domingo, 26 de abril de 2015

O dia em que um "beatle" me fez chorar



Acompanhando o noticiário sobre o terremoto no Nepal e as avalanches no Everest, que provocaram milhares de vítimas na região, lembrei-me de um episódio ocorrido em minha viagem à Alemanha no verão de 1998. Não, não tem nada a ver com acidente, tragédia ou coisa parecida.
Era um bonito dia de agosto (verão) e os amigos alemães resolveram me levar, junto com dois outros amigos brasileiros, para passear em Speyer, uma cidade próxima de Heidelberg, onde vivem até hoje, para conhecer a belíssima basílica românica local e também o museu tecnológico da cidade. Após circular bastante pelo museu, resolvemos assistir ao filme "Everest" no cinema IMAX local.
Eu não sabia nada sobre o filme. A decisão de assistir partiu mais da oportunidade de conhecer a tecnologia IMAX, geralmente disponível numa sala com uma tela gigantesca e áudio com milhares de watts de potência, algo, então, inimaginável pra mim.
Logo que nos acomodamos nas poltronas, uma funcionária do cinema, muito bem vestida, fez a apresentação do "evento" (em alemão, é claro), discorrendo sobre a tecnologia IMAX, as características que a distinguem das demais e os recursos de imagem e som de última geração disponíveis. É claro que eu só soube disso depois, traduzido por minha amiga brasileira radicada na Alemanha.
Tratava-se, na verdade, de um documentário narrado por Liam Neeson sobre a escalada do Everest por uma equipe de alpinistas, ocorrida em maio de 1996, que teve um final trágico. Sei disso porque li sobre o filme ao retornar ao Brasil, já que toda a narração foi dublada no idioma local, prática comum na exibição de filmes nos cinemas do país, como ocorre, aliás, na maior parte da Europa. Em resumo, não entendi uma única palavra do que foi dito, o que não me impediu de ficar com lágrimas nos olhos durante e após a exibição, em meio a uma legião de adolescentes. No final, todo mundo saiu comentando alegremente sobre o filme, e eu ali com os olhos vermelhos e cheio de vergonha.
Alguns devem estar se perguntando, mas que diabos esse cara viu e ouviu no filme que o deixou tão comovido, já que não "entendeu" nada do que foi narrado? Bem, é aí que, provavelmente, entram a magia do cinema e a tecnologia IMAX. É verdade, eu não entendi o que foi dito pelo narrador, porém, e talvez por isso, prestei uma atenção obsessiva nas imagens gigantescas e impressionantes do Everest, e especialmente na belíssima trilha sonora do filme, gravada por grande orquestra e reproduzida com um sistema de som quase "ensurdecedor". Um show verdadeiramente hipnótico que me emocionou de tal maneira que só me recompus mesmo no bar do museu, degustando (lembro muito bem) uma excelente cerveja de trigo da região.
Mas, afinal, onde entra nessa história o "beatle" que fez o Ecio chorar? Bem, o beatle a quem me refiro é George Harrison, autor da maior parte das músicas utilizadas no filme, brilhantemente arranjadas para orquestra pela dupla Steve Wood e Daniel May. Nunca tinha ouvido aquelas músicas de George Harrison (menos ainda executadas por uma orquestra) embalando uma história de superação e conquista como a que foi mostrada no documentário. Reconheço, portanto, que foram as canções de Harrison, mais do que as belas imagens do Everest, que me comoveram tanto naquela já longínqua tarde de agosto de 1998 na Alemanha.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Gaudí e o orgulho catalão



