segunda-feira, 3 de março de 2014

José Padilha e a carência do cinema nacional



Gostei da entrevista de José Padilha, diretor de "Tropa de Elite" (1 e 2) e do recente "Robocop", para o programa "Almanaque", da Globo News. Além de tratar com propriedade as questões específicas da indústria cinematográfica, aqui e em Hollywood, o diretor revelou um raro bom senso na abordagem de temas mais delicados da nossa sociedade, como a relação entre manifestações de rua, "black blocs" e segurança pública. 
Entretanto, destaco o comentário de Padilha a respeito da carência de bons roteiristas no cinema nacional, ao contrário do que ocorre nos EUA. Segundo ele, isso se deve à diferença da quantidade de profissionais que se dedicam a esse ofício no Brasil e em Hollywood. 
Em minha opinião, com uma indústria cinematográfica estabelecida há quase um século, a carreira de roteirista nos EUA é uma realidade e muitos desejam se inserir nesse mercado cada vez mais competitivo. Como a indústria de cinema no Brasil, apesar dos sucessos de bilheteria dos últimos anos (incluindo os dois "Tropa de Elite" do cineasta), ainda não se consolidou, com limitadas oportunidades e baixa remuneração, poucos aqui se dedicam a essa prática, o que explica, pelo menos em parte, nossa carência na área.




Cinema, música e preconceito



Como já devem ter percebido (aqueles que assistem, é claro), durante a entrega dos prêmios do Oscar, a cada vez que um apresentador/convidado (ou dupla) entra no palco, a produção toca ao fundo um pequeno trecho (entre 5 e 10 segundos) de uma trilha sonora selecionada entre tantas da história do cinema. Isso, na verdade, já é uma tradição na festa, mas uma música em especial me chamou a atenção essa noite. Logo nas primeiras notas, reconheci a bela e injustamente esquecida trilha sonora composta por Elmer Bernstein para o clássico "O Sol é para Todos" (1961), de Robert Mulligan, baseado no romance homônimo de Harper Lee, vencedor do Pulitzer de 1960.
Para quem não se lembra, o filme tem Gregory Peck no papel de um advogado íntegro, viúvo e pai de duas crianças, que resolve defender um homem negro acusado injustamente de estuprar uma jovem branca. Com essa iniciativa corajosa ele desafia os moradores racistas de Maycomb, pequena cidade onde vive no Alabama, nos EUA, no início da década de 1930, que condenam o réu antes de qualquer julgamento.
Como podem ver, preconceito e prejulgamentos são temas que, infelizmente, não perdem a atualidade, e não só nos EUA.
Uma faixa do cd da também clássica (e rara) trilha sonora composta por Elmer Bernstein pode ser ouvida no vídeo abaixo.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Biografia não autorizada (e pornográfica?) de Mozart


Será que Mozart autorizaria a publicação das cartas libidinosas que escreveu para a esposa Constanze? Duvido muito. Não acredito que um homem do século XVIII concordasse com isso, nem mesmo o irreverente compositor austríaco. 
De qualquer maneira, a divulgação dessas correspondências certamente permitiu às gerações seguintes um conhecimento mais fiel do perfil psicológico e do temperamento de Mozart, e em que medida isso se refletiu nas obras do artista. 
No trecho, transcrito abaixo, da carta enviada por Mozart para Constanze, datada de 23 de maio de 1789, o genial compositor revela seu lado, digamos assim, libertino, mas com bastante estilo. Confiram:

"Na quinta-feira, dia 28, viajo para Dresden, onde deverei pernoitar. No dia 1º de junho, dormirei em Praga, e no dia 4, será 4? - com a minha querida mulherzinha. 
Arrume o querido e belíssimo leito com esmero, pois meu garotinho realmente o merece; ele se comportou muitíssimo bem e não deseja outra coisa senão possuir sua belíssima... imagine só o maroto: enquanto escrevo essas linhas, ele se insinua até a borda do tampo da mesa e me olha com um olhar inquiridor. Mas, longe de ser indolente, bato-lhe no nariz como se deve... e agora o danadinho se inflama ainda mais furiosamente e está quase fora de controle."



