sábado, 21 de fevereiro de 2015

No fundo do poço!



Em décadas acompanhando futebol, nunca vi um desnível tão grande entre o futebol que se joga nas ligas europeias e aquele que se pratica no Brasil. Embora por lá também se veja jogos ruins, como o de duas semanas atrás entre Everton e Liverpool, pela liga inglesa, o fato é que, de uma maneira geral, dá gosto assistir às partidas dos campeonatos do velho continente, em especial da Inglaterra, da França e da Alemanha. Sob todos os pontos de vista, incluindo o disciplinar, o gerencial e, claro, o técnico, eles se encontram anos-luz à frente do futebol brasileiro. Por que chegamos a esse ponto é a questão. Talvez o "7 a 1" seja um triste reflexo de tudo isso e não apenas um acidente de percurso, como muitos românticos e saudosistas ainda preconizam.


54 anos depois, a volta do maior herói do cinema americano



Eleito pelo "American Film Institute", em 2003, como o maior herói do cinema americano, Atticus Finch é um advogado que defende um homem negro injustamente acusado de estuprar uma jovem branca, na cidade fictícia de Macomb, no Alabama. Vivido por Gregory Peck em "O Sol é Para Todos", de 1962, o personagem representa o modelo de americano virtuoso, solidário e justo.
Finch é o protagonista do romance de estreia de Harper Lee que inspirou o filme, publicado originalmente em 1961. Vencedora do Prêmio Pulitzer, a obra vendeu 30 milhões de cópias, foi traduzida para 40 línguas, jamais saiu de catálogo e foi escolhida pelos bibliotecários americanos, em 2000, o "romance do século".
Pois é, a autora, agora com 88 anos, publicará a continuação da obra no próximo mês de julho, com o título "Go set a watchman", na qual a filha de Finch retorna à cidade natal 20 anos depois para visitar o pai e lembrar dos acontecimentos que marcaram sua infância. 
Na há previsão de lançamento do livro no mercado nacional. Quanto a uma nova adaptação para o cinema, os executivos de Hollywood, é claro, já devem estar tratando disso.

Que vença o melhor!


Passado o período de folia, minha expectativa agora é para saber quem levará o Oscar deste ano. Torço para "O Grande Hotel Budapeste", mas os críticos apontam "Birdman" e "Boyhood" como os favoritos. Entre os dois filmes, fico com "Birdman", que tem um argumento muito mais criativo e original. Pra mim, o único fator positivo em relação a "Boyhood" é a natureza inusitada do projeto, ao filmar uma história por longos 12 anos com o mesmo elenco (principal), mantendo o comprometimento dos envolvidos e a necessária unidade dramática. Um esforço técnico e artístico admirável, mas é só! Já vi aquela história contada mil vezes no cinema, e com abordagem semelhante. 
Sobre a disputa pelo Oscar de melhor trilha sonora (original score), acho que Alexandre Desplat, que concorre com duas obras (O Grande Hotel Budapeste e O Jogo da Imitação), deverá ficar sem a estatueta. Na maioria das vezes em que um compositor foi duplamente indicado, acabou dividindo (ou diluindo) os próprios votos e "entregando" o prêmio a outro concorrente. Mesmo assim, torço para ver Desplat recebendo o Oscar na noite de domingo, pois o considero um dos mais brilhantes compositores de cinema da atualidade.

Uma carreira interrompida?




Assisti nessa semana a um documentário sobre os escândalos envolvendo Mel Gibson em Hollywood. É impressionante a sequência de "equívocos" cometidos pelo artista nos últimos anos, quase todos provocados por bebedeiras frequentes e flagrantes demonstrações de antissemitismo e preconceito contra as mulheres. Malvisto na comunidade cinematográfica americana, majoritariamente integrada por judeus, Gibson, aos 59 anos, vive hoje isolado, sem amigos e com a carreira seriamente comprometida. 
Embora eu nunca tenha tido a menor simpatia pelas escolhas artísticas de Gibson (em seus filmes, os conflitos são quase sempre resolvidos por meio de violência), devo reconhecer no ator/diretor um realizador com perfeito domínio da produção e da linguagem cinematográfica. Entretanto, como afirma um entrevistado no programa, ataques a gays e judeus não costumam ser perdoados em Hollywood. E Gibson, do alto de sua presunção e soberba, preferiu desafiar a "lei" e literalmente pagar pra ver!


