somente quando veio morar em Vila Isabel, perto dos 60 anos.
O fato é que, se ele gostava de samba, eu gosto de música clássica; se Noel Rosa era o ídolo do Pepe, o meu é John Williams, compositor de trilhas sonoras.
Apesar das diferenças, no fundo, é tudo música. No final das contas, temos no sangue, e em comum, o mesmo amor pela música. 
A propósito, não há nada igual ao canal "Arte1" na televisão brasileira. Assisti ao programa de Noel Rosa logo depois de um especial sobre as sinfonias de Mahler. É arte e cultura sem preconceitos e sem fronteiras.


Impunidade ou crise de valores?

Por que "produzimos" tantos criminosos (e até assassinos!) nesse país? A cultura da impunidade explica tudo? 
Sei não, acho que vai além disso! Vivemos uma crise séria de valores civilizacionais, que se reflete no suborno ao guarda na esquina, no "atalho" do acostamento da estrada, na fila "furada", na bronca ao motorista que insiste em não parar fora do ponto, no troco a mais não devolvido e, claro, nos políticos já desmascarados que continuamos elegendo a cada escrutínio. Nem preciso dar nomes.
Nesse caldeirão cultural indigesto, a fronteira entre legal e ilegal, entre legítimo e ilegítimo, é perigosamente frágil. E pior, como nenhum de nós é uma ilha, cada um, diariamente, dá sua pequena (ou grande) contribuição para alimentar tudo isso.


Imigração e diversidade

Comprei esse livro em Madrid, em 2003, numa de minhas visitas aos primos espanhóis.
Na época, o movimento migratório em direção à Europa rica, procedente do leste europeu e também do norte da África e da América Latina, tinha a Espanha como um de seus principais destinos, por conta da excelente fase econômica que o país atravessava naquele período.
Eu mesmo, em minhas seguidas visitas à Espanha, fui testemunha do rápido enriquecimento do país nos anos de 1990 e 2000, interrompido com a crise de 2008, que afetou o mundo inteiro.
Esse livro aborda o fenômeno migratório e sua repercussão nas sociedades contemporâneas, descrevendo as dimensões política e econômica da imigração e os desafios sociais decorrentes da formação de sociedades caracterizadas cada vez mais por diversidade étnica e cultural. Claro, não falta também uma análise do papel da Espanha nos fluxos migratórios, antes como país emissor e mais recentemente como receptor, sob uma perspectiva histórica.
Uma bela análise que carece, por óbvio, de uma atualização, considerando que o problema migratório recrudesceu nos últimos anos, atingindo em maior grau a Ásia, o Oriente Médio e o próprio continente europeu. Até o Brasil vem tendo problemas com a chegada de levas cada vez maiores de imigrantes venezuelanos no estado de Roraima, um dos mais pobres da federação e que, por isso mesmo, necessita de apoio urgente do governo federal para enfrentar esse desafio.


A música do planeta


Os scores compostos por George Fenton para "Planeta Terra" e "Planeta Azul", documentários produzidos pela BBC, são testemunhos legítimos de como a música (ou a arte) pode verdadeiramente nos aproximar do Criador. 
O compositor inglês, responsável pelas trilhas sonoras de "As Loucuras do Rei George", "Ana e o Rei", "Ligações Perigosas", "Um Grito de Liberdade", "Memphis Belle - A Fortaleza Voadora", "A Companhia dos Lobos" etc., tem uma carreira de mais de 45 anos no cinema, mas acabou se consagrando mesmo com obras dedicadas a documentários para a televisão.
Fenton compôs trabalhos memoráveis para as séries "Planeta Azul" (2001), "Planeta Terra" (2006) e "Planeta Gelado" (2011), todos produzidos pela BBC.
Surpreendentemente (pra mim), a gravação do score para a versão cinematográfica de "Planeta Azul" foi realizada com a Orquestra Filarmônica de Berlim, sob a regência do próprio compositor. É fato raro a já mítica orquestra alemã participar de projetos desse tipo, o que torna a gravação uma verdadeira raridade. E a performance, claro, dispensa comentários.


"Nova" Civilização

Espero há décadas pela atualização dessa célebre série, apresentada por Kenneth Clark e produzida pela BBC, em 1969. O programa fez História e deixou saudade.
Filmada com câmeras de alta definição, a nova "Civilização", produzida para a inglesa BBC e para a PBS, emissora educativa americana, corre o mundo (31 países em 6 continentes) para mostrar, sob os pontos de vista de 3 historiadores de arte, nossa trajetória ao longo dos milênios e tudo o que nos torna únicos no planeta. 
Ainda não há data prevista para a estreia do programa. No Brasil, nem Deus sabe!