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Não foi apenas entretenimento



Assisti mais uma vez no domingo, no Telecine Touch, ao excelente "Foi Apenas um Sonho" (2008), de Sam Mendes (o mesmo de "Beleza Americana"), e admito que a experiência esteve longe de ser mero entretenimento. 
A história, que trata dos problemas de relacionamento de um casal americano de classe média (Leonardo di Caprio e Kate Winslet), incomoda, em particular, porque aborda criticamente questões constrangedoras que vivemos ou testemunhamos em nossas relações íntimas ou sociais. É um filme muito bem realizado, como costumam ser as produções dirigidas por Sam Mendes, mas não deixa de ser angustiante, já que nos faz acompanhar o processo doloroso de deterioração de uma relação amorosa aparentemente comum, que vai se revelando cada vez mais doentia e destrutiva. O final é assustador!

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Tempos sombrios no Brasil

Tempos sombrios os que estamos vivendo em nosso país. Um grupo de 14 moradores do bairro do Flamengo, aqui no Rio, resolveu fazer justiça com as próprias mãos, torturando e prendendo um assaltante (menor de idade) pelo pescoço num poste, e deixando-o completamente nu em público. Em outro caso, mais grave, ocorrido há alguns dias na Baixada Fluminense, bandidos locais executaram a sangue-frio, e à luz do dia, um assaltante que atuava na região.
Quando cidadãos, bons ou maus, tomam para si o direito de julgar e condenar supostos ou reconhecidos criminosos, desprezando o fato de que cabe somente ao Estado legal e democraticamente constituído a aplicação da Justiça, temos aí um perigoso retrocesso civilizatório, campo fértil para a proliferação das execuções sumárias e da barbárie.
Tudo isso me faz lembrar do filme "Consciências Mortas", um clássico esquecido de 1943, com Henry Fonda, que trata exatamente dos riscos de prejulgamentos e da aplicação de penas sem a instauração do devido processo legal, negando ao acusado o direito à plena defesa. Altamente oportuna e recomendável, a produção se constitui numa das mais belas defesas dos valores da civilização já transmitidas pelo cinema. Quem tiver a oportunidade, não deve deixar de assistir!


A maior mazela do nosso tempo

Mais um do show business que sucumbe à maior mazela do nosso tempo, as malditas drogas!
Philip Seymour Hoffman realizou trabalhos memoráveis no cinema. Poderia citar muitos, mas fico apenas com "Capote", com o qual ganhou o Oscar, em 2005, e seu não menos brilhante desempenho em "Dúvida" (2008), filme a que assisti recentemente, no qual contracena de igual para igual com Meryl Streep, o que não é pouca coisa!
Seymour pode ser considerado, sem favor algum, um dos mais talentosos atores de sua geração. Certamente, vai deixar saudades!!

Clássico eterno



Embora haja controvérsias, muitos afirmam que "A Noviça Rebelde" (1965) é datado e claramente antiquado. Outros já acham que o filme teria poucas chances com o público de hoje, interessado em narrativas mais ágeis, menos romantizadas e recheadas de efeitos especiais. 
Mas acredito que a produção contenha alguns ingredientes que deverão permanecer por muito tempo como padrões de excelência no cinema. Refiro-me à fotografia, ao roteiro e especialmente às antológicas canções escritas para a produção por Richard Rodgers (música) e Oscar Hammerstein II (letras), com arranjos orquestrais de Irwin Kostal. 
O vídeo acima (que eu assisti ontem na BBC HD) apresenta "Climb Every Mountain", certamente uma das mais belas canções do cinema em todos os tempos. É simples mas aborda algumas questões que atravessam gerações e não envelhecem: a necessidade de buscarmos a realização de nossos sonhos, seguindo caminhos novos (ou desconhecidos), e, talvez o mais importante de tudo, não desistir nunca!!

Tributo a Claudio Abbado

O universo da música clássica fica mais pobre com a morte do italiano Cláudio Abbado (80 anos), um dos últimos representantes da geração mítica de regentes do século XX, que já esteve à frente de duas das mais prestigiadas orquestras do mundo, as filarmônicas de Berlim e de Viena. 
Atualmente, o jovem regente venezuelano Gustavo Dudamel (32 anos), o mais novo queridinho de público e crítica, tenta herdar esse legado e essa honraria, mas parece que a era de culto, reverência e celebração dos maestros ficou definitivamente para trás.



terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Copa do Mundo e a impunidade no Brasil