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Guerra nas Estrelas, Charles Gerhardt e o score "bastardo" de John Williams



O arranjo para (em minha opinião) o mais belo trecho da antológica trilha sonora de "Guerra nas Estrelas", de John Williams, que contribuiu decisivamente para que eu me tornasse fã incondicional do compositor, curiosamente não é de autoria do mestre. 
Trata-se, pelo que apurei, de uma suíte adaptada pelo arranjador Charles Gerhardt (autorizada por John Williams) da música escrita para as cenas finais/créditos do filme (The Throne Room/End Title), integrante do cd acima, lançado em 1977, mesmo ano da estreia da produção nos cinemas americanos.
Tenho que admitir, ficou muito melhor do que a gravação para o filme. E, sem exagero algum, sempre que ouço um determinado trecho de apenas 20 segundos acabo com lágrimas nos olhos, o que não ocorre ouvindo a mesma faixa da trilha original. Um trabalho primoroso infelizmente ignorado por grande parte dos fãs do filme, da trilha sonora e do próprio John Williams. 
Para quem não sabe, Charles Gerhardt (1927-1999) foi um produtor, regente e arranjador americano verdadeiramente apaixonado por trilhas sonoras, responsável pela gravação, ao longo da década de 1970, de 14 LPs com alguns dos scores mais emblemáticos de toda a história do cinema (relação abaixo), fazendo uso dos mais avançados recursos de áudio da época. Um legado precioso também disponível em cd (ou formato digital) para as novas gerações de amantes de músicas de filmes. Eu já tenho nove títulos (*) e espero completar a coleção.

  1 - *The Sea Hawk: The Classic Film Scores of Erich Wolfgang Korngold;
  2 - Now Voyager: The Classic Film Scores of Max Steiner;
  3 - *Classic Film Scores for Bette Davis;
  4 - *Captain from Castile: The Classic Film Scores of Alfred Newman;
  5 - *Elizabeth and Essex: The Classic Film Scores of Erich Wolfgang Korngold;
  6 - *Casablanca: Classic Film Scores for Humphrey Bogart;
  7 - Gone with the Wind;
  8 - *Citizen Kane: The Classic Film Scores of Bernard Hermann;
  9 - *Sunset Boulevard: The Classic Film Scores of Franz Waxman;
10 - Spellbound: The Classic Film Scores of Miklós Rózsa;
11 - Captain Blood: Classic Film Scores for Errol Flynn;
12 - *Lost Horizon: The Classic Film Scores of Dimitri Tiomkin;
13 - *Star Wars and Close Encounters of the Third Kind;
14 - The Spectacular World of Classic Film Scores.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Diferenças, semelhanças e a construção da paz



Sempre que encontro os amigos mais próximos, o assunto viagem acaba surgindo em nossas conversas. É natural já que todos sabem que costumo aproveitar as férias para visitar novas paisagens, outros povos e, claro, diferentes culturas. Por obra do destino (ou dádiva divina!), há aproximadamente 20 anos conheci primos na Espanha e amigos na Alemanha que vêm me proporcionando férias inesquecíveis ao longo desse período. Em meus deslocamentos por terras alheias nesses anos todos, tive a oportunidade de colecionar experiências fantásticas, as quais, de alguma forma, moldaram minha maneira de ser e de encarar o mundo e a própria vida.
No início, o que mais me estimulava a sair do conforto do lar e a me tornar um "forasteiro", ainda que por pouco tempo, era a possibilidade de conhecer novas culturas. Sempre achei fascinante identificar, em cada local, hábitos, costumes e valores distintos de tudo que encontro em minha cidade ou em meu país. Nas primeiras viagens, essa foi minha maior motivação para encarar o desconhecido e o inesperado, no Brasil e no exterior. Mas não demorou muito, ou tantas viagens, para eu mudar o foco e descobrir que o maior prazer dessas aventuras longe de casa, dos familiares e dos amigos não residia na percepção das eventuais diferenças que distinguem povos e culturas distantes, mas na constatação das semelhanças e de nossos traços comuns, que certamente vão além das aparências e de padrões locais de comportamento.
Costumamos desconfiar ou ter medo de tudo que nos é estranho. É normal pois faz parte da natureza humana. Por isso mesmo, procurar conhecer (e entender) o outro, seja ele o vizinho, o porteiro do prédio, o jornaleiro ou ainda o estrangeiro do país mais distante, é o melhor caminho para o entendimento, o respeito mútuo e a construção da paz.


domingo, 2 de novembro de 2014

Brasil, uma nova república bolivariana?



Fico assustado vendo tanta gente nas redes sociais, por certo militantes petistas não suficientemente satisfeitos com a vitória da Dilma, indignada e intolerante com a reação da oposição ao resultado das eleições, agora, mais do que nunca, alerta e atuante (excluindo, é claro, a estupidez dos pedidos de impeachment da Dilma e de intervenção militar no país (!?!?!), motivos da manifestação ruidosa ocorrida ontem em São Paulo). São democráticos? Duvido muito, mas duvido muito mesmo!!
Alguns nem se dão ao trabalho de disfarçar o desejo de transformar o Brasil em mais uma republiqueta bolivariana, a exemplo de Venezuela e Equador, onde as oposições são reprimidas e caladas por todos os meios disponíveis (asfixia econômica da imprensa crítica, prisões, assassinatos etc.).
Não são adversários da direita, do Aécio ou dos projetos tucanos. São nitidamente inimigos da democracia e, por extensão, do próprio país. A sociedade brasileira, principalmente a (quase) outra metade da população que não votou no PT, da qual convictamente faço parte, deve estar vigilante para evitar qualquer possibilidade de retrocesso político.