Revelo aqui um singelo (e inesquecível) episódio que vivenciei na Espanha alguns anos atrás, mais precisamente no verão de 2003. Naquela oportunidade, após um lanche oferecido por um vizinho de minha prima de Barcelona, resolvemos prolongar o encontro conversando sobre assuntos diversos, incluindo Brasil, Espanha, futebol e também "papagaios de pirata", dentre outros temas. Num dado momento, comentei sobre minha admiração pelo arquiteto catalão Antonio Gaudí e sua habilidade para lidar com formas, cores e elementos diversos que dão um caráter singular às suas obras. E concluí destacando a morte trágica do arquiteto, ao ser atropelado por um bonde em Barcelona. Mal terminei a frase, o gentil anfitrião, talvez impressionado com o fato de um brasileiro conhecer tanto sobre a vida e a obra de uma das maiores personalidades da Catalunha, pediu licença, se dirigiu ao quarto e, em seguida, voltou para me presentear com um belíssimo livro de arte contendo a antologia fotográfica completa das obras de Gaudí. É claro que fiquei encantado com o "regalo", embora soubesse da dificuldade que teria para carregá-lo, já que, além de grande, pesava bastante. Minha prima até suspeitou que eu não pudesse trazer, mas decidi que aquele livro eu traria de qualquer maneira, não só pela importância do conteúdo, mas também pelo gesto generoso do anfitrião. O fato é que preservo o livro (foto acima) até hoje com todo o carinho, e jamais me esquecerei daquela tarde agradável na companhia dos primos e do orgulhoso amigo catalão.
O vídeo “Love Casa Batllò”, com duração de apenas 2 minutos e meio, venceu o Grande Prêmio no Festival Internacional de Filmes Turísticos de Riga, e mostra o interior da Casa Batllò, em Barcelona, uma das obras mais geniais e emblemáticas de Gaudí, percorrendo todos os seus ambientes com o uso de efeitos especiais que conferem vida própria à edificação. Um trabalho belo e engenhoso. Vale a pena conferir! 

sábado, 11 de abril de 2015

O sentimento cristão em Bach, Handel, Goya e Velazquez



O "Te Deum de Dettingen", composto por Handel, em 1743, em homenagem à vitória dos ingleses sobre os franceses na batalha de Dettingen (Baviera), é uma das mais belas (e menos conhecidas) obras do compositor alemão, que emigrou ainda jovem para a Inglaterra. 
A música funciona como uma espécie de ação de graças (daí o nome "Te Deum") pela vitória do exército inglês, comandado pelo Rei George II. O cd acima é um dos mais preciosos de minha extensa coleção de clássicos. Além da excelente qualidade técnica da gravação (digital), as performances da orquestra English Consort e do coro da Abadia de Westminster, sob a direção de Simon Preston, são excepcionais, exprimindo toda a complexidade e exuberância da música barroca, ainda capaz de comover profundamente, após a passagem de quase 3 séculos.
Como assisti, nessa semana, ao concerto da "Missa em Si Menor" de Bach, cabe aqui um comentário sobre a comparação entre Bach e Handel, maiores mestres do período musical barroco, normalmente realizada por simpatizantes do gênero. Em minha opinião, pegando emprestadas as pinturas retratando o Cristo crucificado de dois artistas famosos, os espanhóis Velazquez e Goya, eu diria que as composições de Handel, habitualmente majestosa e de alto voltagem sentimental, se assemelha mais à representação teatral da famosa cena bíblica do quadro de Goya, enquanto Bach, com suas obras sacras, principalmente a "Missa em Si Menor" e as paixões de São Mateus e de São João, parece refletir com menor pompa e possivelmente maior sinceridade e realismo o sentimento cristão, o que o aproxima muito mais da crucificação de Cristo belamente representada na pintura de Velazquez. 
Bem, isso é apenas uma impressão pessoal! 

Francisco de Goya

Diego Velázquez

sábado, 21 de março de 2015

Patrimônio da Humanidade



Em sua 9ª sinfonia, Ludwig van Beethoven inovou e acrescentou o canto ao gênero sinfônico, incorporando o poema "Ode à Alegria", de Friedrich Schiller, que preconiza a fraternidade entre os homens. 
Por seu conteúdo humanista e universal, a chamada "Sinfonia Coral", além de ser escolhida como Hino da União Europeia, foi consagrada pela UNESCO como patrimônio artístico da humanidade.
Para o compositor Richard Wagner, a obra de Beethoven "é a elevação da música de seu território original para introduzi-la no reino da arte universal!". 
Já o jornal alemão "Leipziger Algemeine" publicou, em 1824, a melhor definição para a obra: - Aqui a Arte e a Verdade celebram seu melhor Triunfo. 
O vídeo apresenta a Orquestra West-Eastern Divan e o maestro Daniel Barenboim executando o último e revolucionário movimento da sinfonia.