Já li várias vezes que os lucros previstos para a FIFA com a realização da Copa do Mundo no Brasil são enormes e sem precedentes. Conclui-se, portanto, que a entidade máxima do futebol mundial é capaz de tudo por dinheiro, até mesmo cometer a temeridade de realizar uma Copa do Mundo em nosso país. 
Não se trata de "complexo de vira-lata". É notório que (ainda) não temos a seriedade e a responsabilidade necessárias para dar conta de um evento desse nível. A desorganização que acompanhamos nos últimos anos com os preparativos da Copa (custo ampliado e atraso das obras dos estádios, cancelamento de obras relativas à mobilidade urbana nas cidades-sede, construção, por motivos políticos, de estádios em cidades sem tradição de futebol etc.) demonstra isso claramente, culminando com essas cenas de barbárie registradas domingo no estádio em Joinville, sem a presença do efetivo policial necessário. Tem violência entre torcedores em outros países? Tem, mas na maioria deles, principalmente na Europa, os bandidos, via de regra, são identificados e exemplarmente punidos. E aqui, o que acontece? São presos e logo aparece um advogado com um habeas corpus debaixo do braço liberando os infelizes. Se condenados mais tarde, o acerto com a sociedade acaba se resumindo ao pagamento de duas ou três cestas básicas e o cumprimento de um leve trabalho comunitário. É pouco, muito pouco!


sábado, 7 de dezembro de 2013

A subestimada contribuição de Clif Eidelman para Star Trek




O score de Cliff Eidelman para "Star Trek VI" é possivelmente o mais subestimado de todos os compostos para a saga estelar no cinema. 
Acredito que o alto padrão estabelecido por Jerry Goldsmith com o seu já clássico tema para o primeiro filme tenha contribuído para relegar esse ótimo trabalho de Eidelman ao injusto ostracismo. É uma pena porque a suíte final do cd está à altura dos melhores scores escritos para a franquia, incluindo os de Jerry Goldsmith e de James Horner. 

Procurando Shakespeare


O solene, e por vezes sombrio, score escrito por Howard Shore para "Ricardo III - Um Ensaio" (1996), documentário dirigido por Al Pacino, é uma pequena amostra do que o compositor ofereceria anos mais tarde com a música para a trilogia do "Senhor dos Anéis", seguramente sua grande obra-prima para o cinema. 
É uma bela trilha sonora para um filme quase experimental de Al Pacino em sua única (que eu saiba) experiência como diretor no cinema. Por meio de entrevistas reais com companheiros de profissão durante um ensaio para a encenação de "Ricardo III", e também com o público nas ruas de Nova York, Al Pacino, que atua no filme, procura revelar a complexidade das peças de Shakespeare, além das dificuldades encontradas em sua montagem.


Verdadeiro estadista



Alguns preferem "estadistas" capazes de "fazer alianças com o diabo" na defesa de um projeto de poder supostamente a serviço do bem comum, conforme definição do filósofo espanhol José Ortega y Gasset e de muitos brasileiros "esclarecidos".
Eu, modestamente, ainda acredito que os verdadeiros (ou legítimos) estadistas são aqueles que conseguem unir um país inteiro em torno de um ideal de conciliação nacional, superando ressentimentos seculares e o sectarismo ideológico. É o caso do já saudoso Nélson Mandela, falecido nessa semana. O mundo, e não apenas a África do Sul, vai sentir muita falta desse homem extraordinário. Que Deus o tenha (e nos abençoe!).

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

James Horner reciclado




Com a trilha sonora de "Avatar", de 2009, aqui representada por uma bela suíte, James Horner resgatou um pouco do jovem e talentoso compositor das décadas de 1980 e 1990, responsável por trabalhos memoráveis como "Aliens - O Resgate", "Willow na Terra da Magia", "Lendas da Paixão", "Coração Valente" e "Star Trek II - A Ira de Khan". 
Horner é competente como poucos para musicar histórias e desfruta, merecidamente, de um grande prestígio em Hollywood, mas há anos que só oferece mais do mesmo. É certamente um dos compositores que mais praticam o autoplágio no cinema. A música de "Avatar" é um exemplo disso, pois reúne bons momentos de algumas de suas composições mais criativas em toda a carreira.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Herança africana no Brasil



Enquanto os malfeitos do presente monopolizam a atenção da mídia e das redes sociais no Brasil, recentes escavações no centro do Rio, por conta das obras de revitalização da zona portuária para as Olimpíadas de 2016, revelaram um passado sombrio de nosso país que não pode ser esquecido. Trata-se do Cais do Valongo, o maior sítio arqueológico da diáspora (dispersão) africana em todo o mundo. Por ali teriam passado cerca de 1 milhão de escravos no século XIX, caracterizando o local como o maior porto escravagista da história. Essa é uma herança que não nos honra mas que devemos cultuar em memória daqueles que, mesmo tratados como sub-humanos, deram uma contribuição decisiva para a construção da identidade do povo brasileiro.