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O genial, o louco e o triunfo da arte



Aprecio música clássica há pelo menos 30 anos, e cada vez que ouço uma obra de Richard Wagner, como fiz ontem à noite assistindo ao concerto "The Ring without Words", síntese sinfônica extraída da tetralogia "O Anel do Nibelungo" pelo maestro Lorin Maazel, tenho a forte impressão de que, por mais que se reconheça e valorize o talento extraordinário de outros mestres (Bach, Mozart, Beethoven etc.), jamais houve um compositor tão genial como Richard Wagner. É um gigante da música que pode figurar, sem favor algum, ao lado dos maiores gênios da humanidade, como Leonardo da Vinci, Michelangelo e Einstein, tamanha a importância de seu legado, fonte inesgotável de prazer e inspiração para gerações seguidas de diletantes, músicos e compositores.
Curiosamente, o homem dotado dessa assombrosa genialidade demonstrou, ao longo de quase 70 anos de vida, ter tido um caráter comprovadamente deplorável. Antissemita, Wagner publicou diversos trabalhos criticando a influência judaica na sociedade alemã. Além disso, egoísta e oportunista, era capaz de fazer qualquer coisa para promover suas obras, não poupando nem os amigos mais próximos, incluindo o próprio rei Ludwig II, da Baviera. Conhecido como o "Rei Louco", Ludwig II idolatrava Wagner e, manipulado pelo compositor, contribuiu para arruinar as finanças do reino financiando seus projetos megalomaníacos, como, por exemplo, a construção do Teatro do Festival de Bayreuth, dedicado exclusivamente à encenação das óperas wagnerianas, evento anual que continua reunindo fãs ardorosos de Wagner espalhados pelo mundo.
Lamento apenas que, hoje em dia, não muitos se disponham a descobrir o universo maravilhoso que se descortina ao ouvir as extensas e complexas obras do compositor alemão. Elas certamente representam o triunfo da arte sobre as imperfeições humanas e a finitude da vida.


Montagem do "Anel do Nibelungo" no Metropolitan, em Nova York


Teatro de Bayreuth, na Baviera - Alemanha



quinta-feira, 11 de setembro de 2014

"O Peso da Responsabilidade" e a direita envergonhada no Brasil



Em tempos de direita envergonhada no Brasil, que se esquiva covarde e astutamente de se posicionar sobre suas próprias doutrinas, valores e propostas concretas para o país (com poucas exceções, como os casos do radical Jair Bolsonaro e de algumas lideranças religiosas), nada melhor do que ler "O Peso da Responsabilidade" (lançado originalmente em 1998, mas só agora publicado no Brasil), livro escrito pelo brilhante historiador Tony Judt, já falecido, sobre três intelectuais franceses - Albert Camus, Raymond Aron e Léon Blum - que mantiveram publicamente suas convicções, nadando contra a maré comunista (ou marxista) que encantou gerações de intelectuais ao longo do século XX. 
Cabe destacar que já li várias obras do autor e, como ele, sempre tive uma grande simpatia pela social-democracia experimentada em boa parte da Europa no período de pós-guerra, em especial na Escandinávia, na França e na Alemanha. Esse sistema de governo, responsável pela implementação do famoso estado de bem-estar social, proporcionou uma distribuição de renda sem precedentes entre as populações do continente, dentre outros benefícios sociais como saúde, educação e serviços públicos de qualidade. Infelizmente, dizem os especialistas, o bem-estar social que ajudou a formar gerações inteiras de europeus na segunda metade do século XX não tem mais lugar no mundo de hoje, cada vez mais globalizado e competitivo. Tenho minhas dúvidas. 
Esclareço, porém, que não acredito que seja possível construir um país verdadeiramente justo, capaz de oferecer as melhores oportunidades de realização humana, quando o Estado tutela política, social e economicamente seus cidadãos. Portanto, também na esfera da vida privada, entendo que deve haver um equilíbrio entre fomento público e esforço pessoal ou individual. 
Em função de tudo isso, penso que a leitura de "O Peso da Responsabilidade", de Tony Judt, serve, no mínimo, como uma boa e oportuna reflexão sobre alguns temas políticos controversos, às vésperas da realização de novas eleições no Brasil.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A obra-prima de Nino Rota para o cinema