terça-feira, 10 de março de 2015

César Franck, "Psyché" e o romantismo perdido no tempo



Assisti a um concerto inesquecível em Paris, em 2008, com a Orquestra Nacional da França e o Coro da Rádio França, sob a regência de Kurt Masur, executando o comovente e acentuadamente romântico poema sinfônico "Psyché", composto pelo belga (naturalizado francês) César Franck (1822-1890) apenas 2 anos antes de falecer. 
Impregnada de um romantismo já há muito tempo esquecido, o fato é que há raras gravações e performances ao vivo da obra. A experiência de Paris, no Museu d'Orsay, exatamente no dia 21 de junho, que abre o verão no hemisferio norte, ficará para sempre em minha memória, em especial pela atmosfera de harmonia e encantamento que envolveu plateia, músicos e o próprio regente.
Seduzido pela experiência, desde então, vinha procurando um cd com a música em minhas viagens ao exterior, e também aqui no Brasil, sem obter sucesso. Achei mesmo que jamais a ouviria novamente. Pensava que tudo acabaria apenas guardado em minha memória, até que se perdesse definitivamente com o tempo.
Ajudado pelo santo protetor dos amantes de música, cujo nome desconheço, mas que certamente existe, finalmente encontrei hoje o cd (foto acima) em estado de novo, num sebo bem perto do trabalho, em mais uma de minhas peregrinações em busca de raridades perdidas. Custei a acreditar porque a gravação é com a obra completa, mais rara ainda, justamente do jeito que a conheci há quase 7 anos em Paris. Uma emoção só comparável à oportunidade de ouvi-la mais uma vez. Mas essa será uma outra história que contarei mais tarde!

Cartaz de anúncio do concerto no Museu d'Orsay

domingo, 1 de março de 2015

Uma regravação superior da obra-prima de Cliff Eidelman



Para variar, e para variar mesmo porque isso não é comum, a regravação de uma trilha sonora acabou com resultado muito superior ao do registro original. A música de Cliff Eidelman para "Star Trek VI - A Terra Desconhecida" (1991), a obra-prima do compositor, apesar da qualidade do score (meu preferido!), deixava a desejar exatamente no quesito orquestração (ou seria a mixagem?). 
Com a regravação da "Star Trek Suíte", contida na última faixa do cd (no vídeo abaixo, entre 28'30" e 35'01"), realizada pela Orquestra Filarmônica da Cidade de Praga no início dos anos 2000, a música ganhou muito mais brilho com a incorporação de metais verdadeiramente mágicos, conferindo um tom majestoso ao score que não se percebe na gravação original.


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Dilma, corrupção e risco de crise institucional!



Em defesa da democracia e do devido respeito ao resultado das urnas, não concordo com as frequentes manifestações na imprensa e nas mídias sociais pedindo o impeachment da Dilma. Tendo em vista, porém, as recentes entrevistas da presidente expressando ideias e opiniões em flagrante descompasso com os fatos ou a própria realidade, começo a desconfiar da capacidade política da Dilma (e do PT) para resistir à implacável oposição que a grande imprensa, os partidos adversários e boa parte dos cidadãos já empreendem e prometem intensificar nos próximos meses.
Ou a presidente promove urgentemente uma agenda positiva para o governo, com medidas eficazes de recuperação da economia e de apaziguamento e controle da base aliada no Congresso, ou o mandato poderá mesmo correr um sério risco de ser abreviado.
Caso o processo de impedimento da Dilma entre efetivamente na pauta das discussões políticas, temo que o Brasil atravesse uma séria crise institucional, considerando o crescente acirramento da polarização partidária em nosso país. É preciso lembrar que o quadro político que vivemos hoje é bem diferente daquele observado em 1992, por ocasião do impeachment do Fernando Collor, que já não dispunha de qualquer apoio parlamentar e muito menos (e mais grave) de uma militância aguerrida e vigilante em sua defesa, como a do PT de Dilma.
Por outro lado, a iniciativa de alguns petistas, inclusive da presidente, de transformar todos os políticos em "farinha do mesmo saco", ao apontar malfeitos cometidos também pelos tucanos, é uma tentativa cínica e intelectualmente desonesta de absolver todos os petistas (e governistas) envolvidos nos escândalos de corrupção na Petrobras que paralisam o país. Algo como, se todos fazem, ninguém é culpado!
É preciso ressaltar que há muitos brasileiros, entre os quais me incluo, que se opõem ao governo, mas não têm qualquer compromisso com a defesa do PSDB, nem têm dos tucanos procuração para defendê-los. Para esses, que fazem parte da "direita moralista", assim chamada por muitos petistas a parcela da sociedade que condena a corrupção, todos aqueles comprovadamente envolvidos nos casos de desvio de verbas públicas devem pagar por isso na forma da lei, e "doa a quem doer!", como costuma apregoar pateticamente a própria presidente da República.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Era uma vez... lojas de cds e dvds!