domingo, 17 de novembro de 2013

O mensalão e a polarização política no Brasil


A repercussão, na mídia e nas redes sociais, do episódio da prisão dos envolvidos e condenados no chamado mensalão revela um acirramento dos ânimos em relação ao quadro político nacional que chega a ser assustador. É como se a sociedade estivesse dividida, colericamente, entre os que demonizam tudo e todos relacionados direta ou indiretamente com o governo federal e o PT, e aqueles que os apoiam incondicionalmente, haja o que houver, apesar de possíveis evidências de erros e "malfeitos" na condução da coisa pública. 
O processo de consolidação de nossa ainda tenra e vulnerável democracia requer muito mais do que a polarização raivosa e destrutiva verificada atualmente no país. E nenhuma liderança política, independentemente de ideologias, demonstra estar à altura do desafio de mudar esse quadro. É uma pena.


Miriam Makeba na Alemanha: parece que foi ontem!



Essa homenagem que fizeram ontem no Rio, durante o festival Back2Black, a Miriam Makeba, cantora sul-africana falecida em 2008, com a participação de Gilberto Gil e Alcione, me fez lembrar de um episódio bacana que vivenciei há quase 20 anos. Foi em maio de 1995, mais precisamente no dia 24, uma quarta-feira, quando eu estava visitando pela primeira vez meus amigos em Heidelberg, na Alemanha. Ao me receber na estação de trem, ainda pela manhã, minha amiga Cristina me convidou para ir com seu companheiro Armin e outros amigos ao show que Makeba daria à noite no principal ginásio da cidade. Aceitei logo, claro, mas confesso que esperava qualquer programa para aquela noite especial na Alemanha, nunca, porém, um show de uma cantora africana, que, aliás, fez muito sucesso no Brasil, lá pelos anos 70, especialmente com uma música - "Pata Pata" - ou, como costumávamos dizer na época, "tá com pulga na cueca!". Com tudo acertado, resolvemos passar numa drogaria (?!?!) para comprar os ingressos, ainda em marcos alemães.
À noite, para minha surpresa, testemunhamos o ginásio lotado de loirinhos de olhos azuis, exultantes com a performance da negra africana. Ela cantou por aprox. 2 horas e saiu ovacionada do palco, não sem antes oferecer vários "bis" ao público extasiado. Foi ali que, pela primeira vez, percebi que os alemães não perdem uma oportunidade de curtir a cultura negra ou africana, ou pelo menos qualquer coisa que soe diferente dos padrões germânicos. Não todos, é verdade, mas certamente muita gente, a ponto de lotar ginásios numa bela noite de dia útil e fora do período de férias, como foi o caso.
Após o inesquecível show, fomos jantar num restaurante à beira do rio Neckar, numa noite agradável de primavera, onde as conversas ainda repercutiam bastante a performance da saudosa Miriam Makeba. De alguma maneira, portanto, ela faz parte das melhores lembranças da minha vida. Que Deus a tenha!


sábado, 16 de novembro de 2013

O melhor de Alan Silvestri

Assistindo agora há pouco, no canal Universal, a algumas cenas de "O Retorno da Múmia", de 2001, resolvi ouvir a excelente trilha sonora que Alan Silvestri escreveu para o filme. O compositor tem uma carreira consolidada em Hollywood e já compôs obras antológicas,  como é o caso de "De Volta para o Futuro", que se confundem com os próprios filmes a que servem. Nunca, porém, esteve tão perto da perfeição como em "O Retorno da Múmia". Seu score para este filme não fica a dever em nada ao ótimo trabalho do mestre Jerry Goldsmith para o original "A Múmia", de 1999. Na verdade, quando ouvi a trilha sonora pela primeira vez não acreditei que era de Alan Silvestri. 
Mais tarde, em 2004, na tentativa de alcançar a excelência do score anterior, o compositor criou algo parecido para "Van Helsing", que não passou de um arremedo de sua trilha sonora de 2001. Mas ele ainda tem crédito!