"O Leopardo", filme baseado no romance homônimo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, corresponde, possivelmente, à mais bem-sucedida parceria do cineasta Luchino Visconti com o compositor Nino Rota. O clássico do mestre italiano de tantas obras magníficas, tais como "Roco e seus irmãos", "Morte em Veneza" e "Ludwig", teve a sorte de contar com Nino Rota em seu melhor momento no cinema. 
Elaborado em forma de sonata, como uma verdadeira sinfonia, o score composto por Rota para o filme reúne tudo que uma trilha sonora  deve oferecer, e muito mais! Lírica, delicada, elegante, majestosa e, quando necessário, vibrante e impetuosa, essa antológica criação de Nino Rota é perfeita, não devendo absolutamente nada aos grandes scores de toda a história do cinema. Por isso mesmo, e não é pouca coisa, está à altura da obra-prima de Visconti sobre a decadência da aristocracia siciliana em meados do século XIX, durante o processo de formação do moderno estado italiano.  
O link abaixo contém um pequeno trecho da belíssima trilha sonora composta por Nino Rota para o filme.



segunda-feira, 1 de setembro de 2014

"The Classic Film Scores" e os anos de ouro de Hollywood



A série "The Classic Film Scores" reúne trilhas sonoras clássicas de Hollywood, compostas por mestres como Franz Waxman, Erich Wolfgang Korngold, Dimitri Tiomkin, David Raksin, Max Steiner etc.
Lançadas inicialmente em formato de LP, as obras foram transferidas para cd ao longo da década de 1980, sob a supervisão técnica e artística do já falecido maestro e arranjador Charles Gerhardt.
Recentemente, entre 2010 e 2011, a Sony relançou os cds a partir de uma cuidadosa remasterização das gravações, permitindo às novas gerações a oportunidade de desfrutar de obras de indiscutível qualidade artística, combinada com um apuro técnico raro até para as gravações atuais. 
Trata-se de uma coleção primorosa, integrada por scores antológicos de compositores dos anos de ouro do cinema americano, para filmes que também marcaram época (Laura, Crepúsculo dos Deuses, Rebecca, O Príncipe Valente, Horizonte Perdido, O Príncipe e o Mendigo etc). Além disso, os livretos que acompanham as edições contêm uma pequena biografia do compositor e ainda detalhes curiosos das produções.
Por enquanto, só tenho os cds acima, mas pretendo completar a coleção de 13 títulos, infelizmente só disponíveis no exterior.


domingo, 6 de julho de 2014

Futebol, Copa do Mundo e o poder da FIFA



Sempre tive minhas diferenças com o futebol, principalmente por causa da irracionalidade que domina boa parte dos torcedores, capazes de reações estúpidas em defesa do time do coração, mas é preciso admitir que só mesmo o futebol produz situações como a participação verdadeiramente épica da seleção da Costa Rica nesta Copa do Mundo.
Um time que reúne jogadores em sua maioria desconhecidos no mundo "estrelado" do futebol foi capaz de ganhar de seleções tradicionais e campeões mundiais como Uruguai e Itália, além de empatar com a Inglaterra, outra campeã do mundo, sendo eliminada invicta da competição somente após a disputa de pênaltis contra a poderosa Holanda. 
Não, não há esporte no mundo que permita que tamanha diferença de prestígio (e por vezes técnica) seja reduzida ao mínimo em confrontos diretos numa competição. É certamente por isso que o futebol encanta multidões (ou bilhões!) no mundo inteiro. E agora, pelo que tenho lido, até os norte-americanos, sempre relutantes a se render a qualquer coisa que não lhes seja familiar, estão sendo definitivamente seduzidos pelo velho esporte bretão, ou "soccer", como se referem ao futebol que se pratica no resto do mundo. A foto abaixo mostra o estádio de Chicago lotado de torcedores para acompanhar pelos telões o jogo entre EUA x Portugal, que teve maior audiência nas tv americanas do que as finais da NBA (basquete) e da World Series (beisebol), esportes que se constituem em verdadeiras instituições culturais americanas. 
A FIFA detém os direitos de exploração comercial do evento mais popular e lucrativo do mundo contemporâneo. Das capitais mais ricas do ocidente às regiões mais remotas e pobres do planeta, quase ninguém consegue ficar indiferente aos jogos da Copa do Mundo, independentemente de onde se realize. Pela riqueza e pelo patrimônio que administra, A FIFA se constitui, portanto, numa instituição mais poderosa do que muitas corporações capitalistas e governos nacionais, o que, para o bem e para o mal, torna o futebol um assunto muito mais sério do que costumamos admitir.  


sábado, 28 de junho de 2014

I Guerra: O conflito que mudou o mundo.


Os principais "aliados" da I Guerra

Há exatamente 100 anos, no dia 28 de junho de 1914, o assassinato, em Sarajevo, do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do império austro-húngaro, provocaria o início da I Guerra Mundial. Para quem tem interesse no assunto, recomendo o excelente livro "Catástrofe 1914: A Europa vai à Guerra", de Max Hastings, que traça um panorama bastante abrangente das causas do conflito e de seus desdobramentos e consequências ao longo do século XX (e até hoje!!). 
Foram aproximadamente 10 milhões de mortos em 4 anos de combates, travados principalmente nas desumanas e insalubres trincheiras espalhadas por boa parte do continente europeu. Diferentemente da II Guerra, cujo senso comum trata como uma luta justa entre o Bem e o Mal, nesse caso, a extensa literatura sobre o tema nos permite afirmar que nunca tantos morreram por tão pouco. Em certa medida, a I Guerra (ou Grande Guerra, assim denominada antes da eclosão da II Guerra) se constituiu na perda da "inocência" de um mundo que mudaria para sempre após o conflito. O conceito de estupidez que sempre associamos à guerra, qualquer guerra, talvez tenha germinado aí, tamanha a insanidade que envolveu as causas de sua deflagração.