Do jeito alemão!

O conceito de tempo circular e não linear (como conhecemos) é o argumento básico da trama da série alemã "Dark" (Netflix), onde passado, presente e futuro ocorrem simultaneamente, permitindo uma série de paradoxos temporais.
Tudo isso muito bem narrado por roteiro, direção, performances, fotografia e desenho de produção ao nível das melhores produções americanas. Mas não espere encontrar algo parecido com o ritmo frenético das séries comuns do Netflix. Tudo ocorre, inclusive os diálogos, num tempo bem mais lento e contemplativo. Do jeito alemão!!


Um Coppola pessoal e renovado

"Tetro" (2009) passou quase despercebido nas salas de cinema do Rio. É um dos filmes mais pessoais de Francis Ford Coppola. Com bela e cuidada fotografia em preto e branco (caracteristica de suas produções), incluindo passagens em cores para as memórias do protagonista, o filme fala da função redentora da arte (aqui, uma peça de teatro) para um escritor frustrado e traumatizado pelo passado familiar, uma temática que lembra um pouco o consagrado romance "Desejo e Reparação", de Ian McEwan.
Belo filme, com ótimas interpretações, inclusive do jovem ator Alden Caleb Ehrenreich, que vem aí no papel de Han Solo, no filme "Han Solo: A Star Wars Story", com estreia prevista para esse mês, nos EUA.


Com amor, Van Gogh

Após consultar duas biografias de Van Gogh e assistir (e mais vez me emocionar) ao belíssimo filme "Com Amor, Van Gogh", sobre o pintor holandês, só posso chegar a uma conclusão. Mesmo depois de quase 130 anos, o mundo ainda não tem condições de esclarecer definitivamente a morte de Van Gogh. 
Foi mesmo suicídio, ou o artista teria sido vítima de um tiro intencional ou acidental disparado por um jovem desafeto da região?
O fato é que relatos diferentes e até contraditórios disponíveis na literatura atual não permitem que se chegue a uma versão confiável e conclusiva sobre os acontecimentos daquele fatídico dia 27 de julho de 1890, em Auvers, na França.
No fim do filme, que acabo de rever, em uma das inúmeras cartas enviadas ao irmão Théo, Van Gogh revela que queria ser lembrado como alguém que "sente profundamente; sente ternamente!". Saí do cinema em lágrimas e o mesmo se repetiu, agora, em casa.
Van Gogh foi uma alma sensível e atormentada que encontrou na arte a única forma de expressar suas angústias diante da vida. Enfim, é mais uma triste história de um artista incompreendido em seu tempo. E talvez até hoje!!


Um filme original e instigante.

Por conta da saber do falecimento recente do compositor islandês Jóhann Jóhannsson, responsável pela música de "A Chegada", acabei assistindo ao filme na HBO. Dirigida por Denis Villeneuve, a produção discute conceitos de linguagem (Sapir-Whorf - seu idioma determina sua forma de pensar) e de tempo (linear/não linear) como nenhum outro filme teve a ousadia de fazê-lo antes (talvez "Interestelar" tenha chegado perto!). E a mensagem pacifista, no final, é belíssima!
Como tenho o blu-ray do filme, assisti, também, a uma entrevista de 10 minutos com Jóhann Jóhannsson e fiquei impressionado com as ideias ousadas do compositor, que fez uma trilha extremamente original. Há pouco espaço ali para a melodia. É tudo bastante cerebral e abstrato. Um desafio e tanto que ele venceu brilhantemente.
Por fim, recomendo o filme para quem aprecia sair da "zona de conforto" dos filmes mais "comerciais". Descobri o trabalho (ou mais apropriadamente o universo) do diretor canadense Denis Villeneuve com "Incêndios", de 2010, um filme "perturbador" que nos faz perceber, com profundo desconforto ou constrangimento, a "verdadeira" natureza humana.


A Era da Mentira!

Entre o cinismo e a hipocrisia de muitos e o extremismo de outros tantos, é assim que vivemos perigosamente nesses tempos sombrios, no Brasil e no mundo.
A profunda crise moral e econômica que assola países e continentes, aliada às incertezas que produz, é terreno fértil para a desfaçatez como estratégia politica e também para o florescimento das ideias conservadoras que testemunhamos na mídia e na vida pública em geral. E não apenas no Brasil!
Ou seja, o mundo da "pós-verdade" ou dos "fatos alternativos" que emerge nas classes políticas parece se dividir, hoje, entre os calhordas oportunistas que mentem descaradamente e os estúpidos reacionários, cujos discursos moralistas encontram eco poderoso nas camadas menos esclarecidas e mais desassistidas da sociedade.