Madrid Rock, da Gran Via, em Madri, em 2005, ano do encerramento das atividades

A saudosa "Madrid Rock", da Gran Via, em Madri, integrou uma rede de lojas de cds/dvds que funcionou na Espanha (Madri, Sevilha e Córdoba) entre 1981 e 2005. Nos bons tempos, cerca de 1.000 clientes circulavam diariamente pelos corredores dos três andares da loja, situada no centro da capital espanhola (mais de 1.500 metros quadrados!), onde era possível encontrar uma  grande variedade de títulos de todos os gêneros musicais. A loja era tão especial que, apesar do nome, tinha uma seção de clássicos, no subsolo, capaz de dar inveja aos agora "órfãos" frequentadores da "Modern Sound" de Copacabana, a melhor loja de clássicos do Rio por muitos anos, a qual, infelizmente, também já fechou as portas. 
Segundo os antigos proprietários da "Madrid Rock", a rede sucumbiu à crescente pirataria, à popularização da internet e à perda de prestígio das mídias físicas (cds e dvds).
O fato é que tenho em minha coleção de cds alguns títulos raros, incluindo trilhas sonoras de filmes espanhóis (Má Educação, A Espinha do Diabo etc.), adquiridos em minhas visitas à loja da Gran Via entre 1996 e 2003. O mais triste é que outras redes tradicionais de venda de músicas e filmes também fecharam as portas recentemente, no mundo inteiro, com destaque para a Virgin Megastore, minha preferida de Paris, no Champs Elysee, onde comprei vários cds e dvds antes da debacle dos negócios ocorrida nos últimos anos.

Madrid Rock, na Gran Via, já de portas fechadas

Interior da Virgin Megastore, no Champs Elysee, Paris, antes de fechar

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Estupidez masculina


Após assistir, ontem à noite, ao filme "Nebraska", que conta com personagens femininas fortes, lúcidas, bem resolvidas e cheias de afeto, diferentemente de quase todos os homens da história, verdadeiros "trogloditas", confirmei uma impressão que venho consolidando ao longo da vida.
Quanto mais eu vivo, assisto a filmes e leio livros me convenço de que devemos às mulheres de todas as gerações o pouco de compaixão e humanidade que ainda resta no mundo ou na civilização. Estou certo de que em nós, homens, talvez por maldição ancestral, reside quase toda a estupidez que Deus permitiu à espécie humana. Há exceções de ambos os lados, mas não passam de acidentes da natureza.


No fundo do poço!



Em décadas acompanhando futebol, nunca vi um desnível tão grande entre o futebol que se joga nas ligas europeias e aquele que se pratica no Brasil. Embora por lá também se veja jogos ruins, como o de duas semanas atrás entre Everton e Liverpool, pela liga inglesa, o fato é que, de uma maneira geral, dá gosto assistir às partidas dos campeonatos do velho continente, em especial da Inglaterra, da França e da Alemanha. Sob todos os pontos de vista, incluindo o disciplinar, o gerencial e, claro, o técnico, eles se encontram anos-luz à frente do futebol brasileiro. Por que chegamos a esse ponto é a questão. Talvez o "7 a 1" seja um triste reflexo de tudo isso e não apenas um acidente de percurso, como muitos românticos e saudosistas ainda preconizam.