Soldados britânicos em trincheiras típicas do conflito

terça-feira, 27 de maio de 2014

Torço por eles, torço pelo Brasil!



Tem sido emocionante conhecer as histórias de vida dos jogadores da seleção brasileira que o "Jornal Nacional" vem contando nas última semanas. De origem humilde, quase todos tiveram que superar carências de toda ordem na infância, incluindo perdas afetivas, até alcançar o sucesso de que desfrutam hoje, fazendo parte da seleção nacional, um sonho comum à maioria dos meninos brasileiros.
O que chama a atenção nas matérias, em particular, é o forte sentido de família revelado por muitos deles. Alguns, mesmo quando eram bem jovens, aproveitaram os primeiros salários para realizar o sonho da casa própria, assumindo até a responsabilidade pelo sustento de pais e irmãos, o que é admirável. E isso, em muitos casos, com menos de 20 anos, portanto, ainda recém-saídos da adolescência. 
Costumamos ver esses jogadores já consagrados em carrões que custam verdadeiras fortunas, revelando um estilo de vida nada condizente com suas origens. E não falta quem os critique por isso (eu mesmo já o fiz algumas vezes). Conhecendo, porém, a trajetória de cada um, fica mais fácil compreender tudo isso. E confesso que dá até vontade de torcer mais ainda para a seleção brasileira, para que cada atleta possa coroar sua comovente e bem-sucedida história de vida com a maior consagração que um jogador brasileiro pode alcançar na carreira, o título de campeão mundial de futebol jogando pela seleção nacional em seu próprio país. Torço por eles, torço pelo Brasil!


sábado, 24 de maio de 2014

Construindo o futuro



Artigo publicado no site da DW (link abaixo), canal internacional de TV da Alemanha, repercute discursos proferidos ontem, 23 de maio, no parlamento alemão (Bundestag), pelo presidente Joachim Gauck e pelo intelectual teuto-iraniano Navid Kermani, sobre a Lei Fundamental alemã (Grundgesetz), no ano em que a Constituição do país completa seu 65º aniversário. O texto propõe uma reflexão a respeito dos valores promovidos pela "Carta Magna" e de possíveis imperfeições, em especial nos artigos referentes à imigração e à concessão de asilo.
Na realidade, a construção de uma sociedade livre e democrática requer aperfeiçoamento constante. A Alemanha, ainda assombrada pelo ignóbil e desastroso passado recente, tem a vantagem (?!) de já saber o que não quer, ou o que precisa evitar. Talvez por isso seja mais fácil para os alemães saber onde querem chegar. E nós, brasileiros, que nação desejamos construir? Que valores perenes devemos cultivar no processo de consolidação de um modelo próprio de sociedade justa e compreensiva (não gosto da expressão tolerante) com a diversidade?



http://www.dw.de/opini%C3%A3o-%C3%A9-preciso-novo-patriotismo-constitucional-na-alemanha/a-17659057

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Gosto, mas não entendo!



Heloísa Fischer, editora responsável pela "Agenda VivaMúsica!", revista especializada em música clássica, aborda no editorial publicado na edição de maio a questão da apreciação da música dita erudita por ouvintes ou espectadores "leigos", ou que assim se consideram. Segundo ela, "gosto de música clássica, mas não entendo" é o comentário que mais ouviu ao longo de todo o tempo em que atua na área. No texto, a jornalista reitera a opinião, já externada em outras oportunidades, de que ninguém precisa entender de música clássica para apreciá-la.
Faz pouco tempo, uma amiga com quem comentei sobre o concerto que assisti recentemente na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, afirmou que, de uma maneira geral, também gosta de música clássica, mas que não entende nada do assunto. O encontro foi casual, eu tinha pressa e não estendi a conversa, mas fiquei intrigado com a observação, afinal, é possível alguém não entender algo que aprecia (ou vice-versa)? E o que significa entender música ou qualquer outra manifestação artística? 
Acredito que se alguém efetivamente gosta de uma sinfonia de Beethoven, ou de um quadro de Renoir, já está, em alguma medida e do seu jeito, entendendo a obra, ainda que eventualmente não disponha de conhecimento teórico para identificar os elementos (ou códigos) de sua construção e todo o universo de significados ali representados. Ou será que é mesmo necessário tudo isso para entender uma obra artística? 