sábado, 2 de novembro de 2013

Marian Dougherty e a revelação de ídolos em Hollywood



Acabei de assistir na HBO ao documentário "Diretor de Elenco", exibido no último Festival do Rio, sobre Marian Dougherty, falecida em 2011, certamente a mais prestigiada diretora de elenco de Hollywood. Ela fala da experiência acumulada ao longo de décadas na escolha de atores para produções americanas, apostando em novatos como John Travolta, Dustin Hoffman, Al Pacino, Diane Lane, Clint Eastwood, Sigourney Weaver, Christopher Walken, Warren Beatty, Gene Hackman e Jeff Bridges, dentre outros, que mais tarde se tornariam grandes ídolos do cinema. 
O episódio mais interessante do documentário abordou a dinâmica de escolha dos protagonistas de "Perdidos na Noite" (1969), um dos sucessos mais corajosos e improváveis de toda a história de Hollywood, por retratar uma dupla de personagens perdedores num filme que não faz concessões mercadológicas no final. Na produção, John Voight e Dustin Hoffman, em início de carreira, realizam performances memoráveis que marcariam para sempre suas carreiras. Dustin decolou, já John Voight... 
Infelizmente, com o processo de infantilização do cinema, iniciado no final da década de 70 (receio que por obra e culpa de George Lucas e Steven Spielberg), não há mais espaço para filmes como esse na indústria cinematográfica.


Jack Wild, uma vida arruinada pelo vício


Jack Wild é o caso mais trágico que eu conheço de um jovem talentoso que pôs tudo a perder com o vício em álcool e cigarro. Ele começou a beber e a fumar aos 12 anos, o que arruinou a carreira, o casamento com a namorada de infância e a própria vida. 
Indicado ao Oscar de ator coadjuvante aos 16 anos, pelo papel de Jack Dawkins, o batedor de carteiras mirim do filme "Oliver" (1968), Wild passou a vida adulta praticamente no anonimato, fazendo pontas aqui e ali e alguns papéis secundários no teatro. O vício duplo iniciado na infância só aumentou com o passar dos anos e o esquecimento pela mídia. Morreu aos 53 anos, em 2006, vítima de câncer de boca, tendo passado os 3 últimos anos de vida sem poder falar, por causa do tumor. Ele mesmo admitiu que seu estilo de vida o transformou numa verdadeira bomba-relógio. Uma triste história de vida que, infelizmente, está longe de ser rara no meio artístico. Apurei tudo isso logo após assistir à homenagem aos artistas falecidos em 2006, na entrega do Oscar 2007. Assim que vi o nome dele na tela e as cenas de "Oliver", lembrei-me do filme e principalmente da série inglesa de tv "A Flauta Mágica", da qual participou e que chegou a passar no Brasil (acho que na TV Excelsior) quando eu tinha uns 10 anos. O programa marcou minha infância e Jack Wild fez parte disso.
Outro filme da época com Jack Wild foi "Melody - Quando Brota o Amor", uma comédia romântica de 1971 na qual o jovem é mais uma vez coadjuvante de Mark Lester, o protagonista de "Oliver". A ironia em "Melody" é que Wild desempenha o papel de uma criança rebelde (ele já tinha 18 anos, mas era miúdo) que, de vez em quando, consome bebida alcoólica. O que parecia uma inocente travessura na história, ou um simples papel no cinema, acabou se tornando uma triste realidade na vida do jovem ator, que acabou o levando à morte.



Regras para espionagem?



Brasil e Alemanha se uniram na ONU para aprovar regras para espionagem. Os discursos foram ótimos e as medidas propostas obtiveram o apoio da maioria dos países, mas dificilmente tornarão o mundo menos sujeito às bisbilhotices dos mais poderosos. 
Na verdade, o maior problema que eu vejo nessa questão da espionagem praticada pela agência de segurança americana (NSA), que alcança indiscriminadamente inimigos e aliados, é a própria divulgação do fato. Todos os governos sabem (ou deveriam saber) que isso sempre existiu, e não são ingênuos (ou não deveriam ser) a ponto de achar que vai acabar. Vamos ser honestos, os que não espionam não o fazem por falta de meios ou por incompetência, quase nunca por princípio.
Mas admito que a divulgação da prática, principalmente quando envolve aliados, cria uma situação embaraçosa para ambas as partes, já que revela falta de confiança entre os países. Para o cidadão comum, isso é inaceitável. Portanto, é louvável e legítima a iniciativa conjunta de Brasil e Alemanha, "vítimas" da NSA, no sentido de criar medidas que tentem coibir os excessos, o que representa uma espécie de satisfação para o público interno. Porém, como não acredito (há bastante tempo) em Papai Noel, nem em coelhinho da Páscoa, considero praticamente nulas as chances de ocorrer qualquer mudança significativa na prática de espionagem no mundo. Quem pode espionar vai continuar a fazê-lo, a despeito de tudo e de todos. 
Por fim, embora devamos aspirar sempre a um mundo melhor, mais transparente e menos cínico, e trabalhar efetivamente por isso, não é possível alimentar ilusões a respeito desse assunto.