54 anos depois, a volta do maior herói do cinema americano



Eleito pelo "American Film Institute", em 2003, como o maior herói do cinema americano, Atticus Finch é um advogado que defende um homem negro injustamente acusado de estuprar uma jovem branca, na cidade fictícia de Macomb, no Alabama. Vivido por Gregory Peck em "O Sol é Para Todos", de 1962, o personagem representa o modelo de americano virtuoso, solidário e justo.
Finch é o protagonista do romance de estreia de Harper Lee que inspirou o filme, publicado originalmente em 1961. Vencedora do Prêmio Pulitzer, a obra vendeu 30 milhões de cópias, foi traduzida para 40 línguas, jamais saiu de catálogo e foi escolhida pelos bibliotecários americanos, em 2000, o "romance do século".
Pois é, a autora, agora com 88 anos, publicará a continuação da obra no próximo mês de julho, com o título "Go set a watchman", na qual a filha de Finch retorna à cidade natal 20 anos depois para visitar o pai e lembrar dos acontecimentos que marcaram sua infância. 
Na há previsão de lançamento do livro no mercado nacional. Quanto a uma nova adaptação para o cinema, os executivos de Hollywood, é claro, já devem estar tratando disso.

Que vença o melhor!


Passado o período de folia, minha expectativa agora é para saber quem levará o Oscar deste ano. Torço para "O Grande Hotel Budapeste", mas os críticos apontam "Birdman" e "Boyhood" como os favoritos. Entre os dois filmes, fico com "Birdman", que tem um argumento muito mais criativo e original. Pra mim, o único fator positivo em relação a "Boyhood" é a natureza inusitada do projeto, ao filmar uma história por longos 12 anos com o mesmo elenco (principal), mantendo o comprometimento dos envolvidos e a necessária unidade dramática. Um esforço técnico e artístico admirável, mas é só! Já vi aquela história contada mil vezes no cinema, e com abordagem semelhante. 
Sobre a disputa pelo Oscar de melhor trilha sonora (original score), acho que Alexandre Desplat, que concorre com duas obras (O Grande Hotel Budapeste e O Jogo da Imitação), deverá ficar sem a estatueta. Na maioria das vezes em que um compositor foi duplamente indicado, acabou dividindo (ou diluindo) os próprios votos e "entregando" o prêmio a outro concorrente. Mesmo assim, torço para ver Desplat recebendo o Oscar na noite de domingo, pois o considero um dos mais brilhantes compositores de cinema da atualidade.

Uma carreira interrompida?




Assisti nessa semana a um documentário sobre os escândalos envolvendo Mel Gibson em Hollywood. É impressionante a sequência de "equívocos" cometidos pelo artista nos últimos anos, quase todos provocados por bebedeiras frequentes e flagrantes demonstrações de antissemitismo e preconceito contra as mulheres. Malvisto na comunidade cinematográfica americana, majoritariamente integrada por judeus, Gibson, aos 59 anos, vive hoje isolado, sem amigos e com a carreira seriamente comprometida. 
Embora eu nunca tenha tido a menor simpatia pelas escolhas artísticas de Gibson (em seus filmes, os conflitos são quase sempre resolvidos por meio de violência), devo reconhecer no ator/diretor um realizador com perfeito domínio da produção e da linguagem cinematográfica. Entretanto, como afirma um entrevistado no programa, ataques a gays e judeus não costumam ser perdoados em Hollywood. E Gibson, do alto de sua presunção e soberba, preferiu desafiar a "lei" e literalmente pagar pra ver!