segunda-feira, 5 de maio de 2014

Ignorância, preconceito e indignação


Mais um caso de racismo foi registrado ontem à tarde no futebol espanhol, no final do jogo do Levante contra o Atlético de Madrid.
Há atletas que reagem como Daniel Alves, do Barcelona, que pegou a banana, comeu e continuou jogando como se nada tivesse acontecido. Ótimo pra ele.
Mas há outros, como parece ser o caso do jogador do Levante (eu assisti ao vivo), que reagem com incontida indignação e revolta quando são alvos de manifestações estúpidas de racismo. Sentem-se, com justiça, humilhados e atingidos em sua dignidade, e o que é pior, impotentes diante de atos de violência praticados por covardes que se escudam no anonimato das arquibancadas e na tolerância da sociedade. Eles têm a minha mais sincera e profunda solidariedade.
O fato é que o racismo no futebol não é maior nem menor do que o racismo encontrado na sociedade. A única maneira de reduzi-lo drasticamente, em qualquer país ou instância das relações humanas, é por meio da educação. Enquanto houver preconceito, o que se combate ainda na infância, no ambiente familiar e nos bancos escolares, haverá discriminação. Apenas identificar e punir racistas é o mesmo que negligenciar a saúde e tratar da doença. É pouco e não resolve o problema.



quinta-feira, 3 de abril de 2014

Guerra e desesperança



Transcrevo abaixo, do livro "Éramos Jovens na Guerra", de Sarah Wallis e Svetlana Palmer, um pequeno trecho do diário do jovem russo Yura Ryabinkin, de apenas 16 anos, que vivia com a mãe e a irmã num minúsculo apartamento de Leningrado, durante o cerco da cidade, realizado pelos nazistas entre 1941 e 1944. 
Yura, já pele e osso por não se alimentar direito há semanas, registra as agruras provocadas pela Guerra e tudo que perdeu nos últimos meses de sua ainda curta vida. É um relato singelo, mas profundamente comovente, por se tratar de um adolescente cujas esperanças estavam sendo dolorosa e violentamente subtraídas pelo conflito. Pra mim, não há nada mais triste nesta vida do que uma criança ou um jovem impedido de sonhar, ou de alimentar ilusões sobre o próprio futuro. Por isso mesmo, infelizmente, são eles, os jovens, as maiores vítimas das guerras. 

"9-10 de novembro de 1941
...Depois de semanas..., não me resta nenhum sentimento, só o frio, uma indiferença embotada a tudo. Eu não como o suficiente, durmo mal... Que será que a noite me reserva? Mamãe e Ira voltam para casa com fome, com frio e cansadas. Não temos comida nem lenha, mas o que não falta é muita gritaria, pois um dos nossos vizinhos conseguiu um bocado de carne e cereais em algum lugar, mas eu - eu não tenho. Eles dizem que há carne nas lojas, mas eu não consegui achar. Minha mãe faz aquela cara e dá um suspiro: ela trabalha o dia inteiro, não pode ir às lojas. De modo que lá vou eu de novo, de volta às filas. E volto mais uma vez de mãos abanando. Sei que sou o único que pode conseguir comida, o único que pode nos trazer de volta à vida, mas não tenho forças. Se pelo menos tivesse botas de feltro. Mas não tenho!
Decidi que inchar é melhor que isso. Vou beber toda a água que puder. No momento, só minhas bochechas estão inchadas, mas daqui a uma semana, dentro de um mês, se não for atingido por uma bomba, meu corpo todo estará inchado até o Ano Novo.
Eu me sento e começo a chorar...Tenho apenas 16 anos! Esses canalhas que começaram esta guerra...Adeus meus sonhos da infância! Vocês nunca mais voltarão. Eu queria que o passado simplesmente desaparecesse no inferno, queria nunca ter sabido o que é um pão ou uma salsicha! Queria que as lembranças felizes do passado não ficassem voltando para mim. Felicidade! É a palavra que resume todo o meu passado...Eu costumava me sentir seguro sobre o futuro!!! Nunca mais serei o mesmo..."

Yura não resistiu e integra o contingente de 650 mil civis que perderam a vida no cerco de 900 dias imposto pelos nazistas a Leningrado. Incapaz de se locomover com as próprias pernas, não teve forças para acompanhar a mãe e a irmã (ambas também muito fracas) durante a evacuação da cidade. A mãe morreu dias depois, mas a irmã Ira, acolhida num orfanato, recuperou-se de uma distrofia e sobreviveu à guerra.