Quem se importa?

Acabo de assistir ao filme "Bem-vindo", produção francesa de 2009, que aborda a séria questão da imigração e da xenofobia na França. Dentre outros temas relevantes, como a amizade sincera entre pessoas de diferentes culturas e o resgate do afeto num homem em crise conjugal, o filme faz uma denúncia contundente sobre os maus tratos dispensados pelos franceses (não todos, é claro!) aos imigrantes. Embora a produção seja de 2009, não creio que as coisas tenham melhorado por lá. Pelo contrário, com a crise migratória dos últimos anos, certamente pioraram. O fato é que os movimentos migratórios são tão antigos quanto a humanidade e, enquanto houver guerras, pobreza e desigualdade no mundo, haverá pessoas atravessando fronteiras em busca de uma vida melhor!
Um filme oportuno, belo e comovente! 
A propósito, e para concluir, em que medida cada um de nós se importa realmente com a vida de quem nos parece tão distante e diferente?





Obra-prima imaginária!

Acredito que, para os fãs de Stanley Kubrick, o melhor filme do diretor talvez seja justamente aquele que ele não fez. O argumento que criou para "A.I. - Inteligência Artificial" é realmente brilhante e poderia mesmo transformar o filme numa obra-prima incontestável, um verdadeiro marco na filmografia do cineasta e na própria história do cinema. Mas ele faleceu e ficou por conta de Steven Spielberg, o "Peter-Pan" do cinema, levar adiante o projeto. O resultado final, controverso e excessivamente sentimental, frustrou expectativas de meio mundo e acabou por gerar nos fãs de Kubrick uma espécie de idealização daquilo que o cineasta poderia ter realizado no lugar de Spielberg. Uma obra-prima imaginária e por isso mesmo perfeita!


"Babylon Berlin" e os "Anos Loucos" de Paris

Muito se fala dos "Anos Loucos" de Paris na década de 1920, mas loucura mesmo foi viver em Berlim naqueles mesmos anos, período em que os alemães estiveram sob o domínio da chamada "República de Weimar". Nem mesmo na década de 1960, época do surgimento da contracultura, dos hippies, da proliferação das drogas e da liberação sexual, jovens e adultos ocidentais desfrutaram de tanta liberdade como os moradores endinheirados de Berlim nos "selvagens" e hedonistas anos 20 do século passado. O curioso é que, hoje, poucos conhecem a história desses "Anos Dourados" da capital alemã. Até mesmo os próprios alemães das novas gerações.
"Babylon Berlin", a nova série de TV alemã, promete contar tudo com riqueza de detalhes e bela reconstituição de época. Tomara que algum canal por assinatura (ou Netflix) no Brasil adquira os direitos de transmissão. É imperdível!


Prazer em miniatura

Não sei como as pessoas conseguem, hoje, assistir a filmes e ouvir músicas em smartphones com telinhas "minúsculas" e som "chapado".
Sou da geração que aprendeu a curtir filmes em cinemas de rua, com telões enormes. Ir ao cinema, aliás, era um verdadeiro evento social e cultural. Com o fim desses generosos (e saudosos) espaços destinados à setima arte, acabei migrando para as telas menores das múltiplas salas de shopping e até para a tv. Mas não dá pra me render a essas maquininhas de "mil e uma utilidades". Aí já é demais! Como podemos apreciar figurinos, cenários, fotografia etc. nessas telinhas de 5 ou 6 polegadas? Impossível!!
O mesmo ocorre com a música. Minha geração se acostumou a ouvir música em equipamentos de grande porte, com elevada potência e fidelidade. Hoje, ouve-se música nessas máquinas que cabem no bolso e incapazes de reproduzir com fidelidade as nuances e os timbres específicos de cada instrumento. O que se ouve hoje em dia é algo parecido com música, mas bem mais próximo do ruído. 
Papo de velho? Talvez, mas só talvez!



sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A Unidade Espiritual do Mundo




"Mais vale viver em um sonho que honra a humanidade a contemporizar com uma realidade sufocante que nos envergonhamos de testemunhar...".

"Conservemos a convicção inquebrantável de que nosso mundo passará de catástrofe em catástrofe enquanto se negar a admitir a ideia de uma unidade espiritual".

"Por acaso a razão deve render-se à loucura? É uma ideia menos verdadeira porque, no momento atual, é irrealizável? Pelo contrário, o dever superior do intelectual é o de permanecer fiel às suas convicções, ainda que a realidade as desminta no momento...Admitamos, porém, que inclusive tenhamos nos equivocado e trabalhado em favor de uma quimera; pelo menos teremos vivido para a ilusão mais nobre que anima a face da Terra".