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Guerra nas Estrelas, Charles Gerhardt e o score "bastardo" de John Williams



O arranjo para (em minha opinião) o mais belo trecho da antológica trilha sonora de "Guerra nas Estrelas", de John Williams, que contribuiu decisivamente para que eu me tornasse fã incondicional do compositor, curiosamente não é de autoria do mestre. 
Trata-se, pelo que apurei, de uma suíte adaptada pelo arranjador Charles Gerhardt (autorizada por John Williams) da música escrita para as cenas finais/créditos do filme (The Throne Room/End Title), integrante do cd acima, lançado em 1977, mesmo ano da estreia da produção nos cinemas americanos.
Tenho que admitir, ficou muito melhor do que a gravação para o filme. E, sem exagero algum, sempre que ouço um determinado trecho de apenas 20 segundos acabo com lágrimas nos olhos, o que não ocorre ouvindo a mesma faixa da trilha original. Um trabalho primoroso infelizmente ignorado por grande parte dos fãs do filme, da trilha sonora e do próprio John Williams. 
Para quem não sabe, Charles Gerhardt (1927-1999) foi um produtor, regente e arranjador americano verdadeiramente apaixonado por trilhas sonoras, responsável pela gravação, ao longo da década de 1970, de 14 LPs com alguns dos scores mais emblemáticos de toda a história do cinema (relação abaixo), fazendo uso dos mais avançados recursos de áudio da época. Um legado precioso também disponível em cd (ou formato digital) para as novas gerações de amantes de músicas de filmes. Eu já tenho nove títulos (*) e espero completar a coleção.

  1 - *The Sea Hawk: The Classic Film Scores of Erich Wolfgang Korngold;
  2 - Now Voyager: The Classic Film Scores of Max Steiner;
  3 - *Classic Film Scores for Bette Davis;
  4 - *Captain from Castile: The Classic Film Scores of Alfred Newman;
  5 - *Elizabeth and Essex: The Classic Film Scores of Erich Wolfgang Korngold;
  6 - *Casablanca: Classic Film Scores for Humphrey Bogart;
  7 - Gone with the Wind;
  8 - *Citizen Kane: The Classic Film Scores of Bernard Hermann;
  9 - *Sunset Boulevard: The Classic Film Scores of Franz Waxman;
10 - Spellbound: The Classic Film Scores of Miklós Rózsa;
11 - Captain Blood: Classic Film Scores for Errol Flynn;
12 - *Lost Horizon: The Classic Film Scores of Dimitri Tiomkin;
13 - *Star Wars and Close Encounters of the Third Kind;
14 - The Spectacular World of Classic Film Scores.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Diferenças, semelhanças e a construção da paz



Sempre que encontro os amigos mais próximos, o assunto viagem acaba surgindo em nossas conversas. É natural já que todos sabem que costumo aproveitar as férias para visitar novas paisagens, outros povos e, claro, diferentes culturas. Por obra do destino (ou dádiva divina!), há aproximadamente 20 anos conheci primos na Espanha e amigos na Alemanha que vêm me proporcionando férias inesquecíveis ao longo desse período. Em meus deslocamentos por terras alheias nesses anos todos, tive a oportunidade de colecionar experiências fantásticas, as quais, de alguma forma, moldaram minha maneira de ser e de encarar o mundo e a própria vida.
No início, o que mais me estimulava a sair do conforto do lar e a me tornar um "forasteiro", ainda que por pouco tempo, era a possibilidade de conhecer novas culturas. Sempre achei fascinante identificar, em cada local, hábitos, costumes e valores distintos de tudo que encontro em minha cidade ou em meu país. Nas primeiras viagens, essa foi minha maior motivação para encarar o desconhecido e o inesperado, no Brasil e no exterior. Mas não demorou muito, ou tantas viagens, para eu mudar o foco e descobrir que o maior prazer dessas aventuras longe de casa, dos familiares e dos amigos não residia na percepção das eventuais diferenças que distinguem povos e culturas distantes, mas na constatação das semelhanças e de nossos traços comuns, que certamente vão além das aparências e de padrões locais de comportamento.
Costumamos desconfiar ou ter medo de tudo que nos é estranho. É normal pois faz parte da natureza humana. Por isso mesmo, procurar conhecer (e entender) o outro, seja ele o vizinho, o porteiro do prédio, o jornaleiro ou ainda o estrangeiro do país mais distante, é o melhor caminho para o entendimento, o respeito mútuo e a construção da paz.


domingo, 2 de novembro de 2014

Brasil, uma nova república bolivariana?