Jovem europeu durante a Guerra

terça-feira, 1 de abril de 2014

"Sequestrados" na Cortina de Ferro


Praga

A maioria dos amigos já sabe das minhas frequentes viagens à Europa. Aqui mesmo já relatei episódios pitorescos e interessantes que colecionei nas várias viagens, atravessando países e fronteiras do continente. Naturalmente, diante da grande quantidade de situações que vivenciei ao longo desses anos, algumas permanecem inéditas para a maior parte dos amigos. É o caso que relato a seguir.
Em minha viagem de 2006, fui à Europa acompanhado de um amigo do trabalho, programando uma estada de 10 dias na Alemanha, durante a primeira fase da Copa do Mundo. Lá, encontraríamos um casal de amigos (uma brasileira e um alemão) que vivem em Heidelberg (próximo de Frankfurt), com o propósito de passear pelo país, aproveitando a oportunidade para conhecer algumas cidades-sede. Fomos a Kaiserslautern, Stuttgart e Munique, onde estivemos justamente no dia 09 de junho, data da abertura do evento, certamente um dos dias mais felizes da minha vida!
Antes de chegar à Alemanha, resolvemos visitar Itália, Áustria e República Tcheca como um aperitivo para o "grand finale", que seria o acompanhamento de uma Copa do Mundo no próprio país-sede. Começamos a viagem pela Itália, visitando Roma, Florença, Siena e Veneza. Em seguida, fomos para a Áustria, de trem, passando por Salzburg e Viena, cidade onde permanecemos por 4 dias. Como na época o passe de trem adquirido no Brasil não incluía a República Tcheca (não sei agora), tínhamos que encontrar uma solução local para o deslocamento para Praga. Foi aí que um amigo austríaco, que gentilmente nos recebeu em Viena, e com quem passeamos por um dia inteiro pela cidade, deu a dica para uma das viagens mais pitorescas e inusitadas que já fiz. Segundo ele, a melhor (ou mais barata) maneira de viajar de Viena para Praga seria de ônibus. De fato, o preço anunciado era curiosa e surpreendentemente baixo, apenas 18 euros, o que equivalia ao custo de 3 garrafas de água na cara capital austríaca. É claro que topamos, já que ainda teríamos muitos gastos na Alemanha em plena Copa do Mundo. 
Compramos o "bilhete" numa escritório do centro de Viena, almoçamos rapidamente e chegamos ao local combinado um pouco antes das 15h, o horário informado para a saída. Lá estava o solitário ônibus, numa rua que em nada lembrava uma rodoviária, e apenas com o motorista e o substituto (ambos beirando os 65 anos) no interior. Em seguida, embarcamos e nos acomodamos nos lugares indicados nos respectivos bilhetes. Passados alguns minutos, e já na hora prevista para a saída, estranhamos que ninguém mais tinha embarcado. Como assim? Um ônibus internacional vai partir com apenas dois passageiros? O fato é que logo depois o motorista, acompanhado do eventual substituto, deu a partida no veículo e saímos todos (2 motoristas e 2 passageiros!!) em direção a Praga, cruzando pequena parte da Áustria e um longo trecho do território tcheco. Intrigados com isso, eu e meu amigo começamos a especular sobre o que poderia estar acontecendo. Instantes depois, chegamos à conclusão de que logo na primeira parada o ônibus certamente receberia novos passageiros, e assim seria ao longo do percurso, já que a viagem levaria horas, passando por várias cidades austríacas e tchecas. 
Para nossa surpresa, o veículo só parou uma ou duas horas mais tarde, na fronteira dos dois países, para que a imigração tcheca pudesse checar nossos passaportes e nos liberar para seguir viagem. Enquanto esperávamos pela devolução dos documentos, que foram levados para o interior do posto da alfândega, meu amigo começou a dar sinais de impaciência, suspeitando até que poderíamos ser presos sob alguma falsa alegação. Como não falávamos o idioma tcheco, nem sabíamos se os funcionários da imigração entendiam bem o inglês, imaginamos que havia mesmo o risco de termos problemas de comunicação, caso fosse necessário dar alguma explicação. Em pouco tempo, porém, nossos receios se mostraram infundados. Após devolver nossos passaportes, eles falaram alegremente de futebol e da Copa do Mundo, e nos desejaram uma boa viagem, além de sorte para a seleção brasileira. 
Um pequeno susto que logo substituímos por uma nova suspeita levantada pelo meu amigo. Após tantas horas de viagem cruzando o interior da República Tcheca, passando por cidades como Cesky Krumlov, Zlata Koruna e Tabor, será que estávamos sendo "sequestrados"? Bem, realmente, a viagem estava longe de parecer normal. Como um ônibus atravessa dois países com apenas dois viajantes, sem parar uma única vez para receber novos passageiros? É claro que eu mesmo não dei o menor crédito para isso, mas continuei um pouco intrigado com a situação. Meu amigo, que deve ter visto muitos filmes inspirados na Guerra Fria, resolveu fazer um teste com os possíveis algozes e pediu para parar numa posto de gasolina, alegando que queria ir ao banheiro e tomar um café. Para nosso alívio, o motorista prontamente atendeu, parando num posto de gasolina que mais parecia saído daqueles "road movies" americanos. Desembarcamos, fomos ao banheiro e nos dirigimos à loja de conveniência para tomar o tão aguardado café. Bem, até que tentamos, e com bastante insistência, mas o atendente de plantão naquele fim de mundo, acreditem, só conhecia uma frase em inglês, "we accept euros" (aceitamos euros). E repetia isso o tempo inteiro, apoiando as mãos no balcão. De nossa parte, dizíamos apenas "coffee", "coffee", mas ele não entendia nada. O fato é que saímos do estabelecimento sem conseguir beber o tão precioso líquido. Se não era um sequestro, como suspeitáramos antes, estávamos quase convencidos de que se tratava, pelo menos, de uma "pegadinha" internacional.
De volta à estrada, o ônibus seguiu viagem, mas já não estávamos tão receosos de nossos destinos. É óbvio que se houvesse alguma má intenção dos motoristas eles jamais teriam parado naquele posto de gasolina. Resolvemos, então, afastar os maus pensamentos, e passamos a apreciar a bela paisagem do país. Não demorou muito para que meu amigo resolvesse fazer uma nova solicitação. Levantou-se, foi ao encontro dos motoristas e perguntou se eles tinham café ou qualquer outra bebida para servir. O motorista substituto respondeu que café não tinha, mas cerveja sim, afinal, estávamos na República Tcheca, o país das mais famosas cervejas do mundo. Prontamente ele se dirigiu a um pequena geladeira localizada no meio do veículo, retirou de lá uma lata da Krusovice, tradicional cerveja tcheca (de mais de 500 anos!), e a entregou ao meu amigo, cobrando apenas 1 euro. Logo em seguida, indaguei se também havia água. Ele disse que sim e me deu a garrafa, mais uma vez ao custo de 1 euro. Pelo visto, tudo ali custava 1 euro. Se oferecêssemos 1 euro pelo próprio ônibus, desconfio que talvez desse pra levar o "possante".
Quando estávamos bem próximos da chegada a Praga, meu amigo "aprontou" outra vez, fazendo um novo e agora ousado pedido. Como éramos os únicos passageiros em toda a viagem, que durou quase 5 horas, ele resolveu abusar, solicitando ao motorista que nos deixasse na rua do hotel. E conseguiu! Ele parou bem próximo do local que indicamos, e ali descemos do ônibus, não sem antes agradecer aos dois pela gentileza, pela atenção e pela viagem "tranquila" que nos proporcionaram desde Viena. Mal sabiam, é verdade, de nossos suspeitas sobre suas reais intenções.
Para concluir, nos últimos anos, tenho ouvido falar muito da falta de preparo, e até da grosseria, dos tchecos ao receber os turistas. Realmente, mesmo em Praga, poucos falam inglês, porém, esse episódio, que guardo com muito carinho em minha memória, serve como um testemunho legítimo de como é possível encontrar pessoas gentis e amáveis em qualquer lugar do mundo. Aliás, a esse respeito, posso relatar diversos episódios ocorridos em minhas viagens que desautorizam a maioria dos clichês sobre a natureza e o temperamento dos europeus, incluídos aí os parisienses de tão má fama. Mas essas são outras histórias.