"Não são as línguas, as montanhas e os mares que separam as pessoas, mas seus preconceitos e sua desconfiança”.

Os trechos acima foram extraídos da palestra "A Unidade Espiritual do Mundo", proferida por Stefan Zweig (1881-1942), em 1936, no Rio de Janeiro, e em 1940, em Buenos Aires. O tema permanece atual e oportuno, já que a História, como sabemos todos, teima em se repetir quando a negligenciamos.
Nascido na Áustria, o escritor, dramaturgo e poeta judeu Stefan Zweig era um intelectual de profunda formação humanista. Um homem do seu tempo e de todos os tempos. 
Trata-se, aqui, de um singelo e despretensioso libelo contra a estupidez nacionalista que continua proliferando num mundo cada vez mais dominado por movimentos xenófobos, atentados terroristas, enfim, pela intolerância ou pela negação do "outro". Um mundo que ainda acredita em muros separando povos e culturas. Um mundo que insiste em repetir os erros do passado que levaram gerações inteiras à ruína e à desesperanca. Desesperança essa que vitimou o próprio escritor.
Desiludido com o avanço da intolerância e do totalitarismo num mundo em guerra, e saudoso de sua querida e distante Europa, Zweig, refugiado no Brasil, suicidou-se em Petrópolis, junto com a esposa, em pleno carnaval de 1942.
Seu legado, porém, não está nesse gesto trágico, mas sim em sua obra de inegável inspiração humanista. O texto é uma síntese do pensamento de um homem certamente muito à frente de seu tempo, um tempo de ignorância e trevas, um tempo que, por isso mesmo, não pode voltar!

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Beethoven e os quartetos de cordas definitivos



Nenhuma "verdade" composta por Beethoven até os "últimos quartetos de cordas", incluindo seus celebrados concertos e sinfonias, se aproxima da beleza crua, original e sem concessões oferecida pelo compositor com essas obras. Sabe-se lá quantos artistas em séculos da arte ocidental chegaram a deixar um legado tão pessoal, sincero e até visceral para as gerações futuras como Beethoven e seus cinco últimos quartetos.
Eu já tinha ouvido outras obras do gênero compostas por vários compositores, incluindo de Haydn, mas os 5 últimos de Beethoven, sem exagero, me fizeram rever conceitos arraigados que eu tinha em relação a esse tipo de composição e da própria música. Nada que eu tenha ouvido antes se compara a essas obras, um verdadeiro testamento artístico do compositor. Não tenho dúvida em afirmar que seus quartetos tardios figuram entre as expressões mais elevadas e eloquentes do espírito humano.
Eu, que sempre cultuei a memória de Beethoven, ressalte-se, muito mais o homem e suas contradições do que o próprio artista e sua obra, rendo-me definitivamente à sua genialidade musical, em particular pelo quarteto de cordas de número 131, uma obra que deveria constar da seleção de músicas reunidas pela NASA para lançar ao espaço como símbolos mais representativos do que de melhor produziu nossa civilização.

domingo, 21 de agosto de 2016

Jogos Olímpicos do Rio, um evento de contrastes numa cidade única


O que mais me impressionou nesses Jogos Olímpicos não foi nenhuma marca olímpica ou recorde batido. Nem mesmo Usain Bolt ou Michael Phelps, que encantaram o público por onde passaram. Foi a autenticidade do povo e da gente brasileira, expondo ao mundo, para o bem ou para o mal, nossas virtudes e também mazelas. Houve sim água verde (e suspeita) na piscina, problemas de infraestrutura na Vila Olímpica, filas intermináveis nos ginásios, assaltos a atletas e autoridades, vaias "inoportunas" e até prisão de nadadores americanos. Mas também tivemos uma belíssima cerimônia de abertura, o surgimento de novos heróis olímpicos (Isaquias Queiroz, Rafaela Silva, Martine Grael, Kahena Kunze, Thiago Braz etc.), a melhora no desempenho do país no quadro de medalhas e, principalmente, uma alegria contagiante nas ruas e praças de competição como talvez nunca tenha havido em outras edições do evento. Uma dose verdadeiramente olímpica de brasilidade que o mundo inteiro pôde testemunhar "in loco" ou a distância. E tudo isso com uma enorme transparência que somente uma democracia pujante e consolidada pode oferecer.
Salvo revelações bombásticas no futuro, considero o saldo do evento bastante positivo para o país. Gostem ou não (brasileiros e estrangeiros), é assim que nós somos, com defeitos e qualidades como qualquer povo, mas com uma mistura peculiar de etnias e culturas que nos torna únicos no mundo. E tenho muito orgulho de pertencer a tudo isso.