Fico assustado vendo tanta gente nas redes sociais, por certo militantes petistas não suficientemente satisfeitos com a vitória da Dilma, indignada e intolerante com a reação da oposição ao resultado das eleições, agora, mais do que nunca, alerta e atuante (excluindo, é claro, a estupidez dos pedidos de impeachment da Dilma e de intervenção militar no país (!?!?!), motivos da manifestação ruidosa ocorrida ontem em São Paulo). São democráticos? Duvido muito, mas duvido muito mesmo!!
Alguns nem se dão ao trabalho de disfarçar o desejo de transformar o Brasil em mais uma republiqueta bolivariana, a exemplo de Venezuela e Equador, onde as oposições são reprimidas e caladas por todos os meios disponíveis (asfixia econômica da imprensa crítica, prisões, assassinatos etc.).
Não são adversários da direita, do Aécio ou dos projetos tucanos. São nitidamente inimigos da democracia e, por extensão, do próprio país. A sociedade brasileira, principalmente a (quase) outra metade da população que não votou no PT, da qual convictamente faço parte, deve estar vigilante para evitar qualquer possibilidade de retrocesso político.


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O genial, o louco e o triunfo da arte



Aprecio música clássica há pelo menos 30 anos, e cada vez que ouço uma obra de Richard Wagner, como fiz ontem à noite assistindo ao concerto "The Ring without Words", síntese sinfônica extraída da tetralogia "O Anel do Nibelungo" pelo maestro Lorin Maazel, tenho a forte impressão de que, por mais que se reconheça e valorize o talento extraordinário de outros mestres (Bach, Mozart, Beethoven etc.), jamais houve um compositor tão genial como Richard Wagner. É um gigante da música que pode figurar, sem favor algum, ao lado dos maiores gênios da humanidade, como Leonardo da Vinci, Michelangelo e Einstein, tamanha a importância de seu legado, fonte inesgotável de prazer e inspiração para gerações seguidas de diletantes, músicos e compositores.
Curiosamente, o homem dotado dessa assombrosa genialidade demonstrou, ao longo de quase 70 anos de vida, ter tido um caráter comprovadamente deplorável. Antissemita, Wagner publicou diversos trabalhos criticando a influência judaica na sociedade alemã. Além disso, egoísta e oportunista, era capaz de fazer qualquer coisa para promover suas obras, não poupando nem os amigos mais próximos, incluindo o próprio rei Ludwig II, da Baviera. Conhecido como o "Rei Louco", Ludwig II idolatrava Wagner e, manipulado pelo compositor, contribuiu para arruinar as finanças do reino financiando seus projetos megalomaníacos, como, por exemplo, a construção do Teatro do Festival de Bayreuth, dedicado exclusivamente à encenação das óperas wagnerianas, evento anual que continua reunindo fãs ardorosos de Wagner espalhados pelo mundo.
Lamento apenas que, hoje em dia, não muitos se disponham a descobrir o universo maravilhoso que se descortina ao ouvir as extensas e complexas obras do compositor alemão. Elas certamente representam o triunfo da arte sobre as imperfeições humanas e a finitude da vida.