Praga

domingo, 30 de março de 2014

Ciganos na Europa e a vocação do Brasil


Acampamento cigano na Europa, no séc. XIX

Segundo o site do jornal "El País" (link abaixo), de Madrid, o governo sueco acaba de admitir publicamente que o país perseguiu e esterilizou ciganos, além de raptar suas crianças, ao longo do século passado. O objetivo do atual governo, de acordo com a matéria, é "acertar as contas com o passado para tratar de melhorar o presente". 
Tomara que outros países do continente europeu (e do mundo!), inspirados pelo gesto sueco, resolvam seguir o exemplo, assumindo para as novas gerações e para o mundo que tiveram (ou têm) as mesmas práticas, não apenas em relação aos ciganos, mas também a diversas minorias étnicas e sociais desfavorecidas.
É preciso admitir que arte e cultura milenares e belas paisagens não encobrem o passado (em algumas regiões, o próprio presente) sombrio dos povos da Europa. E é de lá, para o bem ou para o mal, que herdamos tudo que somos e representamos no contexto da cada vez mais questionada e decadente civilização ocidental. 
Por sua diversidade humana, artística e cultural, peculiar exatamente por conter uma mescla de diferentes origens e elementos étnicos, o Brasil pode perfeitamente propor ao mundo caminhos alternativos, pavimentados por um novo e avançado conjunto de valores civilizatórios. Sinceramente, acredito que essa seja a nossa verdadeira vocação, mas ainda não estamos credenciados para tal desafio porque insistimos em chafurdar em mazelas sociais, econômicas e políticas já há muito superadas no mundo mais desenvolvido. Eleições após eleições, caminhamos a passos de cágado (quando não patinamos sem sair do lugar!) em direção ao futuro. Enquanto isso, deixamos de efetivamente fazer a diferença no mundo, sem qualquer pretensão, é claro, de gigantismo ou imperialismo.


Família de ciganos na Sérvia