Montagem do "Anel do Nibelungo" no Metropolitan, em Nova York


Teatro de Bayreuth, na Baviera - Alemanha



quinta-feira, 11 de setembro de 2014

"O Peso da Responsabilidade" e a direita envergonhada no Brasil



Em tempos de direita envergonhada no Brasil, que se esquiva covarde e astutamente de se posicionar sobre suas próprias doutrinas, valores e propostas concretas para o país (com poucas exceções, como os casos do radical Jair Bolsonaro e de algumas lideranças religiosas), nada melhor do que ler "O Peso da Responsabilidade" (lançado originalmente em 1998, mas só agora publicado no Brasil), livro escrito pelo brilhante historiador Tony Judt, já falecido, sobre três intelectuais franceses - Albert Camus, Raymond Aron e Léon Blum - que mantiveram publicamente suas convicções, nadando contra a maré comunista (ou marxista) que encantou gerações de intelectuais ao longo do século XX. 
Cabe destacar que já li várias obras do autor e, como ele, sempre tive uma grande simpatia pela social-democracia experimentada em boa parte da Europa no período de pós-guerra, em especial na Escandinávia, na França e na Alemanha. Esse sistema de governo, responsável pela implementação do famoso estado de bem-estar social, proporcionou uma distribuição de renda sem precedentes entre as populações do continente, dentre outros benefícios sociais como saúde, educação e serviços públicos de qualidade. Infelizmente, dizem os especialistas, o bem-estar social que ajudou a formar gerações inteiras de europeus na segunda metade do século XX não tem mais lugar no mundo de hoje, cada vez mais globalizado e competitivo. Tenho minhas dúvidas. 
Esclareço, porém, que não acredito que seja possível construir um país verdadeiramente justo, capaz de oferecer as melhores oportunidades de realização humana, quando o Estado tutela política, social e economicamente seus cidadãos. Portanto, também na esfera da vida privada, entendo que deve haver um equilíbrio entre fomento público e esforço pessoal ou individual. 
Em função de tudo isso, penso que a leitura de "O Peso da Responsabilidade", de Tony Judt, serve, no mínimo, como uma boa e oportuna reflexão sobre alguns temas políticos controversos, às vésperas da realização de novas eleições no Brasil.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A obra-prima de Nino Rota para o cinema



"O Leopardo", filme baseado no romance homônimo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, corresponde, possivelmente, à mais bem-sucedida parceria do cineasta Luchino Visconti com o compositor Nino Rota. O clássico do mestre italiano de tantas obras magníficas, tais como "Roco e seus irmãos", "Morte em Veneza" e "Ludwig", teve a sorte de contar com Nino Rota em seu melhor momento no cinema. 
Elaborado em forma de sonata, como uma verdadeira sinfonia, o score composto por Rota para o filme reúne tudo que uma trilha sonora  deve oferecer, e muito mais! Lírica, delicada, elegante, majestosa e, quando necessário, vibrante e impetuosa, essa antológica criação de Nino Rota é perfeita, não devendo absolutamente nada aos grandes scores de toda a história do cinema. Por isso mesmo, e não é pouca coisa, está à altura da obra-prima de Visconti sobre a decadência da aristocracia siciliana em meados do século XIX, durante o processo de formação do moderno estado italiano.  
O link abaixo contém um pequeno trecho da belíssima trilha sonora composta por Nino Rota para o filme.



segunda-feira, 1 de setembro de 2014

"The Classic Film Scores" e os anos de ouro de Hollywood



A série "The Classic Film Scores" reúne trilhas sonoras clássicas de Hollywood, compostas por mestres como Franz Waxman, Erich Wolfgang Korngold, Dimitri Tiomkin, David Raksin, Max Steiner etc.
Lançadas inicialmente em formato de LP, as obras foram transferidas para cd ao longo da década de 1980, sob a supervisão técnica e artística do já falecido maestro e arranjador Charles Gerhardt.
Recentemente, entre 2010 e 2011, a Sony relançou os cds a partir de uma cuidadosa remasterização das gravações, permitindo às novas gerações a oportunidade de desfrutar de obras de indiscutível qualidade artística, combinada com um apuro técnico raro até para as gravações atuais. 
Trata-se de uma coleção primorosa, integrada por scores antológicos de compositores dos anos de ouro do cinema americano, para filmes que também marcaram época (Laura, Crepúsculo dos Deuses, Rebecca, O Príncipe Valente, Horizonte Perdido, O Príncipe e o Mendigo etc). Além disso, os livretos que acompanham as edições contêm uma pequena biografia do compositor e ainda detalhes curiosos das produções.
Por enquanto, só tenho os cds acima, mas pretendo completar a coleção de 13 títulos, infelizmente só disponíveis no exterior.